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Índice
INTRODUÇÃO
A_Igreja_ao_serviço_da_família
O_Sínodo_de_1980_na_continuidade_dos_Sínodos_precedentes_
O_bem_precioso_do_matrimónio_e_da_família_
PRIMEIRA_PARTE
LUZES_E_SOMBRAS_DA_FAMÍLIA_DE_HOJE
Necessidade_de_conhecer_a_situação_
O_discernimento_evangélico
A_situação_da_família_no_mundo_de_hoje_
O_influxo_da_situação_na_consciência_dos_fiéis_
A_nossa_época_tem_necessidade_de_sabedoria_
Gradualidade_e_conversão
«Inculturação»
SEGUNDA_PARTE
O_DESÍGNIO_DE_DEUS_SOBRE_O_MATRIMÓNIO_E_SOBRE_A_FAMÍLIA
O_homem_imagem_de_Deus_Amor_
O_matrimónio_e_a_comunhão_entre_Deus_e_os_homens_
Jesus_Cristo,_esposo_da_Igreja,_e_o_sacramento_do_matrimónio_
Os_filhos,_dom_preciosíssimo_do_matrimónio
A_família,_comunhão_de_pessoas_
Matrimónio_e_virgindade_
TERCEIRA_PARTE
OS_DEVERES_DA_FAMÍLIA_CRISTÃ_
Família,_torna-te_aquilo_que_és!_
I_-_A_FORMAÇÃO_DE_UMA_COMUNIDADE_DE_PESSOAS_
O_amor,_princípio_e_força_de_comunhão
A_unidade_indivisível_da_comunhão_conjugal_
Uma_comunhão_indissolúvel_
A_comunhão_mais_ampla_da_família_
Direitos_e_função_da_mulher_
A_mulher_e_a_sociedade
Ofensas_à_dignidade_da_mulher_
O_homem_esposo_e_pai
Os_direitos_da_criança_
Os_anciãos_na_família
II_-_O_SERVIÇO_À_VIDA_
1)_A_transmissão_da_vida_
Cooperadores_do_amor_de_Deus_Criador_
A_doutrina_e_a_norma_sempre_antigas_e_sempre_novas_da_Igreja_
A_Igreja_está_do_lado_da_vida_
Para_que_o_plano_divino_se_realize_sempre_mais_plenamente
Na_visão_integral_do_homem_e_da_sua_vocação
A_Igreja_Mestra_e_Mãe_para_os_cônjuges_em_dificuldade
O_itinerário_moral_dos_esposos_
Suscitar_convicções_e_oferecer_uma_ajuda_concreta_
2)_A_educação
O_direito-dever_dos_pais_de_educar
Educar_para_os_valores_essenciais_da_vida_humana_
A_missão_educativa_e_o_sacramento_do_matrimónio_
A_primeira_experiência_de_Igreja_
Relações_com_outras_forças_educativas
Um_múltiplo_serviço_à_vida
III_-_A_PARTICIPAÇÃO_NO_DESENVOLVIMENTO_DA_SOCIEDADE
A_família,_célula_primeira_e_vital_da_sociedade_
A_vida_familiar_como_experiência_de_comunhão_e_de_participação_
Função_social_e_política_
A_sociedade_ao_serviço_da_família_
A_carta_dos_direitos_da_família_
Graça_e_responsabilidade_da_família_cristã
Para_uma_nova_ordem_internacional_
IV_-_A_PARTICIPAÇÃO_NA_VIDA_E_NA_MISSÃO_DA_IGREJA
A_família_no_mistério_da_Igreja
Uma_função_eclesial_própria_e_original
1)_A_Família_cristã,_comunidade_crente_e_evangelizadora_
A_fé,_descoberta_e_admiração_do_desígnio_de_Deus_sobre_a_família_
O_ministério_de_evangelização_da_família_cristã_
Um_serviço_eclesial_
Pregar_o_Evangelho_a_toda_a_criatura_
2)_A_família_cristã,_comunidade_em_diálogo_com_Deus_
O_santuário_doméstico_da_Igreja
O_matrimónio,_sacramento_de_santificação_mútua_e_acto_de_culto_
Matrimónio_e_Eucaristia
O_sacramento_da_conversão_e_da_reconciliação
A_oração_familiar_
Educadores_de_oração_
Oração_litúrgica_e_privada
Oração_e_vida
3)_A_família_cristã,_comunidade_ao_serviço_do_homem
O_mandamento_novo_do_amor
Descobrir_em_cada_irmão_a_imagem_de_Deus_
QUARTA_PARTE
A_PASTORAL_FAMILIAR:_ETAPAS,_ESTRUTURAS,_RESPONSÁVEIS_E_SITUAÇÕES_
I_-_AS_ETAPAS_DA_PASTORAL_FAMILIAR
A_Igreja_acompanha_a_família_cristã_no_seu_caminho_
A_preparação
A_celebração_
Celebração_do_matrimónio_e_evangelização_dos_baptizados_não_crentes_
Pastoral_pós-matrimonial_
II_-_ESTRUTURAS_DA_PASTORAL_FAMILIAR_
A_comunidade_eclesial_e_a_paróquia_em_particular_
A_família_
As_associações_de_famílias_ao_serviço_das_famílias_
III_-_OS_RESPONSÁVEIS_DA_PASTORAL_FAMILIAR_
Bispos_e_presbíteros
Religiosos_e_religiosas
Leigos_especializados
Usuários_e_operadores_da_comunicacão_social_
IV_-_A_PASTORAL_FAMILIAR_NOS_CASOS_DIFÍCEIS_
Circunstâncias_particulares
Matrimónios_mistos_
Acção_pastoral_perante_algumas_situações_irregulares_
a)_O_matrimónio_à_experiência_
b)_Uniões_livres_de_facto
c)_Católicos_unidos_só_em_matrimónio_civil_
d)_Separados_e_divorciados_sem_segunda_união_
e)_Divorciados_que_contraem_nova_união_
Os_sem-família
CONCLUSÃO_
O_futuro_da_humanidade_passa_pela_família!_

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
FAMILIARIS
CONSORTIO
DE SUA SANTIDADE
JOÃO PAULO II
AO EPISCOPADO
AO CLERO E AOS FIÉS
DE TODA A IGREJA CATÓLICA
SOBRE A FUNÇÃO
DA FAMÍLIA CRISTÃ
NO MUNDO DE HOJE
INTRODUÇÃO
A Igreja ao serviço da família
1.
A FAMÍLIA nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que outras instituições,
tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações
da sociedade e da cultura. Muitas famílias vivem esta situação na
fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento do instituto
familiar. Outras tornaram-se incertas e perdidas frente a seus deveres, ou
ainda mais, duvidosas e quase esquecidas do significado último e da
verdade da vida conjugal e familiar. Outras, por fim, estão impedidas por
variadas situações de injustiça de realizarem os seus direitos fundamenta.
Consciente de que o
matrimónio e a família constituem um dos bens mais preciosos da
humanidade, a Igreja quer fazer chegar a sua voz e oferecer a sua ajuda a
quem, conhecendo já o valor do matrimónio e da família, procura vivê-lo
fielmente, a quem, incerto e ansioso, anda à procura da verdade e a quem
está impedido de viver livremente o próprio projecto familiar. Sustentando
os primeiros, iluminando os segundos e ajudando os outros, a Igreja
oferece o seu serviço a cada homem interessado nos caminhos do matrimónio
e da família.
Dirige-se
particularmente aos jovens, que estão para encetar o seu caminho para o
matrimónio e para a família, abrindo-lhes novos horizontes, ajudando-os a
descobrir a beleza e a grandeza da vocação ao amor e ao serviço da vida.
O Sínodo de 1980
na continuidade dos Sínodos precedentes
2. Um sinal deste
profundo interesse da Igreja pela família foi o último Sínodo dos Bispos
celebrado em Roma de 26 de Setembro a 25 de Outubro de 1980. Este foi uma
continuação natural dos dois precedentes: a família cristã, de facto, é a
primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho à pessoa humana em
crescimento e a levá-la, através de uma catequese e educação progressiva,
à plenitude da maturidade humana e cristã.
Mas não só. O recente
Sínodo liga-se também idealmente de alguma forma com os anteriores sobre o
Sacerdócio ministerial e sobre a justiça no mundo contemporâneo. Na
verdade, enquanto comunidade educativa, a família deve ajudar o homem a
discernir a própria vocação e a assumir o empenho necessário para uma
maior justiça, formando-o desde o início, para relações interpessoais,
ricas de justiça e de amor.
Os Padres Sinodais,
como conclução da última Assembleia, apresentaram-me um amplo elenco de
propostas, que recolhem os frutos das reflexões desenvolvidas no curso de
jornadas de intenso trabalho, e pediram-me com voto unânime fazer-me
intérprete diante da humanidade da viva solicitude da Igreja pela família,
e de oferecer indicações para um renovado empenhamento pastoral neste
sector fundamental da vida humana e eclesial.
Ao cumprir tal tarefa
com a presente Exortação, como uma actuação peculiar do ministério
apostólico que me foi confiado, desejo exprimir a minha gratidão a todos
os participantes no Sínodo pelo contributo precioso de doutrina e de
experiência, que puseram à minha disposição mediante as «Propositiones»,
cujo texto confio ao Conselho Pontifício para a Família, dispondo que
aprofunde o estudo a fim de valorizar cada aspecto das riquezas que
contém.
O bem precioso do
matrimónio e da família
3. A Igreja, iluminada
pela fé, que lhe faz conhecer toda a verdade sobre o precioso bem do
matrimónio e da família e sobre os seus significados mais profundos, sente
mais uma vez a urgência de anunciar o Evangelho, isto é, a «Boa Nova» a
todos indistintamente, em particular a todos aqueles que são chamados ao
matrimónio e para ele se preparam, a todos os esposos e pais do mundo.
Ela está profundamente
convencida de que só com o acolhimento do Evangelho encontra realização
plena toda a esperança que o homem põe legitimamente no matrimónio e na
família.
Queridos por Deus com a
própria criação, o matrimónio e a família estão interiormente ordenados a
complementarem-se em Cristo e têm necesidade da sua graça para serem
curados das feridas do pecado e conduzidos ao seu «princípio», isto é, ao
conhecimento pleno e à realização integral do desígnio de Deus.
Num momento histórico
em que a família é alvo de numerosas forças que a procuram destruir ou de
qualquer modo deformar, a Igreja, sabedora de que o bem da sociedade e de
si mesma está profundamente ligado ao bem da família, sente de modo mais
vivo e veemente a sua missão de proclamar a todos o desígnio de Deus sobre
o matrimónio e sobre a família, para lhes assegurar a plena vitalidade e
promoção humana e cristã, contribuindo assim para a renovação da sociedade
e do próprio Povo de Deus.
PRIMEIRA PARTE
LUZES
E SOMBRAS DA FAMÍLIA DE HOJE
Necessidade de
conhecer a situação
4. Uma vez que o
desígnio de Deus sobre o matrimónio e sobre a família visa o homem e a
mulher no concreto da sua existência quotidiana, em determinadas situações
sociais e culturais, a Igreja, para cumprir a sua missão, deve esforçar-se
por conhecer as situações em que o matrimónio e a família se encontram
hoje.
Este conhecimento é,
portanto, uma exigência imprescindível para a obra de evangelização. É na
verdade, às famílias do nosso tempo que a Igreja deve levar o imutável e
sempre novo Evangelho de Jesus Cristo, na forma em que as famílias se
encontram envolvidas nas presentes condições do mundo, chamadas a acolher
e a viver o projecto de Deus que lhes diz respeito. Não só, mas os pedidos
e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história, e,
portanto, a Igreja pode ser guiada para uma intelecção mais profunda do
inexaurível mistério do matrimónio e da família a partir das situações,
perguntas, ansiedades e esperanças dos jovens, dos esposos e dos pais de
hoje.
Deve ainda juntar-se a
isto uma reflexão ulterior de particular importância no tempo presente.
Não raramente ao homem e à mulher de hoje, em sincera e profunda procura
de uma resposta aos graves e diários problemas da sua vida matrimonial e
familiar, são oferecidas visões e propostas mesmo sedutoras, mas que
comprometem em medida diversa a verdade e a dignidade da pessoa humana. É
uma oferta frequentemente sustentada pela potente e capilar organização
dos meios de comunicação social, que põem subtilmente em perigo a
liberdade e a capacidade de julgar com objectividade.
Muitos, já cientes
deste perigo em que se encontra a pessoa humana, empenham-se pela verdade.
A Igreja, com o seu discernimento evangélico, une-se a esses,
oferecendo-lhes o seu serviço em prol da verdade, da liberdade e da
dignidade de cada homem e de cada mulher.
O discernimento evangélico
5. O discernimento
realizado pela Igreja torna-se oferta para orientação que salvaguarde e
realize a inteira verdade e a plena dignidade do matrimónio e da família.
Este discernimento
atinge-se pelo sentido da fé, dom que o Espírito Santo concede a todos os
fiéis, e é, portanto, obra de toda a Igreja, segundo a diversidade dos
vários dons e carismas que, ao mesmo tempo e segundo a responsabilidade
própria de cada um, cooperam para uma mais profunda compreensão e actuação
da Palavra de Deus. A Igreja, portanto, não realiza o discernimento
evangélico próprio só por meio dos pastores, os quais ensinam em nome e
com o poder de Cristo, mas também por meio dos leigos: Cristo
«constituiu-os testemunhas, e concedeu-lhes o sentido da fé e o dom da
palavra (cfr. Act. 2, 17-18; Apoc. 19, 10) a fim de que a força do
Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social». Os leigos,
em razão da sua vocação particular, têm o dever específico de interpretar
à luz de Cristo a história deste mundo, enquanto são chamados a iluminar e
dirigir as realidades temporais segundo o desígnio de Deus Criador e
Redentor.
O «sentido sobrenatural
da fé» não consiste, porém, somente ou necessariamente no consenso dos
fiéis. A Igreja, seguindo a Cristo, procura a verdade, que nem sempre
coincide com a opinião da maioria. Escuta a consciência e não o poder e
nisto defende os pobres e desprezados. A Igreja pode apreciar também a
investigação sociológica e estatística quando se revelar útil para a
compreensão do contexto histórico no qual a acção pastoral deve
desenrolar-se e para conhecer melhor a verdade; tal investigação, porém,
não pode ser julgada por si só como expressão do sentido da fé.
Porque é dever do
ministério apostólico assegurar a permanência da Igreja na verdade de
Cristo e introduzi-la sempre mais profundamente, os Pastores devem
promover o sentido da fé em todos os fiéis, avaliar e julgar com
autoridade a genuinidade das suas expressões, educar os crentes para um
discernimento evangélico sempre mais amadurecido.
Para a elaboração de um
autêntico discernimento evangélico nas várias situações e culturas em que
o homem e a mulher vivem o seu matrimónio e a sua vida familiar, os
esposos e os pais cristãos podem e devem oferecer um seu próprio e
insubstituível contributo. A esta tarefa habilita-os o carisma ou dom
próprio, o dom do sacramento do matrimónio.
A situação da família
no mundo de hoje
6. A situação em que se
encontra a família apresenta aspectos positivos e aspectos negativos:
sinal, naqueles, da salvação de Cristo operante no mundo; sinal, nestes,
da recusa que o homem faz ao amor de Deus.
Por um lado, de facto,
existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção
à qualidade das relações interpessoais no matrimónio, à promoção da
dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos; há,
além disso, a consciência da necessidade de que se desenvolvam relações
entre as famílias por uma ajuda recíproca espiritual e material, a
descoberta de novo da missão eclesial própria da família e da sua
responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa. Por outro
lado, contudo, não faltam sinais de degradação preocupante de alguns
valores fundamentais: uma errada concepção teórica e prática da
independência dos cônjuges entre si; as graves ambiguidades acerca da
relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que
a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número
crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais
frequente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria
mentalidade contraceptiva.
Na raiz destes
fenómenos negativos está muitas vezes uma corrupção da ideia e da
experiência de liberdade concebida não como capacidade de realizar a
verdade do projecto de Deus sobre o matrimónio e a família, mas como força
autónoma de afirmação, não raramente contra os outros, para o próprio
bem-estar egoístico.
Merece também a nossa
atenção o facto de que, nos países do assim chamado Terceiro Mundo, faltem
muitas vezes às famílias quer os meios fundamentais para a sobrevivência,
como o alimento, o trabalho, a habitação, os medicamentos, quer as mais
elementares liberdades. Nos países mais ricos, pelo contrário, o bem-estar
excessivo e a mentalidade consumística, paradoxalmente unida a uma certa
angústia e incerteza sobre o futuro, roubam aos esposos a generosidade e a
coragem de suscitarem novas vidas humanas: assim a vida é muitas vezes
entendida não como uma bênção, mas como um perigo de que é preciso
defender-se.
A situação histórica em
que vive a família apresenta-se, portanto, como um conjunto de luzes e
sombras.
Isto revela que a
história não é simplesmente um progresso necessário para o melhor, mas
antes um acontecimento de liberdade, e ainda um combate entre liberdades
que se opõem entre si; segundo a conhecida expressão de Santo Agostinho,
um conflito entre dois amores: o amor de Deus impelido até ao desprezo de
si, e o amor de si impelido até ao desprezo de Deus.
Segue-se que só a
educação para o amor, radicada na fé, pode levar a adquirir a capacidade
de interpretar «os sinais dos tempos», que são a expressão histórica deste
duplo amor.
O influxo da situação
na consciência dos fiéis
7. Vivendo em tal
mundo, sob pressões derivadas sobretudo dos mass-media, nem sempre os
fiéis souberam e sabem manter-se imunes diante do obscurecimento dos
valores fundamentais e pôr- se como consciência crítica desta cultura
familiar e como sujeitos activos da construção de um humanismo familiar
autêntico.
Entre os sinais mais
preocupantes deste fenómeno, os Padres Sinodais sublinharam, em
particular, o difundir-se do divórcio e do recurso a uma nova união por
parte dos mesmos fiéis; a aceitação do matrimónio meramente civil, em
contradição com a vocação dos baptizados «a casarem-se no Senhor»; a
celebração do sacramento do matrimónio sem uma fé viva, mas por outros
motivos; a recusa das normas morais que guiam e promovem o exercício
humano e cristão da sexualidade no matrimónio.
A nossa época
tem necessidade
de sabedoria
8. Põe-se assim a toda
a Igreja o dever de uma reflexão e de um empenho bastante profundo, para
que a nova cultura emergente seja intimamente evangelizada, sejam
reconhecidos os verdadeiros valores, sejam defendidos os direitos do homem
e da mulher e seja promovida a justiça também nas estruturas da sociedade.
Em tal modo o «novo humanismo» não afastará os homens da sua relação com
Deus, mas conduzi-los-á para Ele mais plenamente.
Na construção de tal
humanismo, a ciência e as suas aplicações técnicas oferecem novas e
imensas possibilidades. Todavia, a ciência, em consequência de posições
políticas que decidem a direcção de investigações e aplicações, é muitas
vezes usada contra o seu significado originário, a promoção da pessoa
humana.
Torna-se, portanto,
necessário recuperar por par te de todos a consciência do primado dos
valores morais, que são os valores da pessoa humana como tal. A nova
compreensão do sentido último da vida e dos seus valores fundamentais é a
grande tarefa que se impõe hoje para a renovação da sociedade. Só a
consciência do primado destes valores consente um uso das imensas
possibilidades colocadas nas mãos do homem pela ciência, que vise
verdadeiramente a promoção da pessoa humana na sua verdade integral, na
sua liberdade e dignidade. A ciência é chamada a juntar-se à sabedoria.
Podem aplicar-se aos
problemas da família as palavras do Concílio Vaticano II: «Mais do que os
séculos passados, o nosso tempo precisa de uma tal sabedoria, para que se
humanizem as novas descobertas dos homens. Está ameaçado, com efeito, o
destino do mundo, se não surgirem homens cheios de sabedoria».
A educação da
consciência moral, que faz o homem capaz de julgar e discernir os modos
aptos para a sua realização segundo a verdade originária, torna-se assim
uma exigência prioritária e irrenunciável.
É a aliança com a
sabedoria divina que deve ser mais profundamente reconstituída na cultura
moderna. De tal Sabedoria cada homem foi feito participante pelo mesmo
gesto criador de Deus. E é só na fidelidade a esta aliança que as famílias
de hoje estarão em grau de influenciar positivamente na construção de um
mundo mais justo e fraterno.
Gradualidade e
conversão
9. Todos devemos
opor-nos com uma conversão da mente e do coração, seguindo a Cristo
Crucificado, no dizer não ao próprio egoísmo, à injustiça originada pelo
pecado - profundamente penetrado também nas estruturas do mundo de hoje -
e que muitas vezes obsta a família na plena realização de si mesma e dos
seus direitos fundamentais. Uma semelhante conversão não poderá deixar de
ter influência benéfica e renovadora mesmo sobre as estruturas da
sociedade.
É
pedida uma conversão contínua, permanente, que, embora exigindo o
afastamento interior de todo o mal e a adesão ao bem na sua plenitude, se
actua concretamente em passos que conduzem sempre para além dela.
Desenvolve-se assim um processo dinamico, que avança gradualmente com a
progressiva integração dos dons de Deus e das exigências do seu amor
definitivo e absoluto em toda a vida pessoal e social do homem. É, por
isso, necessário um caminho pedagógico de crescimento, a fim de que
os fiéis, as famílias e os povos, antes, a própria civilização, daquilo
que já receberam do Mistério de Cristo, possam ser conduzidos
pacientemente mais além, atingindo um conhecimento mais rico e uma
integração mais plena deste mistério na sua vida.
«Inculturação»
10. É de facto
conforme à tradição constante da Igreja recolher das culturas dos povos
tudo aquilo que é em grau de exprimir melhor as inexauríveis riquezas de
Cristo. Só com o concurso de todas as culturas, tais riquezas poderão
manifestar-se sempre mais claramente e a Igreja poderá caminhar para um
conhecimento cada dia mais completo e aprofundado da verdade, que já lhe
foi inteiramente oferecida pelo seu Senhor.
