Família Católica

Evangelhos

Ariadne Homepage

A Família no Plano de Deus
 

 

A Família no plano de Deus

Ser intérprete do que Deus planeou ou planeia para a família é serviço profético que me faz tremer.

Antes de mais, Deus tem plano para a família judaica, para a família muçulmana, para a família hindu, para a família ortodoxa, protestante. Concerteza que a organização deste Congresso ao dar-me a bibliografia dos documentos da Igreja católica queria que me limitasse a dizer-vos o plano de Deus de Jesus.

Convém, contudo ter presente que o piano de Deus é sempre interpretado por uma pessoa e um povo, inserido numa realidade social e comunicado segundo um determinado enquadramento cultural. Tudo o que dizemos de Deus é parcial, situado, dependente, pequeno. Convém respeitar o mistério de Deus revelado em Jesus Cristo verdadeiramente exigente de grande humildade na procura do seu querer. Ainda por cima Jesus sobre a família fez poucas afirmações...

Como o tempo é pouco, pensei deixar Deus falar, expor o seu plano. Será uma ousadia que espero respeitareis. Ouçam então o seu plano:

“Os modelos que tenho para vos guiar nos diferentes meios culturais e contextos sociais têm como arquétipos, como dizem os vossos mais eruditos, a minha família trinitária e a vossa família eclesial, que o meu Jesus instituiu entre vós - e, quanto sei, ainda não conseguistes destruir, apesar de tantas divisões.

Foi tão marcante a vossa experiência esponsal que os meus profetas, para se fazerem entender, usaram a linguagem da aliança. Assim expressaram o meu amor pela humanidade. Também os mais abertos ao convívio comigo, a quem vós chamais místicos, descreveram a sua experiência em termos esponsais. Mas quando o meu Jesus entrou no vosso convívio, há dois mil anos, respondeu a algumas inquietações da vossa experiência familiar, nascendo ele próprio numa família, que vós complicastes tomando-a esquisita, porque presos a uma mentalidade dualista e perturbada para entender as minhas maravilhas. No entanto, foi em Jesus que a plenitude do que quero para a família se desvendou. O peso da cultura greco-romana não deixou que brilhasse com todo o esplendor o meu plano para a família no cristianismo em expansão pelo Império, mas a vivência cristã rasgou, nas leis dos Estados, caminhos mais humanos, verdadeiros e justos. O contributo da mentalidade germânica, conjugada com o direito romano, estabeleceu um tipo de família que seria marcado pelo contrato, pelo jurídico e institucionalizado. Até encontrastes, a partir do século VIII, o nome de sacramento para a minha bênção do matrimónio. Alguns descansaram na magia do rito, enredaram-se nas pris5es da lei, e fizeram-me sofrer por estarem vazios da confiança na minha força par viver a condição familiar.

Mas vou falar-vos ponto por ponto, para ser mais fácil. Tudo parte da minha vida de comunhão:

não sou um Solitário infinito mas três pessoas, como vós dizeis, que se amam a ponto de viver unia única vida. Somos uma família e esta família vive plenamente o amor, a comunhão, a distinção, o louvor, a missão, a participação, a santidade, a felicidade festiva. Mas, como tenho consciência que vos criei limitados, vou traduzir, na pobreza dos vossos termos humanos, este plano que concebi para a família.  

1. Antes de mais sou Amor. Toda a minha personalidade de Pai está no dar a vida ao Filho; toda a personalidade do Filho (minha obra-prima) está em me dar glória infinita; toda a personalidade do Espírito Santo está em ser Dom recíproco a Mim e ao meu Filho.

Aplicando à Igreja, ela é a comunidade dos que me amam e se amam reciprocamente, em Cristo e no Espírito Santo.

Daí que a família, como a projectei, seja chamada a tomar-se uma comunidade de amor, na qual se aprendem e se entrelaçam muitos tipos de amor: amor conjugal, amor paterno, amor materno, amor filial, amor fraterno. Chamada a tomar-se uma comunidade de amor, a família é o lugar privilegiado no qual se recebe amor, se dá amor, se aprende a amar. Os membros de uma família cristã, sendo meus filhos e membros do meu Jesus, são chamados a amar-se sobrenaturalmente, com o coração e a caridade de Cristo.