Tendo firme o
duplo princípio da compatibilidade das várias culturas a assumir com o
Evangelho e da comunhão com a Igreja universal, deverá prosseguir-se no
estudo - particularmente por parte das Conferências episcopais e dos
Dicastérios competentes da Cúria Romana - e no empenhamento pastoral para
que esta «inculturação» da fé cristã se realize sempre mais amplamente
também no âmbito do matrimónio e da família.
É mediante a
«inculturação» que se caminha para a reconstituição plena da aliança com a
Sabedoria de Deus, que é o próprio Cristo. A Igreja inteira será
enriquecida também por aquelas culturas que, embora carentes de
tecnologia, são ricas em sabedoria humana e vivificadas por profundos
valores morais.
Para que seja
clara a meta deste caminho e, por conseguinte, seguramente indicada a
estrada, o Sínodo, em primeiro lugar e em profundidade considerou
justamente o projecto originário de Deus acerca do matrimónio e da
família: quis «retornar ao princípio» em obséquio ao ensinamento de
Cristo.
SEGUNDA PARTE
O DESÍGNIO DE DEUS
SOBRE O MATRIMÓNIO
E SOBRE A FAMÍLIA
O
homem imagem de Deus Amor
11. Deus criou o homem
à sua imagem e semelhança: chamando-o à existência por amor,
chamou-o ao mesmo tempo ao amor.
Deus é amor e vive em
si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e
conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e
da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e
da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser
humano.
Enquanto espírito
encarnado, isto é, alma que se exprime no corpo informado por um espírito
imortal, o homem é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O amor
abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do amor
espiritual.
A Revelação cristã
conhece dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na
sua totalidade ao amor: o Matrimónio e a Virgindade. Quer um quer outro,
na sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais
profunda do homem, do seu «ser à imagem de Deus».
Por consequência a
sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os
actos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente
biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal.
Esta realiza-se de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte
integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para
com o outro até à morte. A doação física total seria falsa se não fosse
sinal e fruto da doação pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua
dimensão temporal, está presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa
ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto
já não se doaria totalmente.
Esta totalidade, pedida
pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade
responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano,
supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um
conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é
necessário o estável e concorde contributo dos pais.
O «lugar» único, que
torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio, ou
seja o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o
homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida
pelo próprio Deus, que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro
significado. A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da
sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas
uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se
afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena
fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da
pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjectivismo e
relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora.
O matrimónio e a
comunhão
entre Deus e os homens
12. A comunhão de amor
entre Deus e os homens, conteúdo fundamental da Revelação e da experiência
de fé de Israel, encontra uma sua significativa expressão na aliança
nupcial, que se instaura entre o homem e a mulher.
É por isto que a
palavra central da Revelação, «Deus ama o seu povo», é também pronunciada
através das palavras vivas e concretas com que o homem e a mulher se
declaram o seu amor conjugal. O seu vínculo de amor torna-se a imagem e o
símbolo da Aliança que une Deus e o seu povo. E o mesmo pecado, que pode
ferir o pacto conjugal, torna-se imagem da infidelidade do povo para com o
seu Deus: a idolatria é prostituição, a infidelidade é adultério, a
desobediência à lei é abandono do amor nupcial para com o Senhor. Mas a
infidelidade de Israel não destrói a fidelidade eterna do Senhor e,
portanto, o amor sempre fiel de Deus põe-se como exemplar das relações do
amor fiel que devem existir entre os esposos.
Jesus Cristo, esposo
da Igreja,
e o sacramento do matrimónio
13. A comunhão entre
Deus e os homens encontra o seu definitivo cumprimento em Jesus Cristo, o
Esposo que ama e se doa como Salvador da humanidade, unindo-a a Si como
seu corpo.
Ele revela a verdade
originária do matrimónio, a verdade do «princípio» e, libertando o homem
da dureza do seu coração, torna-o capaz de a realizar inteiramente.
Esta revelação chega à
sua definitiva plenitude no dom do amor que o Verbo de Deus faz à
humanidade, assumindo a natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo
faz de si mesmo sobre a cruz pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício
descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade
do homem e da mulher, desde a sua criação; o matrimónio dos baptizados
torna-se assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no
Sangue de Cristo. O Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e
torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O
amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está interiormente
ordenado: a caridade conjugal, que é o modo próprio e específico com que
os esposos participam e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo
que se doa sobre a Cruz.
Numa página
merecidamente famosa, Tertuliano exprimia bem a grandeza e a beleza desta
vida conjugal em Cristo: «Donde me será dado expor a felicidade do
matrimónio unido pela Igreja, confirmado pela oblação eucarística, selado
pela bênção, que os anjos anunciam e o Pai ratifica? ... Qual jugo aquele
de dois fiéis numa única esperança, numa única observância, numa única
servidão! São irmãos e servem conjuntamente sem divisão quanto ao
espírito, quanto à carne. Mais, são verdadeiramente dois numa só carne e
donde a carne é única, único é o espírito».
Acolhendo e meditando
fielmente a Palavra de Deus, a Igreja tem solenemente ensinado e ensina
que o matrimónio dos baptizados é um dos sete sacramentos da Nova Aliança.
De facto, mediante o
baptismo, o homem e a mulher estão definitivamente inseridos na Nova e
Eterna Aliança, na Aliança nupcial de Cristo com a Igreja. E é em razão
desta indestrutível inserção que a íntima comunidade de vida e de amor
conjugal, fundada pelo Criador, é elevada e assumida pela caridade nupcial
de Cristo, sustentada e enriquecida pela sua força redentora.
Em virtude da
sacramentalidade do seu matrimónio, os esposos estão vinculados um ao
outro da maneira mais profundamente indissolúvel. A sua pertença recíproca
é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de
Cristo com a Igreja.
Os esposos são portanto
para a Igreja o chamamento permanente daquilo que aconteceu sobre a Cruz;
são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação da qual o
sacramento os faz participar. Deste acontecimento de salvação, o
matrimónio como cada sacramento, é memorial, actualização e profecia:
«Enquanto memorial, o sacramento dá-lhes a graça e o dever de recordar as
grandes obras de Deus e de as testemunhar aos filhos; enquanto
actualização, dá-lhes a graça e o dever de realizar no presente, um para
com o outro e para com os filhos, as exigências de um amor que perdoa e
que redime; enquanto profecia dá-lhes a graça e o dever de viver e de
testemunhar a esperança do futuro encontro com Cristo».
Como cada um dos sete
sacramentos, também o matrimónio é um símbolo real do acontecimento da
salvação, mas de um modo próprio. «Os esposos participam nele enquanto
esposos, a dois como casal, a tal ponto que o efeito primeiro e imediato
do matrimónio (res et sacramentum) não é a graça sacramental
propriamente, mas o vínculo conjugal cristão, uma comunhão a dois
tipicamente cristã porque representa o mistério da Encarnação de Cristo e
o seu Mistério de Aliança. E o conteúdo da participação na vida de Cristo
é também específico: o amor conjugal comporta uma totalidade na qual
entram todos os componentes da pessoa - chamada do corpo e do instinto,
força do sentimento e da afectividade, aspiração do espírito e da vontade
- ; o amor conjugal dirige-se a uma unidade profundamente pessoal, aquela
que, para além da união numa só carne, não conduz senão a um só coração e
a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação
recíproca definitiva e abre-se à fecundidade (cfr. Enciclica Humanae
Vitae, n. 9). Numa palavra, trata-se de características normais do
amor conjugal natural, mas com um significado novo que não só as purifica
e as consolida, mas eleva-as a ponto de as tornar a expressão dos valores
propriamente cristãos».
Os filhos, dom
preciosíssimo
do matrimónio
14. Segundo o desígnio
de Deus, o matrimónio é o fundamento da mais ampla comunidade da família,
pois que o próprio instituto do matrimónio e o amor conjugal se ordenam à
procriação e educação da prole, na qual encontram a sua coroação.
Na sua realidade mais
profunda, o amor é essencialmente dom e o amor conjugal, enquanto conduz
os esposos ao «conhecimento» recíproco que os torna «uma só carne», não se
esgota no interior do próprio casal, já que os habilita para a máxima
doação possível, pela qual se tornam cooperadores com Deus no dom da vida
a uma nova pessoa humana. Deste modo os cônjuges, enquanto se doam entre
si, doam para além de si mesmo a realidade do filho, reflexo vivo do seu
amor, sinal permanente da unidade conjugal e síntese viva e indissociável
do ser pai e mãe.
Tornando-se pais, os
esposos recebem de Deus o dom de uma nova responsabilidade. O seu amor
paternal é chamado a tornar-se para os filhos o sinal visível do próprio
amor de Deus, «do qual deriva toda a paternidade no céu e na terra».
Não deve todavia
esquecer-se que, mesmo quando a procriação não é possível, nem por isso a
vida conjugal perde o seu valor. A esterilidade física, de facto, pode ser
para os esposos ocasião de outros serviços importantes à vida da pessoa
humana, como por exemplo a adopção, as várias formas de obras educativas,
a ajuda a outras famílias, às crianças pobres ou deficientes.
A
família, comunhão de pessoas
15. No matrimónio e na
família constitui-se um complexo de relações interpessoais - vida
conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade - mediante as
quais cada pessoa humana é introduzida na «família humana» e na «família
de Deus», que é a Igreja.
O matrimónio e a
família dos cristãos edificam a Igreja: na família, de facto, a pessoa
humana não só é gerada e progressivamente introduzida, mediante a
educação, na comunidade humana, mas mediante a regeneração do baptismo e a
educação na fé, é introduzida também na família de Deus, que é a Igreja.
A família humana,
desagregada pelo pecado, é reconstituída na sua unidade pela força
redentora da morte e ressurreição de Cristo. O matrimónio cristão,
partícipe da eficácia salvífica deste acontecimento, constitui o lugar
natural onde se cumpre a inserção da pessoa humana na grande família da
Igreja.
O mandato de crescer e
de multiplicar-se, dirigido desde o princípio ao homem e à mulher, atinge
desta maneira a sua plena verdade e a sua integral realização.
A Igreja encontra assim
na família, nascida do sacramento, o seu berço e o lugar onde pode actuar
a própria inserção nas gerações humanas, e estas, reciprocamente, na
Igreja.
Matrimónio e virgindade
16. A virgindade e o
celibato pelo Reino de Deus não só não contradizem a dignidade do
matrimónio, mas a pressupõem e confirmam. O matrimónio e a virgindade são
os dois modos de exprimir e de viver o único Mistério da Aliança de Deus
com o seu povo. Quando não se tem apreço pelo matrimónio, não tem lugar a
virgindade consagrada; quando a sexualidade humana não é considerada um
grande valor dado pelo Criador, perde significado a renúncia pelo Reino
dos Céus.
De modo muito justo diz
S. João Crisóstomo: «Quem condena o matrimónio, priva a virgindade da sua
glória; pelo contrário, quem o louva, torna a virgindade mais admirável e
esplendente. O que parece um bem apenas quando comparado ao mal, não é
pois um grande bem; mas o que é melhor do que aquilo que todos consideram
bom, é certamente um bem em grau superlativo»
Na virgindade o homem
está inclusive corporalmente em atitude de espera, pelas núpcias
escatológicas de Cristo com a Igreja, dando-se integralmente à Igreja na
esperança de que Cristo se lhe doe na plena verdade da vida eterna. A
pessoa virgem antecipa assim na sua carne o mundo novo da ressurreição
futura.
Por força deste
testemunho, a virgindade mantém viva na Igreja a consciência do mistério
do matrimónio e defende-o de todo o desvio e de todo o empobrecimento.
Tornando livre de um modo especial o coração humano, «de forma a
inebriá-lo muito mais de caridade para com Deus e para com todos os
homens», a virgindade testemunha que o Reino de Deus e a sua justiça são
aquela pérola preciosa que é preferida a qualquer outro valor, mesmo que
seja grande, e, mais ainda, é procurada como o único valor definitivo. É
por isso que a Igreja, durante toda a sua história, defendeu sempre a
superioridade deste carisma no confronto com o do matrimónio, em razão do
laço singular que ele tem com o Reino de Deus.
Embora tendo renunciado
à fecundidade física, a pessoa virgem torna-se espiritualmente fecunda,
pai e mãe de muitos, cooperando na realização da família segundo o
desígnio de Deus.
Os esposos cristãos têm
portanto o direito de esperar das pessoas virgens o bom exemplo e o
testemunho da fidelidade à sua vocação até à morte. Como para os esposos a
fidelidade se torna às vezes difícil e exige sacrifício, mortificação e
renúncia, também o mesmo pode acontecer às pessoas virgens. A fidelidade
destas, mesmo na provação eventual, deve edificar a fidelidade daqueles.
Estas reflexões sobre a
virgindade podem iluminar e ajudar os que, por motivos independentes da
sua vontade, não se puderam casar e depois aceitaram a sua situação em
espírito de serviço.
TERCEIRA PARTE
OS DEVERES DA
FAMÍLIA CRISTÃ
Família, torna-te aquilo que és!
17. No plano de Deus
Criador e Redentor a família descobre não só a sua «identidade», o que
«é», mas também a sua «missão», o que ela pode e deve «fazer». As tarefas,
que a família é chamada por Deus a desenvolver na história, brotam do seu
próprio ser e representam o seu desenvolvimento dinâmico e existencial.
Cada família descobre e encontra em si mesma o apelo inextinguível, que ao
mesmo tempo define a sua dignidade e a sua responsabilidade: família,
«torna-te aquilo que és»!
Voltar ao «princípio»
do gesto criativo de Deus é então uma necessidade para a família, se se
quiser conhecer e realizar segundo a verdade interior não só do seu ser
mas também do seu agir histórico. E porque, segundo o plano de Deus, é
constituída qual «íntima comunidade de vida e de amor», a família tem a
missão de se tornar cada vez mais aquilo que é, ou seja, comunidade de
vida e de amor, numa tensão que, como para cada realidade criada e
redimida, encontrará a plenitude no Reino de Deus. E numa perspectiva que
atinge as próprias raízes da realidade, deve dizer-se que a essência e os
deveres da família são, em última análise, definidos pelo amor. Por isto
é-lhe confiada a missão de guardar, revelar e comunicar o amor,
qual reflexo vivo e participação real do amor de Deus pela humanidade e do
amor de Cristo pela Igreja, sua esposa.
Cada dever particular
da família é a expressão e a actuação concreta de tal missão fundamental.
É necessário, portanto, penetrar mais profundamente na riqueza singular da
missão da família e sondar os seus conteúdos numerosos e unitários.
Em tal sentido,
partindo do amor e em permanente referência a ele, o recente Sínodo pôs em
evidência quatro deveres gerais da família:
1) a formação de uma
comunidade de pessoas;
2) o serviço à vida;
3) a participação no
desenvolvimento da sociedade;
4) a participação na
vida e na missão da Igreja.
I -
A FORMAÇÃO DE UMA COMUNIDADE DE PESSOAS
O amor, princípio e força
de comunhão
18. A família, fundada
e vivificada pelo amor, é uma comunidade de pessoas: dos esposos, homem e
mulher, dos pais e dos filhos, dos parentes. A sua primeira tarefa é a de
viver fielmente a realidade da comunhão num constante empenho por fazer
crescer uma autêntica comunidade de pessoas.
O princípio interior, a
força permanente e a meta última de tal dever é o amor: como, sem o amor,
a família não é uma comunidade de pessoas, assim, sem o amor, a família
não pode viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas.
Quanto escrevi na Encíclica Redemptor Hominis encontra, exactamente
na familía como tal, a sua aplicação originária e privilegiada: «O homem
não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser
incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for
revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se não o experimenta e
se não o torna algo próprio, se nele não participa vivamente».
O amor entre o homem e
a mulher no matrimónio e, de forma derivada e ampla, o amor entre os
membros da mesma família - entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs,
entre parentes e familiares - é animado e impelido por um dinamismo
interior e incessante, que conduz a família a uma comunhão sempre
mais profunda e intensa, fundamento e alma da comunidade conjugal e
familiar.
A unidade
indivisível
da comunhão conjugal
19. A primeira comunhão
é a que se instaura e desenvolve entre os cônjuges: em virtude do pacto de
amor conjugal, o homem e a mulher «já não são dois, mas uma só carne» e
são chamados a crescer continuamente nesta comunhão através da fidelidade
quotidiana à promessa matrimonial do recíproco dom total.
Esta comunhão conjugal
radica-se na complementariedade natural que existe entre o homem e a
mulher e alimenta-se mediante a vontade pessoal dos esposos de condividir,
num projecto de vida integral, o que têm e o que são: por isso, tal
comunhão é fruto e sinal de uma exigência profundamente humana. Porém, em
Cristo, Deus assume esta exigência humana, confirma-a, purifica-a e
eleva-a, conduzindo-a à perfeição com o sacramento do matrimónio: o
Espírito Santo infuso na celebração sacramental oferece aos esposos
cristãos o dom de uma comunidade nova, de amor, que é a imagem viva e real
daquela unidade singularíssima, que torna a Igreja o indivisível Corpo
Místico do Senhor.
O dom do Espírito é um
mandamento de vida para os esposos cristãos e, ao mesmo tempo, impulso
estimulante a que progridam continuamente numa união cada vez mais rica a
todos os níveis - dos corpos, dos caracteres, dos corações, das
inteligências e das vontades, das almas - revelando deste modo à Igreja e
ao mundo a nova comunhão de amor, doada pela graça de Cristo.
A poligamia contradiz
radicalmente uma tal comunhão. Nega de facto, directamente o plano de Deus
como nos foi revelado nas origens, porque contrária à igual dignidade
pessoal entre o homem e a mulher, que no matrimónio se doam com um amor
total e por isso mesmo único e exclusivo. Como escreve o Concílio Vaticano
II: «A unidade do matrimónio, confirmado pelo Senhor, manifesta-se também
claramente na igual dignidade pessoal da mulher e do homem que se deve
reconhecer no mútuo e pleno amor».
Uma comunhão indissolúvel
20. A comunhão conjugal
caracteriza-se não só pela unidade mas também pela sua indissolubilidade:
«Esta união íntima, já que é dom recíproco de duas pessoas, exige, do
mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira fidelidade dos cônjuges e a
indissolubilidade da sua união».
É dever fundamental da
Igreja reafirmar vigorosamente - como fizeram os Padres do Sínodo - a
doutrina da indissolubilidade do matrimónio: a quantos, nos nossos dias,
consideram difícil ou mesmo impossível ligar-se a uma pessoa por toda a
vida e a quantos, subvertidos por uma cultura que rejeita a
indissolubilidade matrimonial e que ridiculariza abertamente o empenho de
fidelidade dos esposos, é necessário reafirmar o alegre anúncio da forma
definitiva daquele amor conjugal, que tem em Jesus Cristo o fundamento e o
vigor.
Radicada na doação
pessoal e total dos cônjuges e exigida pelo bem dos filhos, a
indissolubilidade do matrimónio encontra a sua verdade última no desígnio
que Deus manifestou na Revelação: Ele quer e concede a indissolubilidade
matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente fiel que
Deus Pai manifesta pelo homem e que Cristo vive para com a Igreja.
Cristo renova o
desígnio primitivo que o Criador inscreveu no coração do homem e da
mulher, e, na celebração do sacramento do matrimónio, oferece um «coração
novo»: assim os cônjuges podem não só superar a «dureza do coração», mas
também e sobretudo compartir o amor pleno e definitivo de Cristo, nova e
eterna Aliança feita carne. Assim como o Senhor Jesus é a «testemunha
fiel», é o «sim» das promessas de Deus e, portanto, a realização suprema
da fidelidade incondicional com que Deus ama o seu povo, da mesma forma os
cônjuges cristãos são chamados a uma participação real na
indissolubilidade irrevogável, que liga Cristo à Igreja, sua esposa, por
Ele amada até ao fim.
O dom do sacramento é,
ao mesmo tempo, vocação e dever dos esposos cristãos, para que permaneçam
fiéis um ao outro para sempre, para além de todas as provas e
dificuldades, em generosa obediência à santa vontade do Senhor: «O que
Deus uniu, não o separe o homem».
Testemunhar o valor
inestimável da indissolubilidade e da fidelidade matrimonial é uma das
tarefas mais preciosas e mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo.
Por isso, juntamente com todos os Irmãos que participaram no Sínodo dos
Bispos, louvo e encorajo os numerosos casais que, embora encontrando não
pequenas dificuldades, conservam e desenvolvem o dom da indissolubilidade:
cumprem desta maneira, de um modo humilde e corajoso, o dever que lhes foi
confiado de ser no mundo um «sinal» - pequeno e precioso sinal, submetido
também às vezes à tentação, mas sempre renovado - da fidelidade
infatigável com que Deus e Jesus Cristo amam todos os homens e cada homem.
Mas é também imperioso reconhecer o valor do testemunho daqueles cônjuges
que, embora tendo sido abandonados pelo consorte, com a força da fé e da
esperança cristãs, não contraíram uma nova união. Estes cônjuges dão
também um autêntico testemunho de fidelidade, de que tanto necessita o
mundo de hoje. Por isto mesmo devem ser encorajados e ajudados pelos
pastores e pelos fiéis da Igreja.
A
comunhão mais ampla da família
21. A comunhão conjugal
constitui o fundamento sobre o qual se continua a edificar a mais ampla
comunhão da família: dos pais e dos filhos, dos irmãos e das irmãs entre
si, dos parentes e de outros familiares.
Tal comunhão radica-se
nos laços naturais da carne e do sangue, e desenvolve-se encontrando o seu
aperfeiçoamento propriamente humano na instauração e maturação dos laços
ainda mais profundos e ricos do espírito: o amor, que anima as relações
interpessoais dos diversos membros da família, constitui a força interior
que plasma e vivifica a comunhão e a comunidade familiar.
A família cristã é,
portanto, chamada a fazer a experiência de uma comunhão nova e original,
que confirma e aperfeiçoa a comunnhão natural e humana. Na realidade, a
graça de Jesus Cristo, «o Primogénito entre muitos irmãos», é por sua
natureza e dinamismo interior uma «graça de fraternidade» como a chama
Santo Tomás de Aquino. O Espírito Santo, que se infunde na celebração dos
sacramentos, é a raiz viva e o alimento inexaurível da comunhão
sobrenatural que estreita e vincula os crentes com Cristo, na unidade da
Igreja de Deus. Uma revelação e actuação específica da comunhão eclesial é
constituída pela família cristã que também, por isto, se pode e deve
chamar «Igreja doméstica»,
Todos os membros da
família, cada um segundo o dom que lhe é peculiar, possuem a graça e a
responsabilidade de construir, dia após dia, a comunhão de pessoas,
fazendo da família uma «escola de humanismo mais completo e mais rico»: é
o que vemos surgir com o cuidado e o amor para com os mais pequenos, os
doentes e os anciãos; com o serviço reciproco de todos os dias; com a
coparticipação nos bens, nas alegrias e nos sofrimentos.
Um momento fundamental
para construir uma comunhão semelhante é constituído pelo intercambio
educativo entre pais e filhos, no qual cada um deles dá e recebe. Mediante
o amor, o respeito, a obediência aos pais, os filhos dão o seu contributo
específico e insubstituível para a edificação de uma família
autenticamente humana e cristã. Isso ser-lhe-á facilitado, se os pais
exercerem a sua autoridade irrenunciável como um «ministério» verdadeiro e
pessoal, ou seja, como um serviço ordenado ao bem humano e cristão dos
filhos, ordenado particularmente a proporcionar-lhes uma liberdade
verdadeiramente responsável; e se os pais mantiverem viva a consciência do
«dom» que recebem continuamente dos filhos.
A comunhão familiar só
pode ser conservada e aperfeiçoada com grande espírito de sacrifício.
Exige, de facto, de todos e de cada um, pronta e generosa disponibilidade
à compreensão, à tolerância, ao perdão, à reconciliação. Nenhuma família
ignora como o egoísmo, o desacordo, as tensões, os conflitos agridem, de
forma violenta e às vezes mortal, a comunhão: daqui as múltiplas e
variadas formas de divisão da vida familiar. Mas, ao mesmo tempo, cada
família é sempre chamada pelo Deus da paz a fazer a experiência alegre e
renovadora da «reconciliação», ou seja, da comunhão restabelecida, da
unidade reencontrada Em particular a participação no sacramento da
reconciliação e no banquete do único Corpo de Cristo oferece à família
cristã a graça e a responsabilidade de superar todas as divisões e de
caminhar para a plena verdade querida por Deus, respondendo assim ao
vivíssimo desejo do Senhor: que «todos sejam um».
Direitos e função da mulher
22. Enquanto é, e deve
tornar-se, comunhão e comunidade de pessoas, a família encontra no amor a
fonte e o estímulo incessante para acolher, respeitar e promover cada um
dos seus membros na altíssima dignidade de pessoas, isto é, de imagens
vivas de Deus. Como justamente afirmaram os Padres Sinodais, o critério
moral da autenticidade das relações conjugais e familiares consiste na
promoção da dignidade e vocação de cada uma das pessoas que encontram a
sua plenitude mediante o dom sincero de si mesmas.
Nesta perspectiva, o
Sínodo quis prestar atenção privilegiada à mulher, aos seus direitos e
função na família e na sociedade. Nesta mesma perspectiva devem
considerar-se também o homem como esposo e pai, a criança e os anciãos.
É de ressaltar- se
antes de tudo a igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao
homem: tal igualdade encontra uma forma singular de realização na doação
reciproca de si ao outro e de ambos aos filhos, doação que é específica do
matrimónio e da família. Tudo o que a razão intui e reconhece, vem
revelado plenamente pela Palavra de Deus: a história da salvação é, de
facto, um contínuo e claro testemunho da dignidade da mulher.
Ao criar o homem «varão
e mulher», Deus dá a dignidade pessoal de igual modo ao homem e à mulher,
enriquecendo-os dos direitos inalienáveis e das responsabilidades que são
próprias da pessoa humana. Deus manifesta ainda na forma mais elevada
possível a dignidade da mulher, ao assumir Ele mesmo a carne humana da
Virgem Maria, que a Igreja honra como Mãe de Deus, chamando-a nova Eva e
propondo-a como modelo da mulher redimida. O delicado respeito de Jesus
para com as mulheres a quem chamou ao seu séquito e amizade, a aparição na
manhã da Páscoa a uma mulher antes que aos discípulos, a missão confiada
às mulheres de levar a boa nova da Ressurreição aos apóstolos, são tudo
sinais que confirmam a especial estima de Jesus para com a mulher. Dirá o
Apóstolo Paulo: «Porque todos vós sois filhos de Deus, mediante a fé em
Jesus Cristo ... Não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há
homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus».
A
mulher e a sociedade
23. Sem entrar agora a
tratar nos seus vários aspectos o amplo e complexo tema das relações
mulher-sociedade, mas limitando estas considerações a alguns pontos
essenciais, não se pode deixar de observar como, no campo mais
especificamente familiar, uma ampla e difundida tradição social e cultural
tenha pretendido confiar à mulher só a tarefa de esposa e mãe, sem a
estender adequadamente às funções públicas, em geral, reservadas ao homem.
Não há dúvida que a
igual dignidade e responsabilidade do homem e da mulher justificam
plenamente o acesso da mulher às tarefas públicas. Por outro lado, a
verdadeira promoção da mulher exige também que seja claramente reconhecido
o valor da sua função materna e familiar em confronto com todas as outras
tarefas públicas e com todas as outras profissões. De resto, tais tarefas
e profissões devem integrar-se entre si se se quer que a evolução social e
cultural seja verdadeira e plenamente humana.
Isto conseguir-se-á
mais facilmente se, como o desejou o Sínodo, uma renovada «teologia do
trabalho» esclarecer e aprofundar o significado do trabalho na vida cristã
e determinar o laço fundamental que existe entre o trabalho e a família,
e, portanto, o significado original e insubstituível do trabalho da casa e
da educação dos filhos. Portanto a Igreja pode e deve ajudar a sociedade
actual pedindo insistentemente que seja reconhecido por todos e honrado no
seu insubstituível valor o trabalho da mulher em casa. Isto é de
importância particular na obra educativa: de facto, elimina-se a própria
raiz da possível discriminação entre os diversos trabalhos e profissões,
logo que se veja claramente como todos, em cada campo, se empenham com
idêntico direito e com idêntica responsabilidade. Deste modo aparecerá
mais esplendente a imagem de Deus no homem e na mulher.
Se há que reconhecer às
mulheres, como aos homens, o direito de ascender às diversas tarefas
públicas, a sociedade deve estruturar-se, contudo, de maneira tal que as
esposas e as mães não sejam de facto constrangidas a trabalhar fora
de casa e que a família possa dignamente viver e prosperar, mesmo quando
elas se dedicam totalmente ao lar próprio.
Deve além disso
superar-se a mentalidade segundo a qual a honra da mulher deriva mais do
trabalho externo do que da actividade familiar. Mas isto exige que se
estime e se ame verdadeiramente a mulher com todo o respeito pela sua
dignidade pessoal, e que a sociedade crie e desenvolva as devidas
condições para o trabalho doméstico.
A Igreja, com o devido
respeito pela vocação diversa do homem e da mulher, deve promover, na
medida do possível, também na sua vida, a igualdade deles quanto a
direitos e dignidades, e isto para o bem de todos: da família, da Igreja e
da sociedade.
É evidente, porém, que
isto não significa para a mulher a renúncia à sua feminilidade nem a
imitação do carácter masculino, mas a plenitude da verdadeira humanidade
feminil, tal como se deve exprimir no seu agir, quer na família quer fora
dela, sem contudo esquecer, neste campo, a variedade dos costumes e das
culturas.
Ofensas à dignidade da mulher
24. Infelizmente a
mensagem cristã acerca da dignidade da mulher vem sendo impugnada por
aquela persistente mentalidade que considera o ser humano não como pessoa,
mas como coisa, como objecto de compra-venda, ao serviço de um interesse
egoístico e exclusivo do prazer: e a primeira vítima de tal mentalidade é
a mulher.
Esta mentalidade produz
frutos bastante amargos, como o desprezo do homem e da mulher, a
escravidão, a opressão dos fracos, a pornografia, a prostituição -
sobretudo quando é organizada - e todas aquelas várias discriminações que
se encontram no âmbito da educação, da profissão, da retribuição do
trabalho, etc.
Além disso, ainda hoje,
em grande parte da nossa sociedade, permanecem muitas formas de
discriminação aviltante que ferem e ofendem gravemente algumas categorias
particulares de mulheres, como, por exemplo, as esposas que não têm
filhos, as viúvas, as separadas, as divorciadas, as mães-solteiras.
Estas e outras
discriminações foram veementemente deploradas pelos Padres Sinodais.
Solicito, pois, que se desenvolva uma acção pastoral específica mais
vigorosa e incisiva, a fim de que sejam vencidas em definitivo, para se
poder chegar à estima plena da imagem de Deus que esplandece em todos os
seres humanos, sem nenhuma exclusão.
O
homem esposo e pai
25. É dentro da
comunhão-comunidade conjugal e familiar que o homem é chamado a viver o
seu dom e dever de esposo e pai.
Na esposa ele vê o
cumprimento do desígnio de Deus: «Não é conveniente que o homem esteja só;
vou dar-lhe um auxiliar semelhante a ele» e faz sua a exclamação de Adão,
o primeiro esposo: «Esta é, realmente, osso dos meus osos e carne da minha
carne».
O amor conjugal
autêntico supõe e exige que o homem tenha um profundo respeito pela igual
dignidade da mulher: «Não és o senhor - escreve Santo Ambrósio - mas o
marido; não te foi dada como escrava, mas como mulher... Retribui-lhe as
atenções tidas para contigo e sê-lhe agradecido pelo seu amor». Com a
esposa o homem deve viver «uma forma muito especial de amizade pessoal». O
cristão, é, além disso, chamado a desenvolver uma atitude de amor novo,
manifestando para com a sua esposa a caridade delicada e forte que Cristo
nutre pela Igreja.
O amor à esposa tornada
mãe e o amor aos filhos são para o homem o caminho natural para a
compreensão e realização da paternidade. De modo especial onde as
condições sociais e culturais constringem facilmente o pai a um certo
desinteresse em relação à família ou de qualquer forma a uma menor
presença na obra educativa, é necessário ser-se solícito para que se
recupere socialmente a convicção de que o lugar e a tarefa do pai na e
pela família são de importância única e insubstituível. Como a experiência
ensina, a ausência do pai provoca desiquilíbrios psicológicos e morais e
dificuldades notáveis nas relações familiares. O mesmo acontece também, em
circunstancias opostas, pela presença opressiva do pai, especialmente onde
ainda se verifica o fenómeno do «machismo», ou seja da superioridade
abusiva das prerrogativas masculinas que humilham a mulher e inibem o
desenvolvimento de relações familiares sadias.
Revelando e revivendo
na terra a mesma paternidade de Deus, o homem é chamado a garantir o
desenvolvimento unitário de todos os membros da família. Cumprirá tal
dever mediante uma generosa responsabilidade pela vida concebida sob o
coração da mãe e por um empenho educativo mais solícito e condividido com
a esposa, por um trabalho que nunca desagregue a família mas a promova na
sua constituição e estabilidade, por um testemunho de vida cristã adulta,
que introduza mais eficazmente os filhos na experiência viva de Cristo e
da Igreja.
Os
direitos da criança
26. Na família,
comunidade de pessoas, deve reservar-se uma especialíssima atenção à
criança, desenvolvendo uma estima profunda pela sua dignidade pessoal como
também um grande respeito e um generoso serviço pelos seus direitos. Isto
vale para cada criança, mas adquire uma urgência singular quanto mais
pequena e desprovida, doente, sofredora ou diminuída for a criança.
Solicitando e vivendo
um cuidado terno e forte por cada criança que vem a este mundo, a Igreja
cumpre uma sua missão fundamental: revelar e repetir na história o exemplo
e o mandamento de Cristo, que quis pôr a criança em destaque no Reino de
Deus: «Deixai vir a Mim os pequeninos e não os impeçais pois deles é o
reino de Deus».
Repito novamente o que
disse na Assembleia geral das Nações Unidas em 2 de Outubro de 1979:
«Desejo ... exprimir a felicidade que para cada um de nós constituem as
crianças, primavera da vida, antecipação da história futura de cada pátria
terrestre. Nenhum país do mundo, nenhum sistema político pode pensar no
seu futuro senão através da imagem destas novas gerações que assumirão dos
pais o múltiplo património dos valores, dos deveres e das aspirações da
nação à qual pertencem, e o de toda a família humana. A solicitude pela
criança ainda antes do nascimento, desde o primeiro momento da concepção
e, depois, nos anos da infancia e da adolescência, é a primária e
fundamental prova da relação do homem com o homem. E, portanto, que mais
se poderá augurar a cada nação e a toda a humanidade, a todas as crianças
do mundo senão aquele futuro melhor no qual o respeito dos direitos do
homem se torne plena realidade no aproximar-se do ano dois mil?».
O acolhimento, o amor,
a estima, o serviço multíplice e unitário - material, afectivo, educativo,
espiritual - a cada criança que vem a este mundo deverão constituir sempre
uma nota distintiva irrenunciável dos cristãos, em particular das famílias
cristãs. Deste modo as crianças, ao poderem crescer «em sabedoria, idade e
graça diante de Deus e dos homens», darão o seu precioso contributo à
edificação da comunidade familiar e à santificação dos pais.
Os
anciãos na família
27. Há culturas que
manifestam uma veneração singular e um grande amor pelo ancião: longe de
ser excluído da família ou de ser suportado como um peso inútil, o ancião
continua inserido na vida familiar, tomando nela parte activa e
responsável - embora devendo respeitar a autonomia da nova família - e
sobretudo desenvolvendo a missão preciosa de testemunha do passado e de
inspirador de sabedoria para os jovens e para o futuro.
Outras culturas, pelo
contrário, especialmente depois de um desenvolvimento industrial e
urbanístico desordenado, forçaram e continuam a forçar os anciãos a
situações inaceitáveis de marginalização que são fonte de atrozes
sofrimentos para eles mesmos e de empobrecimento espiritual para muitas
famílias.
É necessário que a
acção pastoral da Igreja estimule todos a descobrir e a valorizar as
tarefas dos anciãos na comunidade civil e eclesial, e, em particular, na
família. Na realidade, «a vida dos anciãos ajuda-nos a esclarecer a escala
dos valores humanos; mostra a continuidade das gerações e demonstra
maravilhosamente a interdependência do povo de Deus. Os anciãos têm além
disso o carisma de encher os espaços vazios entre gerações, antes que se
sublevem. Quantas crianças têm encontrado compreensão e amor nos olhos,
nas palavras e nos carinhos dos anciãos! E quantas pessoas de idade têm
subscrito com gosto as inspiradas palavras bíblicas que a "coroa dos
anciãos são os filhos dos filhos" (Prov. 17, 6)».
II -
O SERVIÇO À VIDA
1) A transmissão da
vida
Cooperadores do amor de Deus Criador
28. Com a criação do
homem e da mulher à sua imagem e semelhança, Deus coroa e leva à perfeição
a obra das suas mãos: Ele chama-os a uma participação especial do seu amor
e do seu poder de Criador e de Pai, mediante uma cooperação livre e
responsável deles na transmissão do dom da vida humana: «Deus abençoou-os
e disse-lhes: "crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra"»,
Assim a tarefa
fundamental da família é o serviço à vida. É realizar, através da
história, a bênção originária do Criador, transmitindo a imagem divina
pela geração de homem a homem.
A fecundidade é o fruto
e o sinal do amor conjugal, o testemunho vivo da plena doação recíproca
dos esposos: «O autêntico culto do amor conjugal e toda a vida familiar
que dele nasce, sem pôr de lado os outros fins do matrimónio, tendem a que
os esposos, com fortaleza de animo, estejam dispostos a colaborar com o
amor do Criador e Salvador, que por meio deles aumenta cada dia mais e
enriquece a família»,
A fecundidade do amor
conjugal não se restringe somente à procriação dos filhos, mesmo que
entendida na dimensão especificamente humana: alarga-se e enriquece-se com
todos aqueles frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que o pai e
a mãe são chamados a doar aos filhos e, através dos filhos, à Igreja e ao
mundo.
A doutrina e a norma
sempre
antigas e sempre novas da Igreja
29. Exactamente porque
o amor dos cônjuges é uma participação singular no mistério da vida e no
amor do próprio Deus, a Igreja tem consciência de ter recebido a missão
especial de guardar e de proteger a altíssima dignidade do matrimónio e a
gravíssima responsabilidade da transmissão da vida humana.
Desta maneira, na
continuidade com a tradição viva da comunidade eclesial através da
história, o Concílio Vaticano II e o magistério do meu Predecessor Paulo
VI, expresso sobretudo na encíclica Hamanae Vitae, transmitiram aos
nossos tempos um anúncio verdadeiramente profético, que reafirma e repõe,
com clareza, a doutrina e a norma sempre antigas e sempre novas da Igreja
sobre o matrimónio e sobre a transmissão da vida humana.
Por isso, os Padres
Sinodais declaram textualmente na última Assembleia: «Este Sacro Sínodo
reunido em união de fé com o Sucessor de Pedro, sustenta firmemente o que
foi proposto pelo Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 50 e,
depois, pela encíclica Humanae Vitae, e em particular que o amor
conjugal deve ser plenamente humano, exclusivo e aberto a nova vida (Humanae
Vitae, 11 e cfr. 9 e 12)».
A
Igreja está do lado da vida
30. A doutrina da
Igreja coloca-se hoje numa situação social e cultural que a torna mais
difícil de ser compreendida e ao mesmo tempo mais urgente e insubstituível
para promover o verdadeiro bem do homem e da mulher.
De facto o progresso
científico-técnico que o homem contemporaneo amplia continuamente no
domínio sobre a natureza, não só desenvolve a esperança de criar uma
humanidade nova e melhor, mas gera também uma sempre mais profunda
angústia sobre o futuro. Alguns perguntam-se se viver é bom ou se não
teria sido melhor nem sequer ter nascido. Duvidam, portanto, da liceidade
de chamar outros à vida, que talvez amaldiçoarão a sua existência num
mundo cruel, cujos terrores nem sequer são previsíveis. Outros pensam que
são os únicos destinatários das vantagens da técnica e excluem os demais,
impondo-lhes meios contraceptivos ou técnicas ainda piores. Outros ainda,
manietados como estão pela mentalidade consumística e com a única
preocupação de um aumento contínuo dos bens materiais, acabam por não
chegar a compreender e portanto por rejeitar a riqueza espiritual de uma
nova vida humana. A razão última destas memtalidades é a ausência de Deus
do coração dos homens, cujo amor só por si é mais forte do que todos os
possíveis medos do mundo e tem o poder de os vencer.
Nasceu assim uma
mentalidade contra a vida (anti-life mentality), como emerge de
muitas questões actuais: pense-se, por exemplo, num certo panico derivado
dos estudos dos ecólogos e dos futurólogos sobre a demografia, que
exageram, às vezes, o perigo do incremento demográfico para a qualidade da
vida.
Mas a Igreja crê
firmemente que a vida humana, mesmo se débil e com sofrimento, é sempre um
esplêndido dom do Deus da bondade. Contra o pessimismo e o egoísmo que
obscurecem o mundo, a Igreja está do lado da vida: e em cada vida humana
sabe descobrir o esplendor daquele «Sim», daquele «Amém» que é o próprio
Cristo. Ao «não» que invade e aflige o mundo, contrapõe este «Sim»
vivente, defendendo deste modo o homem e o mundo de quantos insidiam e
mortificam a vida.
A Igreja é chamada a
manifestar novamente a todos, com uma firme e mais clara convicção, a
vontade de promover, com todos os meios e de defender contra todas as
insídias a vida humana, em qualquer condição e estado de desenvolvimento
em que se encontre.
Por tudo isto a Igreja
condena como ofensa grave à dignidade humana e à justiça todas aquelas
actividades dos governos ou de outras autoridades públicas, que tentam
limitar por qualquer modo a liberdade dos cônjuges na decisão sobre os
filhos. Consequentemente qualquer violência exercitada por tais
autoridades em favor da contracepção e até da esterilização e do aborto
procurado, é absolutamente de condenar e de rejeitar com firmeza. Do mesmo
modo é de reprovar como gravemente injusto o facto de nas relações
internacionais, a ajuda económica concedida para a promoção dos povos ser
condicionada a programas de contracepção, esterilização e aborto
procurado.
Para que o plano divino se realize sempre mais plenamente
31.
A Igreja está sem dúvida consciente dos múltiplos e complexos problemas
que hoje em muitos países envolvem os cônjuges no seu dever de transmitir
responsavelmente a vida. Reconhece também o grave problema do incremento
demográfico, como se apresenta nas diversas partes do mundo, e as
relativas implicações morais.
A Igreja considera,
todavia, que uma reflexão aprofundada de todos os aspectos de tais
problemas ofereça uma nova e mais forte conflrmação da importância da
doutrina autêntica sobre a regulação da natalidade, reproposta no Concílio
Vaticano II e na encíclica Humanae Vitae.
Por isto, juntamente
com os Padres Sinodais, sinto o dever de dirigir um urgente convite aos
teólogos a fim de que, unindo as suas forças para colaborar com o
Magistério hierárquico, se empenhem em iluminar cada vez melhor os
fundamentos bíblicos, as motivações éticas e as razões personalísticas
desta doutrina. Será assim possível, no contexto de uma exposição
organica, tornar a doutrina da Igreja sobre este tema fundamental
verdadeiramente acessível a todos os homens de boa vontade, favorecendo
uma compreensão cada dia mais luminosa e profunda: desta forma o plano
divino poderá ser sempre mais plenamente cumprido para a salvação do homem
e para a glória do Criador.