Quando não conseguis dizeis que é natural. Espero que isso não seja uma crítica velada à minha obra. É que a vós humanos chamei-vos a ir além da natureza!

Eu quis a criação com esta tendência para a relação, a interrelação, porque nascida da fonte da minha caridade eterna (cf. GS 48). As complicações das vossas mentes, danificadas por perversões que não dominastes, demoraram a entender que a sexualidade é um dom que vos ofereci para humanizardes com ternura as tensões dramáticas da vida e para gozardes o prazer com maturidade, equilíbrio e oblatividade, como expressão do amor criador do meu Espírito, de uma paternidade e maternidade descobertas na forma como sempre vos amo.

Ao longo dos séculos foi-se aperfeiçoando esta relação, de modo a abarcar a vida toda, até chegar à entrega mútua, em ordem a um único projecto de vida. Não me pergunteis se se aprende primeiro a amar-me a mim ou a amar-vos entre vós. O melhor é que se unam, de modo que os vários tipos de amor sejam sinal do meu e ajudem os membros da família a descobrir-Me entre vós. Deste modo sereis uma comunidade de fé, confiante no meu plano, expresso no Evangelho. Sereis uma comunidade de esperança projectando a vida para o meu Reino. Sereis uma comunidade de amor, cujos membros me põem no centro da vida.

2. As três pessoas que eu sou amamo-nos tanto que vivemos em comunhão infinita, numa única vida, sendo um só Deus.

A Igreja sendo uma comunidade de amor torna-se a comunidade daqueles que vivem em comunhão com Cristo e, através de Cristo, vivem em comunhão comigo e entre eles. A comunhão é elemento essencial, definitivo, eterno da Igreja. Sem comunhão não há Igreja. Parece que foi o inspirador de serviço cá da casa a conduzir os vossos teólogos para chegarem à “Eclesiologia da comunhão”. A expressão é boa, a realidade ainda precisa muito da minha graça.

Na família, a comunhão passa por um consentimento pessoal e irrevogável (cf.GS 48), por uma comunidade de diálogo. Diálogo do casal, diálogo entre as gerações, diálogo fraterno, diálogo aberto com toda a família humana. O grande atentado à comunhão é a morte do diálogo. Muitas falhas vêm daí. Sem diálogo acontece o contrário da comunhão: timidez, rancor, egoísmo, complexos, agressividade. Esse é o veneno da família. Por isso criai um clima de aceitação das diferenças (de sexo, de idade, de tarefas, de cultura, de empenhamento social e eclesial). Vivei a aceitação mútua e incondicional (cf. GS 48) como complementaridade, partilhando vida, alegrias, sofrimentos, desconfianças. Encontrai tempo para falar, para ouvir, para passear calmamente; onde cada um possa abrir-se, na segurança de ser respeitado e compreendido. Assim, sereis “lugar primário de humanização da pessoa e da sociedade” (cf. CFL 40).  

3. Entre nós, comunidade trinitária, há o máximo de diferença/distinção. Cada Pessoa é ela própria, sem nenhuma confusão entre nós. Na Igreja, a comunhão não é confusão e uniformidade. É convergência das distinções (de pessoas, ministérios, carismas) na harmonia do Corpo de Cristo.

Todos os membros da família, mesmo chamados a viver em comunhão, são “diferentes”. Esta diversidade marca todo o seu ser, e do modo especial a liberdade. A verdadeira liberdade consiste na capacidade de cada um escolher o melhor para si, para Mim e para os outros; fazendo assim a pessoa autorealiza-se, é mais ela própria. É na família que vários sujeitos experimentam permanentemente avançar para o melhor deles mesmos. Cada um realiza a própria individualidade equipada de liberdade para cooperar na construção generosa de si e dos outros. A identidade, a originalidade e a ajuda dos outros favorecem esta autenticidade. Os filhos não são dos pais. São desfavoráveis todas as manipulações e substituições aos outros, bem como as ocasiões de liberdade sem adequada capacidade, ou a troca do crescimento pessoal pelo sucesso. Este crescimento, sob orientação dos pais acontece por mortificações para criar harmonia, desenvolvimento da capacidade de amar, formação para a liberdade e a responsabilidade. Aceitar-vos mutuamente nos conflitos e deficiências é forma de participar na morte e ressurreição do meu Cristo, sinal do triunfo pascal do amor, capaz de superar a vossa infidelidade humana.  