A tal respeito, o
empenho concorde dos teólogos, inspirado pela adesão convencida ao
Magistério, que é o único guia autêntico do Povo de Deus, apresenta
particular urgência mesmo em razão da visão do homem que a Igreja propõe:
dúvidas ou erros no campo matrimoni al ou familiar implicam um grave
obscurecer-se da verdade integral sobre o homem numa situação cultural já
tão frequentemente confusa e contraditória O contributo de iluminação e de
investigação, que os teólogos são chamados a oferecer no cumprimento da
sua missão específica, tem um valor incomparável e representa um serviço
singular, altamente meritório, à família e à humanidade.
Na
visão integral do homem e da sua vocação
32. No contexto de uma
cultura que deforma gravemente ou chega até a perder o verdadeiro
significado da sexualidade humana, porque a desenraíza da sua referência
essencial à pessoa, a Igreja sente como mais urgente e insubstituível a
sua missão de apresentar a sexualidade como valor e tarefa de toda a
pessoa criada, homem e mulher, à imagem de Deus.
Nesta perspectiva o
Concílio Vaticano II afirmou claramente que «quando se trata de conciliar
o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do
comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da
apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios
objectivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus actos; critérios
que respeitam, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e
da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente
a virtude da castidade conjugal».
É exactamente partindo
da «visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena,
mas também sobrenatural e eterna», que Paulo VI afirmou que a doutrina da
Igreja «se funda na conexão inseparável, que Deus quis e que o homem não
pode quebrar por sua iniciativa, entre os dois significados do acto
conjugal: o significado unitivo e o significado procriativo», E conclui
reafirmando que é de excluir, como intrinsecamente desonesta, «toda a
acção que, ou em previsão do acto conjugal, ou na sua realização, ou no
desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou
como meio, tornar a procriação impossível».
Quando os cônjuges,
mediante o recurso à contracepção, separam estes dois significados que
Deus Criador inscreveu no ser do homem e da mulher e no dinamismo da sua
comunhão sexual, comportam-se como «árbitros» do plano divino e
«manipulam» e aviltam a sexualidade humana, e com ela a própria pessoa e a
do cônjuge, alterando desse modo o valor da doação «total». Assim, à
linguagem nativa que exprime a recíproca doação total dos cônjuges, a
contracepção impõe uma linguagem objectivamente contradictória, a do não
doar-se ao outro: deriva daqui, não somente a recusa positiva de abertura
à vida, mas também uma falsificação da verdade interior do amor conjugal,
chamado a doar-se na totalidade pessoal.
Quando pelo contrário
os cônjuges, mediante o recurso a períodos de infecundidade, respeitam a
conexão indivisível dos significados unitivo e procriativo da sexualidade
humana, comportam-se como «ministros» de plano de Deus e «usufruem» da
sexualidade segundo o dinamismo originário da doação «total», se
manipulações e alterações.
À luz da experiência
mesma de tantos casais e dos dados das diversas ciências humanas, a
reflexão teológica pode receber e é chamada a aprofundar a diferenca
antropológica e ao mesmo tempo moral, que existe entre a contracepção
e o recurso aos ritmos temporais: trata-se de uma diferença bastante mais
vasta e profunda de quanto habitualmente se possa pensar e que, em última
análise, envolve duas concepções da pessoa e da sexualidade humana
irredutíveis entre si. A escolha dos ritmos naturais, de facto, comporta a
aceitação do ritmo biológico da mulher, e com isto também a aceitação do
diálogo, do respeito recíproco, da responsabilidade comum, do domínio de
si. Acolher, depois, o tempo e o diálogo significa reconhecer o carácter
conjuntamente espiritual e corpóreo da comunhão conjugal, como também
viver o amor pessoal na sua exigência de fidelidade. Neste contexto o
casal faz a experiência da comunhão conjugal enriquecida daqueles valores
de ternura e afectividade, que constituem o segredo profundo da
sexualidade humana, mesmo na sua dimensão física. Desta maneira a
sexualidade é respeitada e promovida na sua dimensão verdadeira e
plenamente humana, não sendo nunca «usada» como um «objecto» que,
dissolvendo a unidade pessoal da alma e do corpo, fere a própria criação
de Deus na relação mais íntima entre a natureza e a pessoa.
A
Igreja Mestra e Mãe para os cônjuges em dificuldade
33. Também no campo da
moral conjugal a Igreja é e age como Mestra e Mãe.
Como Mestra, ela não se
cansa de proclamar a norma moral que deve guiar a transmissão responsável
da vida. De tal norma a Igreja não é, certamente, nem a autora nem o juiz.
Em obediência à verdade que é Cristo, cuja imagem se reflecte na natureza
e na dignidade da pessoa humana, a Igreja interpreta a norma moral e
propõe-na a todos os homens de boa vontade, sem esconder as suas
exigências de radicalidade e de perfeição.
Como Mãe, a Igreja está
próxima dos muitos casais que se encontram em dificuldade sobre este
importante ponto da vida moral: conhece bem a sua situação, frequentemente
muito árdua e às vezes verdadeiramente atormentada por dificuldades de
toda a espécie, não só individuais mas tambem sociais; sabe que muitos
cônjuges encontram dificuldades não só para a realização concreta mas
também para a própria compreensão dos valores ínsitos na norma moral.
Mas é a mesma e única
Igreja a ser ao mesmo tempo Mestra e Mãe. Por isso a Igreja nunca se cansa
de convidar e de encorajar para que as eventuais dificuldades conjugais
sejam resolvidas sem nunca falsificar e comprometer a verdade: ela está de
facto convencida de que não pode existir verdadeira contradição entre a
lei divina de transmitir a vida e a de favorecer o autêntico amor
conjugal. Por isso, a pedagogia concreta da Igreja deve estar sempre
ligada e nunca separada da sua doutrina. Repito, portanto, com a
mesmíssima persuasão do meu Predecessor: «Não diminuir em nada a doutrina
salutar de Cristo é eminente forma de caridade para com as almas».
Por outro lado, a
autêntica pedagogia eclesial revela o seu realismo e a sua sabedoria só
desenvolvendo um empenhamento tenaz e corajoso no criar e sustentar todas
aquelas condições humanas - psicológicas, morais e espirituais - que são
indispensáveis para compreender e viver o valor e a norma moral.
Não há dúvida de que
entre estas condições devem elencar-se a constância e a paciência, a
humildade e a fortaleza de espirito, a filial confiança em Deus e na sua
graça, o recurso frequente à oração e aos sacramentos da Eucaristia e da
reconciliação. Assim fortalecidos, os cônjuges cristãos poderão manter
viva a consciência do influxo singular que a graça do sacramento do
matrimónio exerce sobre todas as realidades da vida conjugal, e, portanto,
também sobre a sua sexualidade: o dom do Espirito, acolhido e
correspondido pelos cônjuges, ajuda-os a viver a sexualidade humana
segundo o plano de Deus e como sinal do amor unitivo e fecundo de Cristo
pela Igreja.
Mas, entre as condições
necessárias, entra também o conhecimento da corporeidade e dos ritmos de
fertilidade. Em tal sentido, é preciso fazer tudo para que um igual
conhecimento se torne acessível a todos os cônjuges, e, antes ainda às
jovens, mediante uma informação e educação clara, oportuna e séria, feita
por casais, médicos e peritos. O conhecimento deve conduzir à educação
para o autocontrole: daqui a absoluta necessidade da virtude da castidade
e da permanente educaçao para ela. Segundo a visão cristã, a castidade não
significa de modo nenhum nem a recusa nem a falta de estima pela
sexualidade humana: ela significa antes a energia espiritual que sabe
defender o amor dos perigos do egoísmo e da agressividade e sabe voltá-lo
para a sua plena realização.
Paulo VI, com profundo
intuito de sabedoria e de amor, não fez outra coisa senão dar voz à
experiência de tantos casais quando na sua encíclica escreveu: «O domínio
do instinto, mediante a razão e a vontade livre, impõe sem dúvida uma
ascese para que as manifestações afectivas da vida conjugal sejam segundo
a ordem recta e particularmente para a observância da continência
periódica. Mas esta disciplina própria da pureza dos esposos, muito longe
de prejudicar o amor conjugal, confere-lhe pelo contrário um mais alto
valor humano. Isto exige um esforço contínuo, mas graças ao seu benéfico
influxo, os cônjuges desenvolvem integralmente a sua personalidade,
enriquecendo-se de valores espirituais: aquela traz à vida familiar frutos
de serenidade e de paz e facilita a solução de outros problemas; favorece
a atenção para com o consorte, ajuda os esposos a superar o egoísmo,
inimigo do amor, e aprofunda o sentido da responsabilidade deles no
cumprimento dos seus deveres. Os pais adquirem então a capacidade de uma
influência mais profunda e eficaz na educação dos filhos».
O
itinerário moral dos esposos
34. É sempre muito
importante possuir uma recta concepção da ordem moral, dos seus valores e
das suas normas: a importância aumenta quando se tornam mais numerosas e
graves as dificuldades para as respeitar.
Exactamente porque
revela e propõe o desígnio de Deus Criador, a ordem moral não pode ser
algo de mortificante para o homem e de impessoal; pelo contrário,
respondendo às exigências mais profundas do homem criado por Deus, põe-se
ao serviço da sua plena humanidade, com o amor delicado e vinculante com o
qual Deus mesmo inspira, sustenta e guia cada criatura para a felicidade.
Mas o homem, chamado a
viver responsavelmente o plano sapiente e amoroso de Deus, é um ser
histórico, que se constrói, dia a dia, com numerosas decisões livres: por
isso ele conhece, ama e cumpre o bem moral segundo etapas de crescimento.
Também os cônjuges, no
âmbito da vida moral, são chamados a um contínuo caminhar, sustentados
pelo desejo sincero e operante de conhecer sempre melhor os valores que a
lei divina guarda e promove, pela vontade recta e generosa de os encarnar
nas suas decisões concretas. Eles, porém, não podem ver a lei só como puro
ideal a conseguir no futuro, mas devem considerá-la como um mandato de
Cristo de superar cuidadosamente as dificuldades. Por isso a chamada «lei
da graduação» ou caminho gradual não pode identificar-se com a "graduação
da lei", como se houvesse vários graus e várias formas de preceito na lei
divina para homens em situações diversas. Todos os cônjuges são chamados,
segundo o plano de Deus, à santidade no matrimónio e esta alta vocação
realiza-se na medida em que a pessoa humana está em grau de responder ao
mandato divino com espírito sereno, confiando na graça divina e na vontade
própria». Na mesma linha a pedagogia da Igreja compreende que os cônjuges
antes de tudo reconheçam claramente a doutrina da Humanae Vitae
como normativa para o exercício da sexualidade e sinceramente se empenhem
em pôr as condições necessárias para a observar.
Esta pedagogia, como
sublinhou o Sínodo, compreende toda a vida conjugal. Por isso a obrigação
de transmitir a vida deve integrar-se na missão global da totalidade da
vida cristã, a qual, sem a cruz, não pode chegar à ressurreição. Em
semelhante contexto compreende-se como não se possa suprimir da vida
familiar o sacrifício, mas antes se deva aceitá-lo com o coração para que
o amor conjugal se aprofunde e se torne fonte de alegria íntima.
Este caminho comum
exige reflexão, informação, instrução idónea dos sacerdotes, dos
religiosos e dos leigos que estão empenhados na pastoral familiar: todos
eles poderão ajudar os cônjuges no itinerário humano e espiritual que
comporta em si a consciência do pecado, o sincero empenho de observar a
lei moral, o ministério da reconciliação. Deve também ser recordado como
na intimidade conjugal estão implicadas as vontades das duas pessoas,
chamadas a uma harmonia de mentalidade e comportamento: isto exige não
pouca paciência, simpatia e tempo. De singular importância neste campo é a
unidade dos juízos morais e pastorais dos sacerdotes: tal unidade deve
cuidadosamente ser procurada e assegurada, para que os fiéis não tenham
que sofrer problemas de consciência.
O caminho dos cônjuges
será portanto facilitado se, na estima da doutrina da Igreja e na
confiança na graça de Cristo, ajudados e acompanhados pelos pastores e
pela inteira comunidade eclesial, descobrirem e experimentarem o valor da
libertação e da promoção do amor autêntico, que o Evangelho oferece e o
mandamento do Senhor propõe.
Suscitar convicções
e oferecer uma ajuda concreta
35. Diante
do problema de uma honesta regulação da natalidade, a comunidade eclesial,
no tempo presente, deve assumir como seu dever suscitar convicções e
oferecer uma ajuda concreta a quantos quiserem viver a paternidade e a
maternidade de modo verdadeiramente responsável.
Neste campo, enquanto
se congratula com os resultados conseguidos pelas investigações
científicas de um conhecimento mais preciso dos ritmos de fertilidade
feminina e estimula uma mais decisiva e ampla extensão de tais estudos, a
Igreja cristã não pode não solicitar com renovado vigor a responsabilidade
de quantos - médicos, peritos, conselheiros conjugais, educadores, casais
- podem efectivamente ajudar os cônjuges a viver o seu amor com respeito
pela estrutura e pelas finalidades do acto conjugal que o exprime. Isto
quer dizer um empenho mais vasto, decisivo e sistemático, para fazer
conhecer, apreciar e aplicar os métodos naturais de regulação da
fertilidade.
Um testemunho precioso
pode e deve ser dado por aqueles esposos que, mediante o comum empenho na
continência periódica, chegaram a uma responsabilidade pessoal mais madura
em relação ao amor e à vida. Como escrevia Paulo VI: «a esses confia o
Senhor a tarefa de fazer visível aos homens a santidade e a suavidade da
lei que une o amor mútuo dos esposos e a cooperação deles com o amor de
Deus autor da vida humana».
2) A educação
O
direito-dever dos pais de educar
36. O
dever de educar mergulha as raízes na vocação primordial dos cônjuges à
participação na obra criadora de Deus: gerando no amor e por amor uma nova
pessoa, que traz em si a vocação ao crescimento e ao desenvolvimento, os
pais assumem por isso mesmo o dever de a ajudar eficazmente a viver uma
vida plenamente humana. Como recordou o Concílio Vaticano II: «Os pais,
que transmitiram a vida aos filhos, têm uma gravíssima obrigação de educar
a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros e
principais educadores. Esta função educativa é de tanto peso que, onde não
existir, dificilmente poderá ser suprida. Com efeito, é dever dos pais
criar um ambiente de tal modo animado pelo amor e pela piedade para com
Deus e para com os homens que favoreça a completa educação pessoal e
social dos filhos. A família é, portanto, a primeira escola das virtudes
sociais de que as sociedades têm necessidade».
O direito-dever
educativo dos pais qualifica-se como essencial, ligado como está à
transmissão da vida humana; como original e primário, em relação ao
dever de educar dos outros, pela unicidade da relação de amor que subsiste
entre pais e filhos; como insubstituível e inalienável, e
portanto, não delegável totalmente a outros ou por outros usurpável.
Para além destas
características, não se pode esquecer que o elemento mais radical, que
qualifica o dever de educar dos pais é o amor paterno e materno, o
qual encontra na obra educativa o seu cumprimento ao tornar pleno e
perfeito o serviço à vida: o amor dos pais de fonte torna-se
alma e, portanto, norma, que inspira e guia toda a acção
educativa concreta, enriquecendo-a com aqueles valores de docilidade,
constância, bondade, serviço, desinteresse, espírito de sacrifício, que
são o fruto mais precioso do amor.
Educar para os valores essenciais da vida humana
37. Embora
no meio das dificuldades da obra educativa, hoje muitas vezes agravada, os
pais devem, com confiança e coragem, formar os filhos para os valores
essenciais da vida humana. Os filhos devem crescer numa justa liberdade
diante dos bens materiais, adoptando um estilo de vida simples e austero,
convencidos de que «o homem vale mais pelo que é do que pelo que tem»
Numa sociedade agitada
e desagregada por tensões e conflitos em razão do violento choque entre os
diversos individualismos e egoísmos, os filhos devem enriquecer-se não só
do sentido da verdadeira justiça que, por si só conduz ao respeito pela
dignidade pessoal de cada um, mas também e, ainda mais, do sentido do
verdadeiro amor, como solicitude sincera e serviço desinteressado para com
os outros, em particular os mais pobres e necessitados. A família é a
primeira e fundamental escola de sociabilidade: enquanto comunidade de
amor, ela encontra no dom de si a lei que a guia e a faz crescer. O dom de
si, que inspira o amor mútuo dos cônjuges, deve por-se como modelo e norma
daquele que deve ser actuado nas relações entre irmãos e irmãs e entre as
diversas gerações que convivem na família. E a comunhão e a participação
quotidianamente vividas na casa, nos momentos de alegria e de dificuldade,
representam a mais concreta e eficaz pedagogia para a inserção activa,
responsável e fecunda dos filhos no mais amplo horizonte da sociedade.
A educação para o amor
como dom de si constitui também a premissa indispensável para os pais
chamados a oferecer aos filhos uma clara e delicada educação sexual.
Diante de uma cultura que «banaliza» em grande parte a sexualidade humana,
porque a interpreta e a vive de maneira limitada e empobrecida coligando-a
unicamente ao corpo e ao prazer egoístico, o serviço educativo dos pais
deve dirigir-se com firmeza para uma cultura sexual que seja verdadeira e
plenamente pessoal. A sexualidade, de facto, é uma riqueza de toda a
pessoa - corpo, sentimento e alma - e manifesta o seu significado íntimo
ao levar a pes soa ao dom de si no amor.
A educação sexual,
direito e dever fundamental dos pais, deve actuar-se sempre sob a sua
solícita guia, quer em casa quer nos centros educativos escolhidos e
controlados por eles. Neste sentido a Igreja reafirma a lei da
subsidiariedade, que a escola deve observar quando coopera na educação
sexual, ao imbuir-se do mesmo espírito que anima os pais.
Neste contexto é
absolutamente irrenunciável a educação para a castidade como
virtude que desenvolve a autêntica maturidade da pessoa e a torna capaz de
respeitar e promover o «significado nupcial» do corpo. Melhor, os pais
cristãos reservarão uma particular atencão e cuidado, discernindo os
sinais da chamada de Deus, para a educação para a virginidade como forma
suprema daquele dom de si que constitui o sentido próprio da sexualidade
humana.
Pelos laços estreitos
que ligam a dimensão sexual da pessoa e os seus valores éticos, o dever
educativo deve conduzir os filhos a conhecer e a estimar as normas morais
como necessária e preciosa garantia para um crescimento pessoal
responsável na sexualidade humana.
Por isto a Igreja
opõe-se firmemente a uma certa forma de informação sexual, desligada dos
princípios morais, tão difundida, que não é senão uma introdução à
experiência do prazer e um estímulo que leva à perda - ainda nos anos da
inocência - da serenidade, abrindo as portas ao vício.
A
missão educativa e o sacramento do matrimónio
38 Para os pais
cristãos a missão educativa, radicada como já se disse na sua participação
na obra criadora de Deus, tem uma nova e específica fonte no sacramento do
matrimónio, que os consagra para a educação propriamente cristã dos
filhos, isto é, que os chama a participar da mesma autoridade e do mesmo
amor de Deus Pai e de Cristo Pastor, como também do amor materno da
Igreja, e os enriquece de sabedoria, conselho, fortaleza e de todos os
outros dons do Espírito Santo para ajudarem os filhos no seu crescimento
humano e cristão.
O dever educativo
recebe do sacramento do matrimónio a dignidade e a vocação de ser um
verdadeiro e próprio «ministério» da Igreja ao serviço da edificação dos
seus membros. Tal é a grandeza e o esplendor do ministério educativo dos
pais cristãos, que Santo Tomás não hesita em compará-lo ao ministério dos
sacerdotes: «Alguns propagam e conservam a vida espiritual com um
ministério unicamente espiritual: é a tarefa do sacramento da ordem;
outros fazem-no quanto à vida corporal e espiritual o que se realiza com o
sacramento do matrimónio, que une o homem e a mulher para que tenham
descendência e a eduquem para o culto de Deus».
A consciência viva e
atenta da missão recebida no sacramento do matrimónio ajudará os pais
cristãos a dedicarem-se com grande serenidade e confiança ao servico de
educar os filhos e, ao mesmo tempo, com sentido de responsabilidade diante
de Deus que os chama e os manda edificar a Igreja nos filhos. Assim a
família dos baptizados, convocada qual igreja doméstica pela Palavra e
pelo Sacramento, torna-se, conjuntamente, como a grande Igreja, mestra e
mãe.
A
primeira experiência de Igreja
39. A missão de educar
exige que os pais cristãos proponham aos filhos todos os conteúdos
necessários para o amadurecimento gradual da personalidade sob o ponto de
vista cristão e eclesial. Retomarão então as linhas educativas acima
recordadas, com o cuidado de mostrar aos filhos a que profundidade de
significado a fé e a caridade de Jesus Cristo sabem conduzir. Para além
disso, a certeza de que o Senhor lhes coníia o crescimento de um filho de
Deus, de um irmão de Cristo, de um templo do Espírito Santo, de um membro
da Igreja, ajudará os pais cristãos no seu dever de reforçar na alma dos
filhos o dom da graça divina.
O Concílio Vaticano II
precisa assim o conteúdo da educação cristã: «Esta procura dar não só a
maturidade de pessoa humana... mas tende principalmente a fazer com que os
baptizados, er.quanto são introduzidos gradualmente no conhecimento do
mistério da salvação, se tornem cada vez mais conscientes do dom da fé que
receberam; aprendam, principalmente na acção litúrgica, a adorar a Deus
Pai em espírito e verdade (cfr. Jo. 4, 23), disponham-se a levar a própria
vida segundo o homem novo em justiça e santidade de verdade (Ef 4, 22-24);
e assim se aproximem do homem perfeito, da idade plena de Cristo (cfr. Ef.
4, 13) e colaborem no aumento do Corpo Místico. Além disso, conscientes da
sua vocação, habituem-se quer a testemunhar a esperança que neles existe
(cfr. 1 Ped. 3, 15), quer a ajudar a conformação cristã no mundo».