4. O meu Jesus, no amor do meu Espírito Santo, realizam um hino de louvor, que é a minha glória. A Igreja é a comunidade daqueles que unidos como meu Povo, me erguem um culto, que tem como centro o dom do meu Filho, que vós cristãos fazeis presente, de modo central, na eucaristia.

A família é chamada a ser comunidade de oração e de culto. E templo no qual acontece a oração pessoal, a oração do casal, a oração comunitária. É templo no qual me adorais, louvais, agradeceis e amais. É templo no qual celebrais, em momentos altos: o arrependimento e o perdão, a acção de graças e o louvor na festa, a consolação na dor.

Como não posso ser infiel a mim mesmo, planeei a vosso compromisso mútuo para acolher a altura do incondicional e cada um colocar nas mãos do outro a plena realização e felicidade, mesmo na dor, na doença, nas adversidades. A doacção incondicional olha para o futuro com absoluta confiança. A fidelidade para sempre, que vos peço, vivifica-se e consolida-se na doacção incondicional, no quotidiano (Cf. GS 49), ou vão-se cavando muros que um dia se descobrem intransponíveis. Conjugai o valor absoluto de cada pessoa com a capacidade de construir a aventura de um só projecto de vida. Faz parte do meu projecto que a vida familiar seja glorificação do meu ser (Cf. LG li), epifania do meu amor revelado em Cristo. Não renuncieis à participação na eucaristia dominical. O vosso amor limitado e fidelidade débil ficam abarcados, sustentados, purificados e aperfeiçoados pelo meu amor e pela minha fidelidade. Só assim guardareis a beleza do amor e persevareis na vocação matrimonial.  

5. Eu enviei o meu Filho para salvar a humanidade. Eu e o meu Filho enviamos o Espírito Santo para levar a salvação ao coração humano.

Cada membro da família eclesial é missionário, desempenha uma missão, um serviço, uma tarefa

insubstituível em favor da vitalidade e actividade de todo o corpo.

A Família é chamada a assumir a sua missão como parte integrante da sua identidade, como pequena comunidade missionária em que cada um oferece os seus dons: há quem dê autoridade, há quem dê experiência, há quem dê sabedoria, há quem dê ternura, há quem dê alegria... Até há quem dê arrelias e aflições...!

Não é suficiente o serviço recíproco. É necessário que o serviço seja praticado para com o exterior: os parentes, os conhecidos, os amigos, outras famílias, a paróquia, a sociedade. Não é suficiente que o serviço seja natural. A família descobrirá o empenho apostólico, evangelizador e alguns até terão possibilidade de se disporem a seguir o meu apelo para gastarem todas as energias a transmitir a minha vontade aos habitantes da terra. Se ser família fosse mais uma vocação e menos uma instituição, abrir-se-iam novas vocações para a missão na Igreja.  

6. Em todas as operações realizadas no exterior da vida trinitária há a participação de todas as Pessoas divinas. A Igreja vive a comunhão e a missão com a participação de todos.

Na família, como a projectei, cada um desenvolve a sua missão para o bem de todos e cada um está no coração da missão do outro como se fosse a sua. O bem de cada um é o bem de todos e o bem de todos é o bem de cada um. Chamo a vossa atenção para a actual tendência das vossas famílias, nas quais cada um trata da sua vida sem participar na vida dos outros. Se isto é importante na sociedade e na Igreja, é fulcral e intenso nas famílias. Aí se formam os valores da cidadania, o gosto de participar e se envolver no bem comum que diz respeito a todos.