Também o Sínodo,
retomando e desenvolvendo as linhas conciliares, apresentou a missão
educativa da família cristã como um verdadeiro ministério, através do qual
é transmitido e irradiado o Evangelho, ao ponto de a mesma vida da família
se tornar itinerário de fé e, em certo modo, iniciação cristã e escola
para seguir a Cristo. Na família consciente de tal dom, como escreveu
Paulo VI, «todos os membros evangelizam e são evangelizados».
Pela força do
ministério da educação os pais, mediante o testemunho de vida, são os
primeiros arautos do Evangelho junto dos filhos. A inda mais: rezando com
os filhos, dedicando-se com eles à leitura da Palavra de Deus e
inserindo-os no íntimo do Corpo - eucarístico e eclesial - de Cristo
mediante a iniciação cristã, tornam-se plenamente pais, progenitores não
só da vida carnal, mas também daquela que, mediante a renovação do
Espírito, brota da Cruz e da ressurreição de Cristo.
Para que os pais
cristãos possam cumprir dignamente o seu ministério educativo, os Padres
Sinodais exprimiram o desejo de que seja preparado um catecismo para
uso da família, com texto adequado, claro, breve e tal que possa ser
facilmente assimilado por todos. As conferências episcopais foram
vivamente convidadas a empenharem-se na realização deste catecismo.
Relações com outras forças educativas
40. A família é a
primeira, mas não a única e exclusiva comunidade educativa: a dimensão
comunitária, civil e eclesial do homem exige e conduz a uma obra mais
ampla e articulada, que seja o fruto da colaboração ordenada das diversas
forças educativas. Estas forças são todas elas necessárias, mesmo que cada
uma possa e deva intervir com a sua competência e o seu contributo
próprio.
O dever educativo da
família cristã tem consequentemente um lugar bem importante na pastoral
organica o que implica uma nova forma de colaboração entre os pais e as
comunidades cristãs, entre os diversos grupos educativos e os pastores.
Neste sentido, a renovação da escola ca tólica deve dar uma atenção
especial quer aos pais dos alunos quer à formação de uma perfeita
comunidade educadora.
Deve ser absolutamente
assegurado o direito dos pais à escolha de uma educação conforme à sua fé
religiosa.
O Estado e a Igreja têm
obrigação de prestar às famílias todos os meios possíveis a fim de que
possam exercer adequadamente os seus deveres educativos. Por isso, quer a
Igreja quer o Estado devem criar e promover aquelas instituições e
actividades que as famílias justamente reclamam. A ajuda deverá ser
proporcional às insuficiências das famílias. Portanto, todos os que na
sociedade ocupam postos de direcção escolar nunca esqueçam que os pais
foram constituídos pelo próprio Deus como primeiros e principais
educadores dos filhos, e que o seu direito é absolutamente inalienável.
Mas, complementar ao
direito, põe-se o grave dever dos pais de se empenharem com profundidade
numa relação cordial e construtiva com os professores e os directores das
escolas.
Se nas escolas se
ensinam ideologias contrárias à fé cristã, cada família juntamente com
outras, possivelmente mediante formas associativas, deve com todas as
forças e com sabedoria ajudar os jovens a não se afastarem da fé. Neste
caso, a família tem necessidade de especial ajuda da parte dos pastores,
que não poderão esquecer o direito inviolável dos pais de confiar os seus
filhos à comunidade eclesial.
Um
múltiplo serviço à vida
41. O amor conjugal
fecundo exprime-se num serviço à vida em variadas formas, sendo a geração
e a educação as mais imediatas, próprias e insubstituíveis. Na realidade,
cada acto de amor verdadeiro para com o homem testemunha e aperfeiçoa a
fecundidade espiritual da família, porque é obediéncia ao profundo
dinamismo interior do amor como doação de si aos outros.
Nesta perspectiva, para
todos rica de valor e de empenho, saberão inspirar-se particularmente
aqueles cônjuges que fazem a experiência da esterilidade física.
As famílias cristãs,
que na fé reconhecem todos os homens como filhos do Pai comum dos céus,
irão generosamente ao encontro dos filhos das outras famílias,
sustentando-os e amando-os não como estranhos, mas como membros da única
família dos filhos de Deus. Os pais cristãos terão assim oportunidade de
alargar o seu amor para além dos vínculos da carne e do sangue,
alimentando os laços que têm o seu fundamento no espírito e que se
desenvolvem no serviço concreto aos filhos de outras famílias, muitas
vezes necessitadas até das coisas mais elementares.
As famílias cristãs
saberão viver uma maior disponibilidade em favor da adopção e do
acolhimento de órfãos ou abandonados: enquanto estas crianças, encontrando
o calor afectivo de uma família, podem fazer uma experiência cla carinhosa
e próvida paternidade de Deus, teste munhada pelos pais cristãos, e assim
crescer com serenidade e confiança na vida, a família inteira
enriquecer-se-á dos valores espirituais de uma mais ampla fraternidade.
A fecundidade das
famílias deve conhecer uma sua incessante «criatividade», fruto
maravilhoso do Espírito de Deus, que abre os olhos do coração à descoberta
de novas necessidades e sofrimentos da nossa sociedade, e que infunde
coragem para as assumir e dar-lhes resposta. Apresenta-se às famílias,
neste quadro, um vastíssimo campo de acção: com efeito, ainda mais
preocupante que o abandono das crianças é hoje o fenómeno da
marginalização social e cultural, que dur amente fere anciãos, doentes,
deficientes, toxicómanos, ex-presos, etc.
Desta maneira dilata-se
enormemente o horizonte da paternidade e da maternidade das famílias
cristãs: o seu amor espiritualmente fecundo é desafiado por estas e tantas
outras urgências do nosso tempo. Com as famílias e por meio delas, o
Senhor continua a ter «compaixão» das multidões.
III -
A PARTICIPAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE
A família,
célula primeira e vital da sociedade
42. «Pois que o
Criador de todas as coisas constituiu o matrimónio princípio e fundamento
da sociedade humana», a família tornou-se a «célula primeira e vital da
sociedade».
A família possui
vínculos vitais e organicos com a sociedade, porque constitui o seu
fundamento e alimento contínuo mediante o dever de serviço à vida: saem,
de facto, da família os cidadãos e na família encontram a primeira escola
daquelas virtudes sociais, que são a alma da vida e do desenvolvimento da
mesma sociedade.
Assim por força
da suà natureza e vocação, longe de fechar-se em si mesma, a família
abre-se às outras famílias e à sociedade, assumindo a sua tarefa social.
A vida familiar como
experiência de comunhão e de participação
43. A mesma experiência
de comunhão e de participação, que deve caracterizar a vida quotidiana da
família, representa o seu primeiro e fundamental contributo à sociedade.
As relações entre os
membros da comunidade familiar são inspiradas e guiadas pela lei da
«gratuidade» que, respeitando e favorecendo em todos e em cada um a
dignidade pessoal como único título de valor, se torna acolhimento
cordial, encontro e diálogo, disponibilidade desinteressada, serviço
generoso, solidariedade profunda.
A promoção de uma
autêntica e madura comunhão de pessoas na família torna-se a primeira e
insubstituível escola de sociabilidade, exemplo e estímulo para as mais
amplas relações comunitárias na mira do respeito, da justiça, do diálogo,
do amor.
Deste modo a família,
como recordaram os Padres Sinodais, constitui o lugar nativo e o
instrumento mais eficaz de humanização e de personalização da sociedade.
Colabora de um modo original e profundo na construção do mundo, tornando
possível uma vida propriamente humana, guardando e transmitindo em
particular as virtudes e «os valores». Como escreve o Concílio Vaticano
II, na família «congregam-se as diferentes gerações que reciprocamente se
ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos
pessoais com as outras exigências da vida social»,
Assim diante de uma
sociedade que se arrisca a ser cada vez mais despersonalizada e
massificada, e, portanto, desumana e desumanizante, com as resultantes
negativas de tantas formas de «evasão» - como, por exemplo, o alcoolismo,
a droga e o próprio terrorismo - a família possui e irradia ainda hoje
energias formidáveis capazes de arrancar o homem do anonimato, de o manter
consciente da sua dignidade pessoal, de o enriquecer de profunda
humanidade e de o inserir activamente com a sua unicidade e
irrepetibilidade no tecido da sociedade.
Função social e
política
44. A função social da
família não pode certamente fechar-se na obra procriativa e educativa,
ainda que nessa encontre a primeira e insubstituível forma de expressão.
As famílias, quer cada
uma por si quer associadas, podem e devem portanto dedicar-se a várias
obras de serviço social, especialmente em prol dos pobres, e de qualquer
modo de todas aquelas pessoas e situações que a organização previdencial e
assistencial das autoridades públicas não consegue atingir.
O contributo social da
família tem uma originalidade própria, que pode ser conhecida melhor e
mais decisivamente favorecida, sobretudo à medida que os filhos crescem,
empenhando de facto o mais possível todos os membros.
Em particular é de
realçar a importância sempre maior que na nossa sociedade assume a
hospitalidade, em todas as suas formas desde o abrir as portas da própria
casa e ainda mais do próprio coração aos pedidos dos irmãos, ao empenho
concreto de assegurar a cada família a sua casa, como ambiente natural que
a conserva e a faz crescer. Sobretudo a família cristã é chamada a escutar
a recomendação do apóstolo: «Exercei a hospitalidade com solicitude» e
portanto a actuar, imitando o exemplo e compartilhando a caridade de
Cristo, o acolhimento do irmão necessitado: «Quem der de beber a um destes
pequeninos, ainda que seja somente um copo de água fresca, por ser meu
discípulo, em verdade vos digo não perderá a sua recompensa»,
O dever
social das famílias é chamado ainda a exprimir-se sob forma de
intervenção política: as famílias devem com prioridade diligenciar
para que as leis e as instituições do Estado não só não ofendam, mas
sustentem e defendam positivamente os seus direitos e deveres. Em tal
sentido as famílias devem crescer na consciência de serem «protagonistas»
da chamada «política familiar» e assumir a responsabilidade de transformar
a sociedade: doutra forma as famílias serão as primeiras vítimas daqueles
males que se limitaram a observar com indiferença. O apelo do Concílio
Vaticano II para que se supere a ética individualística tem também valor
para a família como tal.
A sociedade
ao serviço da família
45. A íntima conexão
entre a família e a sociedade, como exige a abertura e a participação da
família na sociedade e no seu desenvolvimento, impõe também que a
sociedade não abandone o seu dever fundamental de respeitar e de promover
a família.
A família e a sociedade
têm certamente uma função complementar na defesa e na promoção do bem de
todos homens e de cada homem. Mas a sociedade, e mais especificamente o
Estado, devem reconhecer que a família é «uma sociedade que goza de
direito próprio e primordial» e portanto nas suas relações com a família
são gravemente obrigados ao respeito do princípio de subsidiariedade.
Por força de tal
princípio o Estado não pode nem deve subtrair às famílias tarefas que elas
podem igualmente desenvolver perfeitamente sós ou livremente associadas,
mas favorecer positivamente e solicitar o mais possível a iniciativa
responsável das famílias. Convencidas de que o bem da família constitui um
valor indispensável e irrenunciável da comunidade civil, as autoridades
públicas devem fazer o possível por assegurar às famílias todas aquelas
ajudas - económicas, sociais, educativas, políticas, culturais de que têm
necessidade para fazer frente de modo humano a todas as suas
responsabilidades.
A carta dos direitos
da família
46. O ideal de uma
acção recíproca de auxílio e de desenvolvimento entre a família e a
sociedade encontra-se muitas vezes, e em termos bastante graves, com a
realidade de uma separação, mais que de uma contraposição.
Com efeito, como
continuamente denunciou o Sínodo, a situação que numerosas famílias
encontram em diversos países é muito problemática, e até decididamente
negativa: instituições e leis que desconhecem injustamente os direitos
invioláveis da família e da mesma pessoa humana, e a sociedade, longe de
se colocar ao serviço da família, agride-a com violência nos seus valores
e nas suas exigências fundamentais. Assim a família que, segundo o desígno
de Deus, é a célula base da sociedade, sujeito de direitos e deveres antes
do Estado e de qualquer outra comunidade, encontra-se como vítima da
sociedade, dos atrasos e da lentidão das suas intervenções e ainda mais
das suas patentes injustiças.
Por tudo isto a Igreja
defende aberta e fortemente os direitos da família contra as intoleráveis
usurpações da sociedade e do Estado. De modo particular, os Padres
Sinodais recordam, entre outros, os seguintes direitos da família:
 |
o direito de existir e progredir como família, isto é o direito de cada
homem, mesmo o pobre, a fundar uma família e a ter os meios adequados
para a sustentar;
|
 |
o
direito de exercer as suas responsabilidades no âmbito de transmitir a
vida e de educar os filhos;
|
 |
o
direito à intimidade da vida conjugal e familiar;
|
 |
o
direito à estabilidade do vínculo e da instituição matrimonial;
|
 |
o direito de crer e
de professar a própria fé, e de a difundir;
|
 |
o direito de educar
os filhos segundo as próprias tradições e valores religiosos e
culturais, com os instrumentos, os meios e as instituições necessárias;
|
 |
o
direito de obter a segurança física, social, política, económica,
especialmente tratando-se de pobres e de enfermos;
|
 |
o direito de ter uma
habitação digna a conduzir convenientemente a vida familiar;
|
 |
o direito de
expressão e representação diante das autoridades públicas económicas,
sociais e culturais e outras inferiores, quer directamente quer através
de associações;
|
 |
o direito de criar
associações com outras famílias e instituições, para um desempenho de
modo adequado e solícito do próprio dever;
|
 |
o direito de proteger
os menores de medicamentos prejudiciais, da pornografia, do alcoolismo,
etc mediante instituições e legislações adequadas;
|
 |
o direito à
distracção honesta que favoreça também os valores da família;
|
 |
o direito das pessoas
de idade a viver e morrer dignamente;
|
 |
o direito de emigrar como família para encontrar vida
melhor |
A
Santa Sé, acolhendo o pedido explícito do Sínodo, terá o cuidado de
aprofundar tais sugestões, elaborando uma «Carta dos direitos da família»
a propor aos ambientes e às Autoridades interessadas.
Graça e
responsabilidade da família cristã
47. O dever social
próprio de cada família diz respeito, por um título novo e original, à
família cristã, fundada sobre o sacramento do matrimónio. Assumindo a
realidade humana do amor conjugal com todas as suas consequências, o
sacramento habilita e empenha os cônjuges e os pais cristãos a viver a sua
vocação de leigos, e por tanto a «procurar o Reino de Deus tratando das
realidades temporais e ordenando-as segundo Deus».
O dever social e
político reentra naquela missão real ou de serviço da qual os esposos
cristãos participam pela força do sacramento do matrimónio, recebendo ao
mesmo tempo um mandamento ao qual não podern subtrair-se e uma graça que
os sustenta e estimula.
Em tal modo a família
cristã é chamada a oferecer a todos o testemunho de uma dedicação generosa
e desinteressada pelos problemas sociais, mediante a «opção preferencial»
pelos pobres e marginalizados. Por isso, progredindo no caminho do Senhor
mediante uma predilecção especial para com todos os pobres, deve cuidar
especialmente dos esfomeados, dos indigentes, dos anciãos, dos doentes,
dos drogados, dos sem família.
Para uma nova ordem
internacional
48. Diante
da dimensão mundial que hoje caracteriza os vários problemas sociais, a
família vê alargar-se de modo completamente novo o seu dever para com o
desenvolvimento da sociedade: trata-se também de uma cooperação para uma
nova ordem internacional, porque só na solidariedade mundial se podem
enfrentar e resolver os enormes e dramáticos problemas da justiça no
mundo, da liberdade dos povos, da paz da humanidade.
A comunhão espiritual
das famílias cristãs, radicadas na fé e esperança comuns e vivificadas
pela caridade, constitui uma energia interior que dá origem, difunde e
desenvolve justiça, reconciliação, fraternidade e paz entre os homens.
Como «pequena Igreja», a família cristã é chamada, à semelhança da «grande
Igreja» a ser sinal de unidade para o mundo e a exercer deste modo o seu
papel profético, testemunhando o Reino e a paz de Cristo, para os quais o
mundo inteiro caminha.
As famílias cristãs
poderão fazê-lo quer através da sua obra educativa, oferecendo aos filhos
um modelo de vida fundada sobre os valores da verdade, da liberdade, da
justiça e do amor, quer com um empenho activo e responsável no crescimento
autenticamente humano da sociedade e das suas instituições, quer mantendo
de vários modos associações que especificamente se dedicam aos problemas
de ordem internacional.
IV - A PARTICIPAÇÃO
NA VIDA E NA MISSÃO DA IGREJA
A família no
mistério da Igreja
49. Entre os deveres
fundamentais da família cristã estabelece-se o dever eclesial: colocar-se
ao serviço da edificação do Reino de Deus na história, mediante a
participação na vida e na missão da Igreja.
Para melhor compreender
os fundamentos, os conteúdos e as características de tal participação,
ocorre aprofundar os vínculos múltiplos e profundos que ligam entre si a
Igreja e a família cristã, e constituem esta última como «uma Igreja em
miniatura» (Ecclesia domestica), fazendo com que esta, a seu modo,
seja imagem viva e representação histórica do próprio mistério da Igreja.
É antes de tudo a
Igreja Mãe que gera, educa, edifica a família cristã, operando em seu
favor a missão de salvação que recebeu do Senhor. Com o anúncio da Palavra
de Deus, a Igreja revela à família cristã a sua verdadeira identidade, o
que ela é e deve ser segundo o desígnio do Senhor; com a celébração dos
sacramentos, a Igreja enriquece e corrobora a família cristã com a graça
de Cristo em ordem à sua santificação para a glória do Pai; com a renovada
proclamação do mandamento novo da caridade, a Igreja anima e guia a
família cristã ao serviço do amor, a fim de que imite e reviva o mesmo
amor de doação e sacrifício, que o Senhor Jesus nutre pela humanidade
inteira.
Por sua vez a família
cristã está inserida a tal ponto no mistério da Igreja que se torna
participante, a seu modo, da missão de salvacão própria da Igreja: os
cônjuges e os pais cristãos, em virtude do sacramento, «têm assim, no seu
estado de vida e na sua ordem, um dom próprio no Povo de Deus».
Por isso não só «recebem» o amor de Cristo tornando-se comunidade «salva»,
mas também são chamados a «transmitir» aos irmãos o mesmo amor de Cristo,
tornando-se assim comunidade «salvadora». Deste modo, enquanto é fruto e
sinal da fecundidade sobrenatural da Igreja, a família cristã torna-se
símbolo, testemunho, participação da maternidade da Igreja.
Uma função eclesial
própria e original
50. A família cristã é
chamada a tomar parte viva e responsável na missão da Igreja de modo
próprio e original, colocando-se ao serviço da Igreja e da sociedade no
seu ser e agir, enquanto comunidade íntima de vida e de amor.
Se a família cristã é
comunidade, cujos vínculos são renovados por Cristo mediante a fé e os
sacramentos, a sua participação na missão da Igreja deve dar-se segundo
uma modalidade comunitária: conjuntamente, portanto, os
cônjuges enquanto casal, os pais e os filhos enquanto família,
devem viver o seu serviço à Igreja e ao mundo. Devem ser na fé «um só
coração e uma só alma», através do espírito apostólico comum que os anima
e mediante a colaboração que os empenha nas obras de serviço à comunidade
eclesial e civil.
A família cristã, pois,
edifica o Reino de Deus na história mediante aquelas mesmas realidades
quotidianas que dizem respeito e contradistinguem a sua condição de
vida: é então no amor conjugal e familiar - vivido na sua
extraordinária riqueza de valores e exigências de totalidade, unicidade,
fidelidade e fecundidade - que se exprime e se realiza a participação da
família cristã na missão profética, sacerdotal e real de Jesus Cristo e da
sua Igreja: o amor e a vida constituem portanto o núcleo da missão
salvífica da família cristã na Igreja e pela Igreja
O Concílio Vaticano II
recorda-o quando escreve: «Cada família comunicará generosamente com as
outras as próprias riquezas espirituais. Por isso, a família cristã,
nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor
entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador
no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos
esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer
pela amável cooperação de todos os seus membros».
Posto assim o
fundamento da participação da família cristã na missão eclesial, é
agora o momento de ilustrar o seu conteúdo na tríplice e unitária
referencia a Jesus Cristo Profeta, Sacerdote e Rei, apresentando por
isso a família cristã como 1) comunidade crente e evangelizadora, 2)
comunidade em diálogo com Deus, 3) comunidade ao serviço do homem.
1)
A Família cristã,
comunidade crente e evangelizadora
A fé, descoberta e
admiração do desígnio de Deus sobre a família
51. Partícipe da vida e
da missão da Igreja, que está em religiosa escuta da Palavra de Deus e a
proclama com firme confiança, a família cristã vive a sua tarefa
profética acolhendo e anunciando a Palavra de Deus: torna-se assim,
cada dia mais comunidade crente e evangelizadora.
Também aos esposos e
aos pais cristãos é pedida a obediência da fé: são chamados a acolher a
Palavra do Senhor, que a eles revela a extraordinária novidade - a Boa
Nova - da sua vida conjugal e familiar, feita por Cristo santa e
santificante. De facto, somente na fé eles podem descobrir e admirar com
jubilosa gratidão a que dignidade Deus quis elevar o matrimónio e a
família, constituindo-os sinal e lugar da aliança de amor entre Deus e os
homens, entre Jesus Cristo e a Igreja sua esposa.
A preparação para o
matrimónio cristão é já qualificada como um itinerário de fé: põe-se, de
facto, como ocasião privilegiada para que os noivos descubram e aprofundem
a fé recebida no baptismo e alimentada com a educação cristã. Desta forma
reconhecem e acolhem livremente a vocação de seguir o caminho de Cristo e
de se pôr ao serviço do Reino de Deus no estado matrimonial.
O momento fundamental
da fé dos esposos é dado pela celebração do sacramento do matrimónio, que
na sua natureza profunda é a proclamação, na Igreja, da Boa-Nova sobre o
amor conjugal: é Palavra de Deus que «revela» e «cumpre» o sábio e amoroso
projecto que Deus tem sobre os esposos, introduzidos na misteriosa e real
participação do próprio amor de Deus pela humanidade. Se em si mesma a
celebração sacramental do matrimónio é proclamação da Palavra de Deus,
enquanto os noivos são a título vário protagonistas e celebrantes, deve
ser uma «profissão de fé» feita dentro da Igreja e com a Igreja comunidade
dos crentes.
Esta profissão de fé
exige o seu prolongamento no decurso da vida dos esposos e da família:
Deus, que de facto, chamou os esposos «ao» matrimónio, continua a
chamá-los «no» martimónio. Dentro e através dos factos, dos problemas, das
dificuldades, dos acontecimentos da existência de todos os dias, Deus
vai-lhes revelando e propondo as «exigências» concretas da sua
participação no amor de Cristo pela Igreja em relação com a situação
particular - familiar, social e eclesial - na qual se encontram.
A descoberta e a
obediência ao desígnio de Deus devem fazer-se «conjuntamente» pela
comunidade conjugal e familiar, através da mesma experiência humana do
amor vivido do Espírito de Cristo entre os esposos, entre os pais e os
filhos
Por isto, como a grande
Igreja, assim também a pequena Igreja doméstica tem necessidade de ser
contínua e intensamente evangelizada: daqui o seu dever de educação
permanente na fé.
O ministério de
evangelização da família cristã
52. Na medida em que a
família cristã acolhe o Evangelho e amadurece na fé torna-se comunidade
evangelizadora. Escutemos de novo Paulo VI: «A família, como a Igreja,
deve ser um lugar onde se transmite o Evangelho e donde o Evangelho
irradia. Portanto no interior de uma família consciente desta missão,
todos os componentes evangelizam e são evangelizados. Os pais não só
comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem também receber deles o mesmo
Evangelho profundamente vivido. Uma tal família torna-se, então,
evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente no qual está
inserida»,
Como repetiu o Sínodo,
retomando o meu apelo lançado em Puebla, a futura evangelização depende em
grande parte da Igreja doméstica. Esta missão apostólica da família tem as
suas raízes no baptismo e recebe da graça sacramental do matrimónio uma
nova força para transmitir a fé, para santificar e transformar a sociedade
actual segundo o desígnio de Deus.
A família cristã,
sobretudo hoje, tem uma especial vocação para ser testemunha da aliança
pascal de Cristo, mediante a irradiação constante da alegria do amor e da
certeza da esperança, da qual deve tornar-se reflexo: «A família cristã
proclama em alta voz as virtudes presentes do Reino de Deus e a esperança
na vida bem-aventurada»,
A absoluta necessidade
da catequese familiar surge com singular vigor em determinadas situações
que infelizmente a Igreja experimenta em diversos lugares: «Onde uma
legislação anti-religiosa pretende impedir até a educação na fé, onde uma
incredulidade difundida ou um secularismo invasor tornam praticamente
impossível um verdadeiro crescimento religioso, aquela que poderia ser
chamada "Igreja doméstica" fica como único ambiente, no qual crianças e
jovens podem receber uma autêntica catequese».
Um serviço eclesial
53. O ministério de
evangelização dos pais cristãos é original e insubstituível: assume as
conotações típicas da vida familiar, entrelaçada como deveria ser com o
amor, com a simplicidade, com o sentido do concreto e com o testemunho do
quotidiano.
A família deve formar
os filhos para a vida, de modo que cada um realize plenamente o seu dever
segundo a vocação recebida de Deus. De facto, a família que está aberta
aos valores do transcendente, que serve os irmãos na alegria, que realiza
com generosa fidelidade os seus deveres e tem consciência da sua
participação quotidiana no mistério da Cruz gloriosa de Cristo, torna-se o
primeiro e o melhor seminário da vocação à vida consagrada ao Reino de
Deus.
O ministério de
evangelização e de catequese dos pais deve acompanhar também a vida dos
filhos nos anos da adolescência e da juventude, quando estes, como muitas
vezes acontece, contestam ou mesmo rejeitam a fé cristã recebida nos
primeiros anos da vida. Como na Igreja a obra de evangelização nunca se
separa do sofrimento do apóstolo, assim na família cristã os pais devem
enfrentar com coragem e com grande serenidade de animo as dificuldades que
o seu ministério de evangelização algumas vezes encontra nos próprios
filhos.
Não se deverá esquecer
que o serviço dos cônjuges e pais cristãos a favor do Evangelho é
essencialmente um serviço eclesial, isto é, reentra no contexto da Igreja
inteira, qual comunidade evangelizada e evangelizadora. Enquanto radicado
e derivado da única missão da Igreja e enquanto ordenado à edificação do
único Corpo de Cristo, o ministério de evangelização e de catequese da
Igreja doméstica deve permanecer em comunhão intima e deve harmonizar-se
responsavelmente com todos os outros serviços de evangelização e de
catequese presentes e operantes na comunidade eclesial, quer diocesana
quer paroquial.
Pregar o Evangelho
a toda a criatura
54. A universalidade
sem fronteiras é o horizonte próprio da evangelização, animada
interiormente pelo impulso missionário: é de facto a resposta explicita e
inequivoca ao mandato de Cristo: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa
Nova a toda a criatura».
Também a fé e a missão
evangelizadora da família cristã prosseguem este alento missionário
católico. O sacramento do matrimónio que retoma e volta a propor o dever,
radicado no baptismo e na confirmação, de defender e difundir a fé,
constitui os cônjuges e os pais cristãos testemunhas de Cristo «até aos
confins do mundo», verdadeiros e próprios «missionários» do amor e da
vida.
Uma
certa forma de actividade missionária pode desenvolver-se já na mesma
família. Isto acontece quando algum dos seus membros não tem fé ou não a
pratica com coerência. Em tal caso, os familiares devem oferecer-lhe um
testemunho de vida de fé que o estimule e encoraje no caminho para a plena
adesão a Cristo Salvador.
Animada já
interiormente pelo espirito missionário, a Igreja doméstica é chamada a
ser um sinal luminoso da presença de Cristo e do seu amor mesmo para os
«afastados», para as familias que ainda não crêem e para aquelas que já
não vivem em coerência com a fé recebida: é chamada «com o seu exemplo e
com o seu testemunho» a iluminar «aqueles que procuram a verdade».
Como já no início do
cristianismo Áquila e Priscila se apresentavam como casal missionário,
assim hoje a Igreja testemunha a sua incessante novidade e
rejuvenescimento com a presença de cônjuges e de famílias cristãs que, ao
menos durante um certo período de tempo, estão nas terras de missão a
anunciar o Evangelho, servindo o homem com o amor de Jesus Cristo.
As famílias cristãs dão um contributo particular à causa missionária da
Igreja cultivando as vocações missionárias nos seus filhos e filhas e, de
uma forma mais generalizada, com uma obra educativa que vai «dispondo os
filhos, desde a infancia para conhecerem o amor de Deus por todos os
homens».
2) A família cristã,
comunidade em diálogo com Deus
O santuário
doméstico da Igreja
55.O anúncio do
Evangelho e a sua aceitação pela fé atingem a plenitude na celebração
sacramental. A Igreja, comunidade crente e evangelizadora, é também povo
sacerdotal, revestido de dignidade e participante do poder de Cristo Sumo
Sacerdote da Nova e Eterna Aliança.
A família cristã também
está inserida na Igreja, povo sacerdotal: mediante o sacramento do
matrimónio, no qual está radicada e do qual se alimenta, é continuamente
vivificada pelo Senhor Jesus, e por Ele chamada e empenhada no diálogo com
Deus mediante a vida sacramental, o oferecimento da própria existência e a
oração.
É este o múnus
sacerdotal que a família cristã pode e deve exercitar em comunhão
íntima com toda a Igreja, através das realidades quotidianas da vida
conjugal e familiar: em tal sentido a família cristã é chamada a
santificar-se e a santificar a comunidade cristã e o mundo.
O matrimónio,
sacramento de santificação mútua e acto de culto
56. O
sacramento do matrimónio, que retoma e especifica a graça santificante do
baptismo, é a fonte própria e o meio original de sentificação para os
cônjuges. Em virtude do mistério da morte e ressurreição de Cristo, dentro
do qual se insere novamente o matrimónio cristão, o amor conjugal é
purificado e santificado: «O Senhor dignou-se sanar, aperfeiçoar e elevar
este amor com um dom especial de graça e caridade»
O dom
de Jesus Cristo não se esgota na celebração do matrimónio, mas acompanha
os cônjuges ao longo de toda a existência. O Concílio Vaticano II
recorda-o explicitamente, quando diz que Jesus Cristo «permanece com eles,
para que, assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela, de igual
modo os cônjuges, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade...
Por este motivo, os esposos cristãos são fortalecidos e como que
consagrados em ordem aos deveres do seu estado por meio de um sacramento
especial; cumprindo, graças à energia deste, a própria missão conjugal e
familiar, penetrados do espírito de Cristo que impregna toda a sua vida de
fé, esperança e caridade, avançam sempre mais na própria perfeição e mútua
santificação e cooperam assim juntos para a glória de Deus».
A vocação universal à
santidade é dirigida também aos cónjuges e aos pais cristãos: é
especificada para eles pela celebracão do sacramento e traduzida
concretamente nas realidades próprias da existência conjugal e familiar.
Nascem daqui a graça e a exigência de uma autêntica e profundo
espiritualidade conjugal e familiar, que se inspire nos motivos da
criação, da aliança, da cruz, da ressurreição e do sinal, sobre cujos
temas se deteve várias vezes o Sínodo.
O matrimónio cristão,
como todos os sacramentos que «estão ordenados à santificação dos homens,
à edificação do Corpo de Cristo, e enfim, a prestar culto a Deus», é em si
mesmo um acto litúrgico de louvor a Deus em Jesus Cristo e na Igreja:
celebrando-o, os cônjuges cristãos professam a sua gratidão a Deus pelo
dom sublime que lhes foi dado de poder reviver na sua existência conjugal
e familiar o mesmo amor de Deus pelos homens e de Cristo pela Igreja sua
esposa.
E como do sacramento
derivam para os cônjuges o dom e a obrigação de viver no quotidiano a
santificação recebida, assim do mesmo sacramento dimanam a graça e o
empenho moral de transformar toda a sua vida num contínuo «sacrifício
espiritual». Ainda aos esposos e aos pais cristãos, particularmente para
aquelas realidades terrenas e temporais que os caracterizam, se aplicam as
palavras do Concílio: «E deste modo, os leigos, agindo em toda a parte
santamente, como adoradores, consagram a Deus o próprio mundo».
Matrimónio e
Eucaristia
57. O dever de
santificação da família tem a sua primeira raiz no baptismo e a sua
expressão máxima na Eucaristia, à qual está intimamente ligado o
matrimónio cristão. O Concílio Vaticano II quis chamar a atenção para a
relação especial que existe entre a Eucaristia e o matrimónio pedindo que:
«o matrimónio se celebre usualmente dentro da Missa». Redescobrir e
aprofundar tal relação é absolutamente necessário, se se quiser
compreender e viver com uma maior intensidade as graças e as
responsabilidades do matrimónio e da família cristã.
A
Eucaristia é a fonte própria do matrimónio cristão. O sacrifício
eucarístico, de facto, representa a aliança de amor de Cristo com a
Igreja, enquanto sigilada com o sangue da sua Cruz. Neste sacrifício da
Nova e Eterna Aliança é que os cônjuges cristãos encontram a raiz da qual
brota, é interiormente plasmada e continuamente vivificada a sua aliança
conjugal. Como representação do sacrifício de amor de Cristo pela Igreja,
a Eucaristia é fonte de caridade. E no dom eucarístico da caridade a
família cristã encontra o fundamento e a alma da sua «comunhão» e da sua
«missão»: o Pão eucarístico faz dos diversos membros da comunidade
familiar um único corpo, revelação e participação na mais ampla unidade da
Igreja; a participação pois ao Corpo «dado» e ao Sangue «derramado» de
Cristo torna-se fonte inesgotável do dinamismo missionário e apostólico da
família cristã.
O
sacramento da conversão e da reconciliação
58. Uma parte essencial
e permanente do dever de santificação da família cristã é o acolhimento do
apelo evangélico de conversão dirigido a todos os cristãos, que nem sempre
permanecem fiéis à «novidade» daquele baptismo que os constituiu «santos».
A família cristã também nem sempre é coerente com a lei da graça e da
santidade baptismal, proclamada de novo pelo sacramento do matrimónio.
O arrependimento e o
mútuo perdão no seio da família cristã, que se revestem de tanta
importância na vida quotidiana, encontram o seu momento sacramental
específico na Penitência cristã. Aos cônjuges escrevia assim Paulo VI, na
Encíclica Humanae Vitae: «Se o pecado os atingir, não desanimem,
mas recorram com humilde perseverança à misericórdia de Deus, que com
prodigalidade é generosamente dada no sacramento da Penitência».
A celebração deste
sacramento dá à vida familiar um significado particular: ao descobrirem
pela fé como o pecado contradiz não só a aliança com Deus, mas também a
aliança dos cônjuges e a comunhão da família, os esposos e todos os
membros da família são conduzidos ao encontro com Deus «rico em
misericórdia», o qual, alargando o seu amor que é mais forte do que o
pecado, reconstrói e aperfeiçoa a aliança conjugal e a comunhão familiar.
A oração familiar
59. A Igreja reza pela
família cristã e educa-a a viver em generosa coerência com o dom e o dever
sacerdotal, recebido de Cristo Sumo Sacerdote. Na realidade, o sacerdócio
baptismal dos fiéis, vivido no matrimónio-sacramento, constitui para os
cônjuges e para a família o fundamento de uma vocação e de uma missão
sacerdotal, pela qual a própria existência quotidiana se transforma num
«sacrifício espiritual agradável a Deus por meio de Jesus Cristo»: é o que
acontece, não só com a celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos e
com a oferenda de si mesmos à glória de Deus, mas também com a vida de
oração, com o diálogo orante com o Pai por Jesus Cristo no Espírito Santo.
A oração familiar tem
as suas características. É uma oração feita em comum, marido e
mulher juntos, pais e filhos juntos. A comunhão na oração é, ao mesmo
tempo, fruto e exigência daquela comunhão que é dada pelos sacramentos do
baptismo e do matrimónio. Aos membros da família cristã podem aplicar-se
de modo particular as palavras com que Cristo promete a sua presenca:
«Digo-vos ainda: se dois de vós se unirem, na terra, para pedirem qualquer
coisa, obtê-la-ão de Meu Pai que está nos Céus. Pois onde estiverem
reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles».
A oração familiar tem
como conteúdo original a própria vida de família, que em todas as
suas diversas fases é interpretada como vocação de Deus e actuada como
resposta filial ao Seu apelo: alegrias e dores, esperanças e tristezas,
nascimento e festas de anos, aniversários de núpcias dos pais, partidas,
ausências e regressos, escolhas importantes e decisivas, a morte de
pessoas queridas, etc., assinalam a intervenção do amor de Deus, na
história da família, assim como devem marcar o momento favorável para a
acção de graças, para a impetração, para o abandono confiante da família
ao Pai comum que está nos céus. A dignidade e a responsabilidade da
família cristã como Igreja doméstica só podem pois ser vividas com a ajuda
incessante de Deus, que não faltará, se implorada com humildade e
confiança na oração.
Educadores de oração
60. Em virtude da sua
dignidade e missão, os pais cristãos têm o dever específico de educar os
filhos para a oração, de os introduzir na descoberta progressiva do
mistério de Deus e no colóquio pessoal com Ele: «É sobretudo na família
cristã, ornada da graça e do dever do sacramento do matrimónio, que devem
ser ensinados os filhos desde os primeiros anos, segundo a fé recebida no
Baptismo, a conhecer e a adorar Deus e amar o próximo».
Elemento fundamental e
insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o
testemunho vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a
mãe, enquanto cumprem o próprio sacerdócio real, entram na profundidade do
coração dos filhos, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida
não conseguirão fazer desaparecer. Tornemos a escutar o apelo que o Papa
Paulo VI dirigiu aos pais: «Mães, ensinais aos vossos filhos as orações do
cristão? Em consonancia com os Sacerdotes, preparais os vossos filhos para
os sacramentos da primeira idade: confissão, comunhão, crisma?
Habituai-los, quando enfermos, a pensar em Cristo que sofre? a invocar o
auxílio de Nossa Senhora e dos Santos? Rezais o terço em família? E vós,
Pais, sabeis rezar com os vossos filhos, com toda a comunidàde doméstica,
pelo menos algumas vezes? O vosso exemplo, na rectidão do pensamento e da
acção, sufragada com alguma oração comum, tem o valor de uma lição de
vida, tem o valor de um acto de culto de mérito particular; levais assim a
paz às paredes domésticas: "Pax huic domui!". Recordai: deste modo
construís a Igreja!».
Oração litúrgica e
privada
61. Entre a oração da
Igreja e a de cada um dos fiéis há uma profunda e vital relação, como
reafirmou claramente o Concílio Vaticano II.
Ora uma finalidade
importante da oração da Igreja doméstica é a de constituir, para os
filhos, a introdução natural à oração litúrgica própria da Igreja inteira,
no sentido quer de uma preparação para ela, quer de a alargar ao âmbito da
vida pessoal, familiar e social. Daqui a necessidade de uma participação
progressiva de todos os membros da família cristã na Eucaristia, sobretudo
na dominical e festiva, e nos outros sacramentos, em particular nos da
iniciação cristã dos filhos. As directivas conciliares abriram uma nova
possibilidade à família cristã, que foi incluída entre os grupos aos quais
se recomenda a celebração comunitária do Ofício divino. Assim também está
ao cuidado da família cristã celebrar, mesmo em casa e de forma adaptada
aos seus membros, os tempos e as festividades do ano litúrgico.
Para preparar e
prolongar em casa o culto celebrado na Igreja, a família cristã recorre à
oração privada, que se apresenta sob uma grande variedade de formas: esta
variedade, enquanto testemunho da riqueza extraordinária com a qual o
Espírito anima a oração cristã, responde às diversas exigências e
situações da vida de quem se volta para o Senhor. Além das orações da
manhã e da tarde são de aconselhar expressamente - seguindo também
indicações dos Padres Sinodais - a leitura e a meditação da Palavra de
Deus, a preparação para a recepção dos sacramentos, a de voção e
consagração ao Coração de Jesus, as várias formas de culto à Santíssima
Virgem, a bênsão da mesa, as práticas de piedade popular.
No respeito pela
liberdade dos filhos de Deus, a Igreja propôs e continua a sugerir aos
fiéis algumas práticas de piedade com solicitude e insistência
particulares. Entre estas é de lembrar a recitação do Rosário: «Queremos
agora, em continuidade de pensamento com os nossos Predecessores,
recomendar vivamente a recitação do Santo Rosário em família... Não há
dúvida de que o Rosário da bem-aventurada Virgem Maria deve ser
considerado uma das mais excelentes e eficazes orações em comum, que a
família cristã é convidada a recitar Dá-nos gosto pensar e desejamos
vivamente que, quando o encontro familiar se transforma em tempo de
oração, seja o Rosário a sua expressão frequente e preferida», Desta
maneira a autêntica devoção mariana, que se exprime no vínculo sincero e
na generosa série das posições espirituais da Virgem Santíssima, constitui
um instrumento privilegiado para alimentar a comunhão de amor da família e
para desenvolver a espiritualidade conjugal e familiar. Ela, a Mãe de
Cristo e da Igreja, é também, de facto, de forma especial, a Mãe das
famílias cristãs, das Igrejas domésticas.
Oração e vida
62. Nunca se deverá esquecer que a oração é parte constitutiva essencial
da vida cristã, tomada na sua integralidade e centralidade; mais ainda,
pertenece à nossa mesma «humanidade»: é «a primeira expressão da vida
interior do homem, a primeira condição da autêntica liberdade do
espírito».
Por isso, a oração não
representa de modo algum uma evasão que desvia do empenho quotidiano, mas
constitui o impulso mais forte para que a família cristã assuma e cumpra
em plenitude todas as suas responsabilidades de célula primeira e
fundamental da sociedade humana. Em tal sentido, a efectiva participação
na vida e na missão da Igreja no mundo é proporcional à fidelidade e à
intensidade da oração com que a família cristã se une à Videira fecunda,
Cristo Senhor.
Da união vital com
Cristo, alimentada pela Liturgia, pelo oferecimento de si e da oração,
deriva também a fecundidade da família cristã no seu serviço específico de
promoção humana, que de per si não pode não levar à transformação do
mundo.
3) A família cristã,
comunidade ao serviço do homem
O mandamento novo do
amor
63. A Igreja, povo
profético, sacerdotal e real, tem a missão de levar todos os homens a
acolher na fé a Palavra de Deus, a celebrá-la e a professá-la nos
sacramentos e na oração, e, por fim, a manifestá-la na vida concreta
segundo o dom e o mandamento novo do amor.
A vida cristã encontra
a sua lei não num código escrito, mas na acção pessoal do Espírito Santo
que anima e guia o cristão, isto é, na «lei do Espírito que dá vida em
Cristo Jesus»: «o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo
Espírito Santo, que nos foi concedido».
Isto vale também para o
casal e para a família cristã: seu guia e norma é o Espírito de Jesus,
difundido nos corações com a celebração do sacramento do matrimónio. Em
continuidade com o baptismo na água e no Espírito, o matrimónio propõe
outra vez a lei evangélica do amor, e, com o dom do Espírito, grava-a mais
profundamente no coração dos conjuges cristãos: o seu amor, purificado e
salvo, é fruto do Espírito, que age no coração dos crentes e se põe, ao
mesmo tempo, como mandamento fundamental da vida moral pedida à liberdade
responsável deles.