Como dizem os belos textos dos documentos “o futuro da humanidade passa pelas famílias” (FC 85). Elas são o “primeiro espaço para o empenhamento social” da Igreja (CFL 40). Se a função educativa pode ser em parte transferível para instâncias sociais, a função humanizadora nunca pode ser transferida sem prejuízos  

7. Cá entre nós, amamo-nos infinitamente. O nosso amor infinito tem como impulso participar o nosso ser e perfeição ao mundo e à humanidade. A santidade consiste no amor e por isso nós Trindade, somos a suprema comunidade de Santos.

Se a Igreja vive o amor, a comunhão, a distinção, o culto, a missão, a participação, torna-se um Povo Santo, que vive em aliança comigo.

A família cristã é chamada a tomar-se uma comunidade santa. Há urna força integradora da totalidade da vida, diante das forças desintegradoras da carne e do sangue. A cultura do vosso tempo incita-vos tanto à exaltação do fim de semana, como vos lança num desinteresse crónico e cansado, aninha-vos num individualismo confuso e esquecido de princípios absolutos e do apelo fundamental à santidade. Não somente cada membro da família e chamado à santidade, mas a família como família é chamada à santidade. É a santidade comunitária, da comunhão amorosa dos vários membros da família com Deus e entre eles. Todos contribuem para a mútua santificação. Não tenhais medo de testemunhar e comunicar, na cultura do provisório e do desassossego, a fidelidade serena. Formai a vossa consciência para propôr o sentido moral com fortaleza e convicção. Neste apelo Eu não esqueço a vossa tensão entre o ideal e a realidade. O meu Jesus continua a fazer tudo para que as comunidades eclesiais sejam rosto da minha incondicional misericórdia, em qualquer situação da vossa vida, mesmo complicada.  

8. Sendo Três Pessoas infinitamente amantes, somos também infinitamente felizes. A vida trinitária é uma vida de festa sem limites.

Já destes conta que eu liguei a alegria ao amor e a tristeza ao egoísmo. Se a Igreja vive em Cristo, no amor para comigo e para com os meus filhos, torna-se comunidade de alegria, a caminho de felicidade eterna.

Aquela alegria dos tempos de namoro, aquele júbilo dos primeiros anos da vida dos filhos, porque se apaga, em algumas famílias? Segundo os analistas da sociedade e da cultura contemporânea as famílias aparecem incompletas, fragmentadas, sem valores, sem amor, sem alegria. Se a família se orientar para o ideal que estou a propor, torna-se uma família cheia de alegria e celebra comunitariamente esta alegria nos pequeninos e grandes acontecimentos que dão ritmo à sua história.

Os modelos culturais podem alterar-se. Não percais tempo a defender modelos do passado. Construi modelos novos, estáveis, fecundos, no meio das presentes circunstâncias históricas. Quanto mais graves forem as ameaças exteriores, quanto mais sistemática for a marginalização e esvaziamento social, mais decididas e felizes, ancoradas no meu projecto, sejam as vossas famílias.

  ***

  Expostos estes oito pontos, para finalizar: peço-vos que não vos preocupeis tanto em organizar Congressos da Família com impacto passageiro e vistoso, mas dedicai-vos de alma e coração a formar cristãos em pequenas comunidades, por encontros periódicos capazes de vos questionarem e de converterem os critérios e opções familiares, de modo permanente pela sabedoria do Evangelho da vida.

Mas a vantagem de vos ter aqui todos juntos a ouvir-me permite que vos diga: defendei o meu projecto com unhas e dentes, mesmo sem arranhar ou ferrar em ninguém. Sede corajosos protagonistas do possível e tendes entre vós provas para acreditar que o impossível acontecerá por graça jorrante do meu amor. Quero contar com todos vós para dizer e testemunhar aos que não contam comigo que tenho uma novidade feliz para a família plural e atribulada deste tempo.

 

Pe. Carlos A. Moreira Azevedo
Vice-Reitor da UCP

WB00789_1.gif (161 bytes)