A família cristã é
deste modo animada e guiada pela nova lei do Espírito e em íntima comunhão
com a Igreja, povo real, chamada a viver o seu «serviço» de amor a Deus e
aos irmãos. Como Cristo exerce o seu poder real pondo-se ao serviço dos
homens, assim o cristão encontra o sentido autêntico da sua participação
na realeza do seu Senhor ao condividir com Ele o espírito e a atitude de
serviço no que diz respeito ao homem: «Comunicou (Cristo) este poder aos
discípulos, para que também eles sejam constituídos em régia liberdade e,
com a abnegação de si mesmos e a santidade da vida, vençam em si próprios
o reino do pecado (cfr. Rom. 6, 12); mais ainda, para que, servindo a
Cristo também nos outros, conduzam os seus irmãos, com humildade e
paciência, àquele Pai, a quem servir é reinar. Pois o Senhor deseja
dilatar também por meio dos leigos o Seu reino, reino de verdade e de
vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz,
no qual a própria criação será liberta da servidão da corrupção alcançando
a liberdade da glória dos filhos de Deus (cfr. Rom. 8, 21)».
Descobrir em cada
irmão a imagem de Deus
64. Animada e
sustentada pelo mandamento novo do amor, a família cristã vive a acolhida,
o respeito, o serviço para com a homem, considerado sempre na sua
dignidade de pessoa e de filho de Deus.
Isto deve acontecer,
antes de tudo, no e para o casal e para a família, mediante o empenho
quotidiano de promover uma autêntica comunidade de pessoas, fundada e
alimentada por uma íntima comunhão de amor. Deve além disso ampliar-se
para o círculo mais universal da comunidade eclesial, dentro da qual a
família cristã está inserida: graças à caridade da família, a Igreja pode
e deve assumir uma dimensão mais doméstica, isto é, mais familiar,
adoptando um estilo de relações mais humano e fraterno.
A caridade ultrapassa
os próprios irmãos na fé, porque «todo o homem é meu irmão»; em cáda um,
sobretudo se pobre, fraco, sofredor e injustamente tratado, a caridade
sabe descobrir o rosto de Cristo e um irmão a amar e a servir.
Para que o serviço ao
homem seja vivido pela família segundo o estilo evangélico será necessário
pôr em prática com urgência o que escreve o Concílio Vaticano II: «Para
que este exercício da caridade seja e apareça acima de toda a suspeita,
considere-se no próximo a imagem de Deus, para o qual foi criado, veja-se
nele Cristo, a quem realmente se oferece tudo o que ao indigente se dá»
A famílía cristã, enquanto
edifica a Igreja pela caridade, põe-se ao serviço do homem e do mundo,
actuando verdadeiramente a «promoção humana», cujo conteúdo se encontra
sintetizado na Mensagem do Sínodo à família: «É vossa tarefa formar os
homens para o amor e educá-los a agir com amor em todas as relações
humanas, de modo que o amor fique aberto à comunidade inteira, permeado do
sentido de justiça e de respeito para com os demais, cônscio da própria
responsabilidade para com a mesma sociedade».
QUARTA PARTE
A PASTORAL FAMILIAR:
ETAPAS, ESTRUTURAS, RESPONSÁVEIS E SITUAÇÕES
I - AS ETAPAS DA
PASTORAL FAMILIAR
A Igreja acompanha a família cristã
no seu caminho
65. Como toda a
realidade vivente, também a família é chamada a desenvolver-se e a
crescer. Depois da preparação do noivado e da celebração sacramental do
matrimónio, o casal inicia o caminho quotidiano para a progressiva
actuação dos valores e dos deveres do próprio matrimónio.
À luz da fé e em
virtude da esperança, também a família cristã participa, em comunhão com a
Igreja, na experiência de peregrinação na terra para a plena revelação e
realização do Reino de Deus.
Sublinha-se, portanto,
uma vez mais a urgência da intervenção pastoral da Igreja em prol da
família. É preciso empregar todas as forças para que a pastoral da família
se afirme e desenvolva, dedicando-se a um sector verdadeiramente
prioritário, com a certeza de que a evangelização, no futuro, depende em
grande parte da Igreja doméstica.
A solicitude pastoral
da Igreja não se limitará somente às famílias cristãs mais próximas, mas,
alargando os próprios horizontes à medida do coração de Cristo,
mostrar-se-á ainda mais viva para o conjunto das famílias em geral e para
aquelas, em particular, que se encontram em situações difíceis ou
irregulares. Para todas a Igreja terá uma palavra de verdade, de bondade,
de compreensão, de esperança, de participacão viva nas suas dificudades
por vezes dramáticas; a todas oferecerá ajuda desinteressada a fim de que
possam aproximar-se do modelo de família, que o Criador quis desde o
«princípio» e que Cristo renovou com a graça redentora.
A acção pastoral da
Igreja deve ser progressiva, também no sentido de que deve seguir a
família, acompanhando-a passo a passo nas diversas etapas da sua formação
e desenvolvimento.
A preparação
66. A preparação dos
jovens para o matrimónio e para a vida familiar é necessária hoje mais do
que nunca. Em alguns países são ainda as mesmas famílias que, segundo
costumes antigos, se reservam transmitir aos jovens os valores que dizem
respeito à vida matrimonial e familiar, mediante uma obra progressiva de
educação ou iniciação. Mas as mudanças verificadas no seio de quase todas
as sociedades modernas exigem que não só a família, mas também a sociedade
e a Igreja se empenhem no esforço de preparar adequadamente os jovens para
as responsabilidades do seu futuro. Muitos fenómenos negativos que hoje se
lamentam na vida familiar derivam do facto que, nas situações novas, os
jovens não só perdem de vista a justa hierarquia dos valores, mas, não
possuindo critérios seguros de comportamento, não sabem como enfrentar e
resolver as novas dificuldades. Contudo a experiência ensina que os jovens
bem preparados para vida familiar, em geral, têm mais êxito do que os
outros.
Isto vale mais ainda
para o matrimónio cristão, cuja influência repercute na santidade de
tantos homens e mulheres. Por isso a Igreja deve promover melhores e mais
intensos programas de preparação para o matrimónio, a fim de eliminar, o
mais possível, as dificuldades com que se debatem tantos casais, e
sobretudo para favorecer positivamente o aparecimento e o amadurecimento
de matrimónios com êxito.
A preparação para o
matrimónio deve ver-se e actuar-se como um processo gradual e contínuo.
Compreende, de facto, três momentos principais: uma preparação remota,
outra próxima e uma outra imediata.
A preparação remota
tem início desde a infancia, naquela sábia pedagogia familiar, orientada a
conduzir as crianças a descobrirem-se a si mesmas como seres dotados de
uma rica e complexa psicologia e de uma personalidade particular com as
forças e fragilidades próprias. É o período em que é infundida a estima
por todo o valor humano autêntico, quer nas relações interpessoais, quer
nas sociais, com tudo o que significa para a formação do carácter, para o
domínio e recto uso das inclinações próprias, para o modo de considerar e
encontrar as pessoas do outro sexo, etc. É pedida, além disso,
especialmente aos cristãos, uma sólida formação espiritual e catequética,
que saiba mostrar o matrimónio como verdadeira vocação e missão sem
excluir a possibilidade do dom total de si a Deus nà vocação à vida
sacerdotal ou religiosa.
É nesta base que, em
seguida e mais amplamente, se porá o problema da preparação próxima,
que - desde a idade oportuna e com adequada catequese, como em forma de
caminho catecumenal - compreende uma preparação mais específica, quase uma
nova descoberta dos sacramentos. Esta catequese renovada de todos os que
se preparam para o matrimónio cristão é absolutamente necessária, para que
o sacramento seja celebrado e vivido com rectas disposições morais e
espirituais. A formação religiosa dos jovens deverá ser integrada, no
momento conveniente e segundo as várias exigências concretas, numa
preparação para a vida a dois que, apresentando o matrimónio como uma
relação interpessoal do homem e da mulher em contínuo desenvolvimento,
estimule a aprofundar os problemas da sexualidade conjugal e da
paternidade responsável, com os conhecimentos médico-biológicos essenciais
que lhe estão anexos, e os leve à familiaridade com métodos adequados de
educação dos filhos, favorecendo a aquisição dos elementos de base para
uma condução ordenada da família (por exemplo, trabalho estável,
disponibilidade financeira suficiente, administração sábia, noções de
economia doméstica).
Por fim não se deverá
omitir a preparação para o apostolado familiar, para a fraternidade e
colaboração com as outras famílias, para a inserção activa nos grupos,
associações, movimentos e iniciativas que têm por finalidade o bem humano
e cristão da família.
A preparação
imediata para a celebração do sacramento do matrimónio deve ter lugar
nos últimos meses e semanas que precedem as núpcias quase a dar um novo
significado, um novo conteúdo e forma nova ao chamado exame pré
matrimonial exigido pelo direito canónico. Sempre necessária em todos os
casos, tal preparação impõe-se com maior urgência para aqueles noivos que
apresentam carências e dificuldades na doutrina e na prática cristã.
Entre os elementos a
comunicar neste caminho de fé, análogo ao do catecumenato, deve incluir-se
uma profunda consciência do mistério de Cristo e da Igreja, dos
significados de graça e de responsabilidade do matrimónio cristão, assim
como a preparação para tomar parte activa e consciente nos ritos da
liturgia nupcial.
Nas diversas fases de
preparação para o matrimónio - que delineámos somente em grandes traços
indicativos - devem sentir-se empenhadas a família cristã e toda a
comunidade eclesial. É desejável que as Conferências episcopais,
interessadas em iniciativas oportunas para ajudar os futuros esposos a
serem mais conscientes da seriedade da sua escolha e os pastores a
certificarem-se das suas convenientes disposições, publiquem um
Directório para a pastoral da família. Nele deverão estabelecer, antes
de tudo, os elementos mínimos de conteúdo, de duração e de métodos dos
«Cursos de preparação», equilibrando os diversos aspectos - doutrinais,
pedagógicos, legais e médicos - e estudando-os de modo que quantos se
preparam para o matrimónio, para além de um aprofundamento intelectual, se
sintam estimulados a inserirem-se vitalmente na comunidade eclesial.
Muito embora o carácter
de necessidade e de obrigatoriedade da preparação imediata não seja de
menosprezar - o que aconteceria se se concedesse facilmente a dispensa -
todavia, tal preparação deve ser sempre proposta e actuada de modo que a
sua eventual omissão não seja impedimento à celebração do matrimónio.
A celebração
67. O matrimónio
cristão exige, por norma, uma celebração litúrgica que exprima de forma
social e comunitária a natureza essencialmente eclesial sacramental do
pacto conjugal entre os baptizados.
Enquanto gesto
sacramental de santificação, a cèlebração do matrimónio - inserida na
liturgia, cume de toda a acção da Igreja e fonte da sua força
santificadora deve ser por si válida, digna e frutuosa. Abre-se aqui um
campo vasto à solicitude pastoral a fim de que sejam plenamente cumpridas
as exigências derivantes da natureza do pacto conjugal elevado a
sacramento, e seja de igual modo fielmente observada a disciplina da
Igreja sobre a liberdade do consentimento, os impedimentos, a forma
canónica e o próprio rito da celebração. Este último deve ser simples e
digno, de acordo com os princípios das competentes autoridades da Igreja,
às quais também incumbe - segundo as circumstancias concretas de tempo e
de lugar e em conformidade com as normas emanadas da Sé Apostólica -
assumir eventualmente na celebração litúrgica elementos próprios de uma
determinada cultura, que exprimam de forma mais adequada o profundo
significado humano e religioso do pacto conjugal, desde que nada contenham
de menos condizente com a fé e a moral cristãs.
Enquanto sinal,
a celebração litúrgica deve desenvolver-se de maneira a constituir, mesmo
no seu aspecto exterior, uma proclamação da Palavra de Deus e uma
profissão de fé da comunidade dos crentes. O empenhamento pastoral terá
aqui a sua expressão no diligente cuidado da preparação da «Liturgia da
Palavra» e na educação para a fé dos que assistem à celebração e, em
primeiro lugar, dos nubentes.
Enquanto gesto
sacramental da Igreja, a celebração litúrgica do matrimónio deve
envolver a comunidade cristã, com uma participação plena, activa e
responsável de todos os presentes, de acordo com a posição e a função de
cada um: os esposos, o sacerdote, as testemunhas, os parentes, os amigos,
os demais fiéis: todos os membros de uma assembleia que manifesta e vive o
mistério de Cristo e da sua Igreja.
Para a celebração do
matrimónio cristão no âmbito de culturas ou tradições ancestrais, sigam-se
os princípios já acima enunciados.
Celebração do
matrimónio e evangelização dos baptizados não crentes
68. Exactamente porque
na celebração do sacramento se presta uma atenção muito especial às
disposições morais e espirituais dos nubentes, em particular à sua fé,
enfrentamos aqui uma dificuldade não rara, que podem encontrar os pastores
da Igreja no contexto da nossa sociedade secularizada.
Com efeito, a fé de
quem pede casar-se pela Igreja pode existir em graus diversos e é dever
primário dos pastores fazê-la descobrir de novo, nutri-la e torná-la
madura. Devem, além disso, compreender as razões que levam a Igreja a
admitir à celebração do matrimónio mesmo aqueles que estão imperfeitamente
dispostos.
O matrimónio tem de
específico o ser sacramento de uma realidade que já existe na economia da
criação: o mesmo pacto conjugal instituído pelo Criador «desde o
princípio». A decisão do homem e da mulher de se casarem segundo este
projecto divino, a decisão de empenharem no seu irrevogável consenso
conjugal toda a vida num amor indissolúvel e numa fidelidade
incondicional, implica realmente, mesmo se não em modo plenamente
consciente, uma disposição de profunda obediência à vontade de Deus, que
não pode acontecer sem a graça. Portanto inserem-se já num verdadeiro e
próprio caminho de salvação, que a celebração do sacramento e a sua
imediata preparação podem completar e levar a termo, dada a rectidão da
intenção deles.
É verdade, contudo,
que, em alguns territórios, motivos de carácter mais social que
autenticamente religioso, induzem os noivos a casarem-se na igreja. Não
admira. O matrimónio, na verdade, não é um acontecimento que diz respeito
só a quem se casa. Por sua própria natureza é também um facto social, que
compromete os esposos ante a sociedade. Desde sempre a sua celebração se
faz com festa, que une as famílias e os amigos. É normal, portanto, que
entrem motivos sociais, juntamente com os pessoais, na petição do
casamento na igreja.
Todavia, não se deve
esquecer que estes noivos, pela força do seu baptismo, estão já realmente
inseridos na Aliança nupcial de Cristo com a Igreja e que, pela sua recta
intenção, acolheram o projecto de Deus sobre o matrimónio, e, portanto, ao
menos implicitamente, querem aquilo que a Igreja faz quando celebra o
matrimónio. Portanto, o mero facto de neste pedido entrarem motivos de
carácter social, não justifica uma eventual recusa da celebração do
matrimónio pelos pastores. De resto, como ensinou o Concílio Vaticano II,
os sacramentos com as palavras e os elementos rituais nutrem e robustecem
a fé:168 aquela fé para a qual os noivos já estão encaminhados
pela força da rectidão da sua intenção, que a graça de Cristo não deixa
certamente de favorecer e de sustentar.
Querer estabelecer
critérios ulteriores de admissão à celebração eclesial do matrimónio, que
deveriam considerar o grau de fé dos nubentes, compreende, além do mais,
riscos graves. Antes de tudo, o de pronunciar juízos infundados e
discriminatórios; depois, o risco de levantar dúvidas sobre a validade de
matrimónios já celebrados, com dano grave para as comunidades cristãs, e
de novas inquietações injustificadas para a consciência dos esposos;
cair-se-ia no perigo de contestar ou de pôr em dúvida a sacramentalidade
de muitos matrimónios de irmãos separados da comunhão plena com a Igreja
Católica, contradizendo assim a tradição eclesial.
Quando, pelo contrário,
não obstante todas as tentativas feitas, os nubentes mostram recusar de
modo explícito e formal o que a Igreja quer fazer ao celebrar o matrimónio
dos baptizados, o pastor não os pode admitir à celebração. Mesmo se
constrangido, ele tem o dever de avaliar a situação e fazer compreender
aos interessados que, estando assim as coisas, não é a Igreja, mas eles
mesmos a impedirem a celebração que não obstante pedem.
Mais urna vez se
manifesta com toda a urgência a necessidade de uma evangelização e
cataquese pré e pós matrimoniais, feitas por toda a comunidade cristã,
para que cada homem e cada mulher que se casam, o possam fazer de modo a
celebrarem o sacramento do matrimónio não só válida mas também
frutuosamente.
Pastoral
pós-matrimonial
69. O cuidado pastoral
da família regularmente constituída significa, em concreto, o empenho de
todos os membros da comunidade eclesial local em ajudar a casal a
descobrir e a viver a sua nova vocação e missão. Para que a família se
transforme mais numa verdadeira comunidade de amor, é necessário que todos
os membros sejam ajudados e formados para as responsabilidades próprias
diante dos novos problemas que se apresentam, para o serviço reciproco,
para a comparticipação activa na vida da famíia.
Isto vale sobretudo
para as famílias jovens, as quais, encontrando-se num contexto de novos
valores e de novas responsabilidades, estão mais expostas, especialmente
nos primeiros anos de matrimónio, a eventuais dificuldades, como as
criadas pela adaptação à vida em comum ou pelo nascimento dos filhos. Os
jovens cônjuges saibam acolher cordialmente e inteligentemente valorizar a
ajuda discreta, delicada e generosa de outros casais, que já de há tempo
fazem a mesma experiência do matrimónio e da família. Assim, no seio da
comunidade eclesial - grande família formada pelas famílias cristãs -
realizar-se-á um intercambio mútuo de presença e ajuda entre todas as
famílias, cada uma pondo ao serviço das outras a própria experiência
humana, como também os dons da fé e da graça. Animada de verdadeiro
espirito apostólico, esta ajuda de família a família constituirá um dos
modos mais simples, mais eficazes e ao alcance de todos para transfundir
capilarmente os valores cristãos, que são o ponto de partida e de chegada
do trabalho pastoral. Deste modo as famílias jovens não se limitarão só a
receber, mas por sua vez, assim ajudadas, tornar-se-ão fonte de
enriquecimento para outras familias, há tempo constituídas, com o seu
testemunho de vida e o seu contributo de facto.
Na acção pastoral para
com as famílias jovens, a Igreja deverá prestar uma atenção específica
para as educar a viver responsavelmente o amor conjugal em relação com as
exigências de comunhão e de serviço à vida, como também a conciliar a
intimidade da vida de casa com a obra comum e generosa de edificar a
Igreja e a sociedade humana. Quando, com a vinda dos filhos, o casal se
torna em sentido pleno e específico uma família, a Igreja estará ainda
próxima dos pais para que os acolham e os amem à luz do dom recebido do
Senhor da vida, assumindo com alegria a fadiga de os servir no seu
crescimento humano e cristão.
II - ESTRUTURAS DA
PASTORAL FAMILIAR
A
acção pastoral é sempre expressão dinamica da realidade da Igreja,
empenhada na missão de salvação. Também a pastoral familiar - forma
particular e específica da pastoral - tem como seu principio operativo e
como protagonista responsável a mesma Igreja, através das suas estruturas
e dos seus responsáveis.
A comunidade
eclesial e a paróquia em particular
70. Sendo ao mesmo
tempo comunidade salva e salvadora, a Igreja deve considerar-se aqui na
sua dupla dimensão universal e particular: esta exprime-se e actua-se na
comunidade diocesana, pastoralmente dividida em comunidades menores entre
as quais se distingue, pela sua importância peculiar, a paróquia.
A comunhão com a Igreja
universal não mortifica, mas garante e promove a consistência e
originalidade das diversas Igrejas particulares; estas últimas são o
sujeito operativo mais imediato e mais eficaz para a actuação da pastoral
familiar. Em tal sentido cada Igreja local e, em termos mais
particularizados, cada comunidade paroquial, deve ter consciência mais
viva da graça e da responsabilidade que recebe do Senhor em ordem a
promover a pastoral da família. Nenhum plano de pastoral organica, a
qualquer nível que seja, pode prescindir da pastoral da família.
À luz de tal
responsabilidade deve compreender-se também a importância de uma adequada
preparação da parte de quantos estarão mais especificamente empenhados
neste género de apostolado. Os sacerdotes, os religiosos e as religiosas,
desde o tempo de formação, sejam orientados e formados de maneira
progressiva e adequada para os respectivos deveres. Entre outras
iniciativas alegro-me de poder sublinhar a recente criação em Roma, na
Pontifícia Universidade Lateranense, de um Instituto Superior consagrado
ao estudo dos problemas da família. Já em algumas dioceses foram fundados
Institutos deste género: Os bispos empenhem-se para que o maior número
possivel de sacerdotes, antes de assumirem responsabilidades paroquiais,
frequente cursos especializados. Noutras partes realizam-se periodicamente
cursos de formação em Institutos Superiores de estudos Teológicos e
Pastorais. Tais iniciativas são de encorajar, sustentar, multiplicar e
abrir obviamente também aos leigos que desempenharão o seu trabalho
profissional (médico, legal, psicológico, social e educativo) de ajuda à
família.
A família
71. Mas
deve sobretudo reconhecer-se o lugar especial que, neste campo, compete à
missão dos cônjuges e das famílias cristãs, em virtude da graça recebida
no sacramento. Tal missão deve ser posta ao serviço da edificação da
Igreja, da construção do Reino de Deus na história. Isto é pedido como
acto de obediência dócil a Cristo Senhor Com efeito, Ele, pela força do
matrimónio dos baptizados elevado a sacramento, confere aos esposos
cristãos uma missão peculiar de apóstolos, enviando-os como operários para
a sua vinha, e, de forma muito particular, para este campo da família.
Na sua actividade eles
agem em comunhão e colaboração com os outros membros da Igreja, que também
trabalham para a família, pondo a render os seus dons e ministérios. Tal
apostolado de senvolver-se-á antes de tudo no seio da própria família, com
o testemunho da vida vivida em conformidade com a lei divina em todos os
aspectos, com a formação cristã dos filhos, com a ajuda dada ao seu
amadurecimento na fé, com a educação à castidade, com a preparação para a
vida, com a vigilancia para os preservar dos perigos ideológicos e morais
de que são muitas vezes ameaçados, com a sua gradual e responsável
inserção na comunidade eclesial e na civil, com a assistência e o conselho
na escolha da vocação, com a mútua ajuda entre os membros da família para
um comum crescimento humano e cristão, e assim por diante. O apostolado da
família irradiar-se-á com obras de caridade espiritual e material para com
as outras famílias, especialmente aquelas mais necessitadas de ajuda e de
amparo, para com os pobres, os doentes, os mais velhos, os deficientes, os
órfãos, as viúvas, os cônjuges abandonados, as mães solteiras e aquelas
que em situações difíceis são tentadas a desfazerem-se do fruto do seu
seio, etc.
As associações de
famílias ao serviço das famílias
72. Sempre no âmbito da
Igreja, responsável pela pastoral familiar, são para lembrar as diversas
associações de fiéis, nas quais se manifesta e se vive de algum modo o
mistério da Igreja de Cristo. Devem, portanto reconhecer-se e valorizar-se
- cada uma em relação às características, finalidades, influxo e métodos
próprios - as diversas comunidades eclesiais, os vários grupos, e os
numerosos movimentos empenhados de modo vário, a diversos títulos e a
diversos níveis, na pastoral familiar.
Por este motivo o
Sínodo reconheceu expressamente a utilidade de tais associações de
espiritualidade, de formação e de apostolado. Será seu dever suscitar nos
fiéis um vivo sentido de solidariedade, favorecer uma conduta de vida
inspirada no Evangelho e na fé da Igreja, formar as conciências segundo os
valores cristãos e não de acordo com os parametros da opinião pública,
estimular para as obras de caridade mútua e para com os outros com um
espírito de abertura, que faça das famílias cristãs uma verdadeira fonte
de luz e um fermento sadio para as demais.
Igualmente é desejável
que, com um sentido vivo do bem comum, as famílias cristãs se empenhem
activamente a todos os níveis, mesmo com outras associações não eclesiais.
Algumas destas associações visam a preservação, transmissão e tutela dos
sãos valores éticos e culturais de cada povo, o desenvolvimento da pessoa
humana, a protecção médica, jurídica e social da maternidade e da
infancia, a justa promoção da mulher e a luta contra o que calca a sua
dignidade, o incremento da solidariedade mútua, o conhecimento dos
problemas conexos com a regulação responsável da fecundidade segundo os
métodos naturais conformes à dignidade humana e à doutrina da Igreja.
Outras têm em vista a construção de um mundo mais justo e mais humano, a
promoção de leis justas que favoreçam a recta ordem social no respeito
pleno da dignidade e da legítima liberdade do indivíduo e da família, a
nível nacional ou internacional, a colaboração com a escola e com as
outras instituições que completam a educação dos filhos, e assim
sucessivamente.
III - OS
RESPONSÁVEIS DA PASTORAL FAMILIAR
Para além da família -
objecto, mas sobretudo ela mesma sujeito da pastoral familiar - devem
recordar-se também, os outros principais responsáveis neste sector
particular.
Bispos e presbíteros
73. O
primeiro responsável da pastoral familiar na diocese é o bispo. Como Pai e
Pastor, ele deve estar atento de um modo particular a este sector da
pastoral, sem dúvida prioritário. Deve consagrar-lhe uma grande dedicação,
solicitude, tempo, pessoal, recursos; sobretudo, porém, apoio pessoal às
famílias e a quantos, nas diversas estruturas diocesanas, o ajudam na
pastoral da família. Empenhar-se-á particularmente no propósito de fazer
com que a sua diocese se torne sempre mais uma verdadeira «família
diocesana» modelo e fonte de esperança para tantas famílias que a
integram. A criação do Conselho Pontifício para a Família está neste
contexto: sinal da importância que atribuo à pastoral da família no mundo,
e ao mesmo tempo in strumento eficaz de aj uda à su a promoção em todos os
níveis.
Os bispos são
auxiliados de modo particular pelos presbíteros, cuja missão - como
expressamente sublinhou o Sínodo - integra essencialmente o ministério da
Igreja para com o matrimónio e a família. O mesmo se diga dos diáconos,
aos quais eventualmente venha a ser confiado este sector da pastoral.
A sua responsabilidade
estende-se não só aos problemas morais e litúrgicos, mas também aos
pessoais e sociais. Devem sustentar a família nas suas dificuldades e
sofrimentos, pondo-se ao lado dos seus membros, ajudando-os a ver a vida à
luz do Evangelho. Não é supérfluo notar que, se tal missão for exercida
com o devido discernimento e com um verdadeiro espírito apostólico, o
ministro da Igreja recebe novos estímulos e energias espirituais mesmo
para a própria vocação e para o exercício do seu ministério.
Oportuna e seriamente
preparados para tal apostolado, o sacerdote ou o diácono devem portar-se
constantemente, em relação às famílias, como pai, irmão, pastor e mestre,
ajudando-as com os dons da graça e iluminando-as com a luz da verdade. O
seu ensinamento e os seus conselhos, portanto, deverão estar sempre em
plena consonancia com o Magistério autêntico da Igreja, de modo a ajudar o
Povo de Deus a formar-se um recto sentido da fé a aplicar à vida concreta.
Tal fidelidade ao Magistério permitirá também aos sacerdotes procurar
empenhadamente a unidade nos seus juízos, para evitarem ansiedades na
consciência dos fiéis.
Pastores e leigos
participam, na Igreja, da missão profética de Cristo: os leigos,
testemunhando a fé com palavras e com a vida cristã; os pastores,
discernindo em tal testemunho o que é expressão da fé genuína e o que não
corresponde originalmente à luz da mesma fé; a família, enquanto
comunidade cristã, com a sua participação peculiar e testemunho de fé.
Pode estabelecer-se assim um diálogo entre os pastores e as famílias. Os
teólogos e os peritos em problemas familiares podem ajudar muito a tal
diálogo, explicando com exactidão o conteúdo do Magistério da Igreja e o
da experiência da vida em família. Desta maneira a ensinamento do
Magistério será melhor compreendido e será aplanada a estrada para o seu
progressivo desenvolvimento. Convém contudo recordar que a norma próxima e
obrigatória na doutrina da fé - mesmo sobre os problemas da família -
compete ao Magistério hierárquico. A clareza de relações entre teólogos,
peritos de problemas familiares e o Magistério ajudam muito a uma recta
inteligência da fé e à promoção - dentro dos seus próprios limites - do
legítimo pluralismo.
Religiosos e
religiosas
74. O contributo que os
religiosos e as re]igiosas, e as almas consagradas em geral, podem dar ao
apostolado da família encontra a primeira, fundamental e original
expressão exactamente na consagraçao a Deus que os torna «diante de todos
os fiéis... chamada daquele admirável conúbio realizado por Deus e que se
manifestará plenamente no século futuro, pelo que a Igreja tem Cristo como
único esposo», e testemunhas daquela caridade universal que por meio da
castidade abraçada pelo Reino dos céus, os torna sempre mais disponíveis
para se dedicarem generosamente ao serviço divino e às obras do
apostolado.
Daqui a possibilidade
de que os religiosos e as religiosas, membros de Institutos seculares e de
outros Institutos de perfeição, singularmente ou associados, desenvolvam
um serviço seu às famílias, com solicitude particular para com as
crianças, especialmente se abandonadas, indesejadas, órfãs, pobres ou
deficientes; visitando as famílias e tendo em atenção especial os doentes;
cultivando relações de respeito e de caridade com as famílias incompletas,
em dificuldade ou desagregadas; oferecendo o próprio trabalho de ensino e
de consulta para a preparação dos jovens ao matrimónio e para a ajuda aos
casais em relação a uma procriação verdadeiramente responsável; abrindo as
próprias casas à hospitalidade simples e cordial, a fim de que as famílias
possam encontrar lá o sentido de Deus, o gosto da oração e do
recolhimento, o exemplo concreto de uma vida vivida em caridade e alegria
fraterna como membros de uma família maior que é a de Deus.
Desejo acrescentar uma
exortação mais solícita aos responsáveis dos Institutos de vida
consagrada, para que queiram considerar - sempre no respeito substancial
pelo seu carisma original e próprio - o apostolado ao serviço das famílias
como um dos deveres prioritários, tornado mais urgente pelo estado
hodierno das coisas.
Leigos especializados
75. Podem prestar grande ajuda às famílias os leigos especializados
(médicos, juristas, psicólogos, assistentes sociais, consulentes, etc....)
quer individualmente quer empenhados em diversas associações e
iniciativas, com trabalho de esclarecimento, de conselho, de orientação,
de apoio. A eles bem podem aplicar-se as exortações que tive ocasião de
dirigir à Conferência dos consulentes familiares de inspiração cristã: «A
vossa tarefa bem merece o qualificativo de missão, tão nobres são as
finalidades que visa e tão determinantes, para o bem da sociedade e da
mesma comunidade cristã, os resultados que dela derivam... Tudo o que
conseguirdes fazer em favor da família é destinado a ter uma eficácia que,
ultrapassando o âmbito próprio, chegará também a outras pessoas e influirá
sobre a sociedade. O futuro do mundo e da Igreja passa através da
família».
Usuários e
operadores da comunicacão social
76. Deve reservar-se
uma palavra para esta categoria tão importante na vida moderna. É mais que
sabido que os instrumentos de comunicação social «influem, e muitas vezes
profundamente, quer sob o aspecto afectivo e intelectual, quer sob o
aspecto moral e religioso, no animo de quantos os usam», especialmente se
jovens. Podem ter um influxo benéfico sobre a vida e sobre os costumes da
família e sobre a educação dos filhos, mas escondem também «insídias e
perigos consideráveis», e poder-se-ão tornar veículo - às vezes hábil e
sistematicamente manobrado como infelizmente acontece em vários países do
mundo - de ideologias desagregadoras e de visões deformadas da vida, da
família, da religião, da moralidade, não respeitosas da verdadeira
dignidade e do destino do homem.
Perigo tanto mais real,
enquanto «o modo hodierno de viver - principalmente nas nações mais
industrializadas - leva bastantes vezes as famílias a descarregarem-se das
suas responsabilidades educativas, encontrando na facilidade de evasão
(representada, em casa, especialmente pela televisão e por certas
publicações) o meio de terem ocupado o tempo e as actividades das crianças
e dos jovens». Daqui «o dever ... de proteger especialmente as crianças e
os jovens das "agressões" que sofrem por parte dos mass-media», procurando
usá-los em família de modo cuidadosamente regrado. Assim também deveria
preocupar a família encontrar para os seus filhos outros divertimentos
mais sadios, mais úteis e formativos física, moral e espiritualmente,
«para potenciar e valorizar o tempo livre dos jovens e encaminhar-lhes as
energias».
Já que os instrumentos
de comunicação social - ao mesmo tempo que a escola e o ambiente - influem
muitas vezes notavelmente na formação dos filhos, os pais, enquanto
usuários, devem constituir-se parte activa no seu uso moderado, crítico,
vigilante e prudente, individuando qual a repercussão tida nos filhos, e
exercendo mediação orientadora «de educar a consciência dos filhos a
exprimir juízos serenos e objectivos, que depois a guiem na escolha e na
rejeição dos programas propostos».
Com idêntico interesse,
os pais procurarão influir na escolha e na preparação dos programas,
mantendo-se - com iniciativas oportunas - em contacto com os responsáveis
dos vários momentos da produção e da transmissão para se assegurarem que
não serão abusivamente postos de lado ou expressamente conculcados aqueles
valores humanos fundamentais que fazem parte do verdadeiro bem comum da
sociedade, mas, pelo contrário, sejam difundidos programas aptos a
apresentar, na sua verdadeira óptica, os problemas da família e a sua
adequada solução. A tal propósito o meu predecessor de veneranda memória,
Paulo VI, escrevia: «Os produtores devem conhecer e respeitar as
exigências da família, o que supõe, por vezes, uma grande coragem e sempre
um alto sentido de responsabilidade. Com efeito, devem evitar tudo o que
possa lesar a família na sua existência, na sua estabilidade, no seu
equilíbrio, na sua felicidade. A ofensa aos valores fundamentais da
família - trate-se de erotismo ou de violência, de apologia do divórcio ou
de atitudes anti-sociais dos jovens - é uma ofensa ao bem verdadeiro do
homem».
E eu mesmo, em ocasião
análoga fazia notar que as famílias «devem poder contar não pouco com a
boa vontade, rectidão e sentido de responsabilidade dos profissionais dos
media: editores, escritores, produtores, directores, dramaturgos,
informadores, comentadores e actores». Por isso, é imperioso que também a
Igreja continue a dedicar toda a atenção a estas categorias de res
ponsáveis, encorajando e sustentando, ao mesmo tempo, aqueles católicos
que se sentem chamados e que tem dotes, a um empenhamento neste sector tão
delicado.
IV - A PASTORAL
FAMILIAR NOS CASOS DIFÍCEIS
Circunstâncias
particulares
77. Um empenho pastoral
ainda mais generoso, inteligente e prudente, na linha do exemplo do Bom
Pastor, é pedido para aquelas famílias que - muitas vezes
independentemente da própria vontade ou pressionadas por outras exigências
de natureza diversa - se encontram em situações objectivamente difíceis.
A este propósito é
necessário voltar especialmente a atenção para algumas categorias
particulares, mais necessitadas não só de assistência, mas de uma acção
mais incisiva sobre a opinião pública e sobretudo sobre as estruturas
culturais, económicas e jurídicas, a fim de se poderem eliminar ao máximo
as causas profundas do seu mal-estar.
Tais são, por exemplo,
as famílias dos emigrantes por motivos de trabalho; as famílias de quantos
são obrigados a ausências longas, como, por exemplo, os militares, os
marinheiros, os itinerantes de todo o tipo; as famílias dos presos, dos
prófugos e dos exilados; as famílias que vivem praticamente marginalizadas
nas grandes cidades; aquelas que não têm casa, as incompletas ou
«monoparentais»; as famílias com filhos deficientes ou drogados; as
famílias dos alcoólatras; as desenraizadas do seu ambiente social e
cultural ou em risco de perdê-lo; as discriminadas por motivos políticos
ou por outras razões; as famílias ideologicamente divididas; as que
dificilmente conseguem ter um contacto com a paróquia; as que sofrem
violência ou tratamentos injustos por causa da própria fé; as que se
compõem de cônjuges menores; os anciãos, não raramente forçados a viver na
solidão e sem meios adequados de subsistência.
As famílias dos
emigrantes, tratando-se especialmente de operários e de agricultores
devem encontrar em toda a parte, na Igreja, a sua pátria. É este um dever
conatural à Igreja, sendo como é sinal de unidade na diversidade. Na
medida do possível sejam assistidos pelos sacerdotes do seu próprio rito,
cultura e idioma. Diz respeito também à Igreja apelar à consciência
pública e a quantos exercem a autoridade sobre a vida social, económica e
política, para que os operários encontrem trabalho na sua região e pátria.
sejam retribuídos com um salário justo, as famílias se voltem a unir o
mais depressa possível, sejam consideradas na sua identidade cultural,
tratadas como as outras e aos seus filhos sejam dadas oportunidades de
formação profissional e de exercício da profissão, como também da posse da
terra necessária para trabalhar e viver.
Um problema difícil é o
das famílias ideologicamente divididas. Nestes casos há necessidade
de um particular cuidado pastoral. Antes de tudo é preciso, com discrição,
manter um contacto pessoal com tais famílias. Os crentes devem ser
fortificados na fé e sustentados na vida cristã. Embora a parte fiel ao
catolicismo não possa ceder, é preciso manter sempre vivo o diálogo com a
outra parte. Devem ser multiplicadas as manifestações de amor e de
respeito, na esperança firme de manter intocável a unidade. Depende muito
também das relações entre pais e filhos. As ideologias estranhas à fé
poderão estimular os membros crentes da família a crescer na fé e no
testemunho de amor.
Outros momentos difíceis em que a família tem necessidade de ajuda da
comunidade eclesial e dos seus pastores, podem ser: a irrequieta
adolescência contestadora e às vezes tumultuosa dos filhos; o seu
matrimónio, que os separa da família de origem; a incompreensão ou a falta
de amor da parte das pessoas mais queridas; o abandono do cônjuge ou a sua
perda, que faz começar a experiência dolorosa da viuvez, a morte de um
familiar, que mutila e transforma em profundidade o núcleo originário da
família.
Igualmente não pode ser
transcurado pela Igreja o momento da velhice, com todos os seus conteúdos
positivos e negativos: de possível aprofundamento do amor conjugal sempre
mais purificado e enobrecido pela longa e sempre contínua fidelidade; de
disponibilidade a pôr ao serviço dos outros, em forma nova, a bondade e a
sabedoria acumuladas e as energias que permanecem; de dura solidão, mais
frequentemente psicológica e afectiva que física, por um abandono eventual
ou por uma atenção insuficiente dos filhos e dos parentes; de sofrimento
pela doença, pelo progressivo declínio das forças, pela humilhação de ter
que depender de outros, pela amargura de se sentir talvez um peso para os
seus próprios entes queridos, pelo aproximar-se o fim da vida. São estas
as ocasiões em que - como insinuaram os Padres Sinodais - mais facilmente
se compreendem e vivem aqueles elevados aspectos da espiritualidade
matrimonial e familiar, que se inspiram no valor da Cruz e ressurreição de
Cristo, fonte de santificação e de profunda alegria na vida quotidiana, à
luz das grandes realidades escatológicas da vida eterna.
Em todas estas variadas
situações nunca se descuide a oração, fonte de luz, de força e alimento da
esperança cristã.
Matrimónios mistos
78. O número crescente
dos matrimónios entre católicos e outros baptizados exige uma peculiar
atenção pastoral à luz das orientações e das normas, contidas nos mais
recentes documentos da Santa Sé e das Conferências episcopais, para uma
aplicação concreta às diversas situações.
Os casais que vivem em
matrimónio misto apresentam exigências peculiares, que se podem reduzir a
três aspectos fundamentais.
Antes de tudo,
considerem-se as obrigações da parte católica derivantes da fé, no que
concernem ao seu livre exercício e a consequente obrigação de
providenciar, segundo as próprias forças, ao baptismo e à educação dos
filhos na fé católica.
É necessário ter
presente as particulares dificuldades inerentes às relações entre marido e
mulher no que diz respeito à liberdade religiosa: esta pode ser violada
seja por pressões indevidas para obter a mudança de convicções religiosas
do ou da consorte, seja por impedimentos postos à sua livre manifestação
na prática religiosa.
No que diz respeito à
forma litúrgica e canónica do matrimónio, os Ordinários podem usar
amplamente das suas faculdades para as várias necessidades.
No tratamento destas
exigências especiais é preciso ter em conta os pontos seguintes:
 |
na preparação própria
para este tipo de matrimónio, deve ser feito um esforço razoável para
proporcionar um bom conhecimento da doutrina católica sobre as
qualidades e exigências do matrimónio, como também para se certificar de
que no futuro não se verifiquem as pressões e os obstáculos, de que até
agora se tem tratado;
|
 |
é de suma importância
que, com o apoio da comunidade, a parte católica seja fortificada na fé
e ajudada positivamente a amadurecer na sua compreensão e na sua
prática, de modo a tornar-se testemunha autêntica no seio da família,
mediante a vida e a qualidade de amor demonstrado ao cônjuge e aos
filhos.
|
Os matrimónios entre
católicos e outros baptizados, na sua fisionomia particular, apresentam
numerosos elementos que convêm valorizar e desenvolver, quer pelo seu
valor intrínseco, quer pela ajuda que podem dar ao movimento ecuménico.
Isto é verdade de um modo particular quando os dois cônjuges são fiéis aos
seus deveres religiosos. O baptismo comum e o dinamismo da graça fornecem
aos esposos, nestes matrimónios, a base e a motivação para exprimir a sua
unidade na esfera dos valores morais e espirituais.
Para tal fim, e mesmo
para pôr em evidência a importância ecuménica de um tal matrimónio misto,
vivido plenamente na fé pelos dois cônjuges cristãos, procure-se - mesmo
que nem sempre seja fácil - uma colaboração cordial entre o ministro
católico e o não católico, desde o momento da preparação para o matrimónio
e para as núpcias.
Quanto à participação
do cônjuge não católico na comunhão eucarística, sigam-se as normas
emanadas do Secretariado para a união dos cristãos.
Em várias partes do
mundo nota-se, hoje, um crescente número de matrimónios entre católicos e
não baptizados. Em muitos casos o cônjuge não baptizado professa uma outra
religião e as suas convicções devem ser tratadas com respeito, segundo os
princípios da Declaração Nostra Aetate do Concílio Ecuménico
Vaticano II sobre as relações com as religiões não cristãs; mas em muitos
outros, particularmente nas sociedades secularizadas, a pessoa não
baptizada não professa religião alguma. Para estes matrimónios é
necessário que as Conferências episcopais e cada bispo tomem medidas
pastorais adequadas, a fim de garantir a defesa da fé do cônjuge católico
e o seu livre exercício, principalmente no que se refere ao dever de fazer
quanto estiver ao seu alcance para que os filhos sejam baptizados e
educados catolicamente. O cônjuge católico deve ser, além disso, apoiado
em todos os modos no empenhamento de oferecer à própria família um genuino
testemunho de fé e de vida católica.
Acção pastoral perante algumas situações irregulares
79. Na sua solicitude
pela tutela da família em todas as suas dimensões, não somente na dimensão
religiosa, o Sinodo dos Bispos não deixou de prestar atenta consideração a
algumas situações irregulares, religiosa e muitas vezes também civilmente,
que - nas rápidas mudanças culturais hodiernas - se vão infelizmente
difundindo mesmo entre os católicos, com não pequeno dano do instituto
familiar e da sociedade, de que constitui a célula fundamental.
a) O
matrimónio à experiência
80. Uma primeira
situação irregular é dada pelo que se chama «matrimónio à experiência»,
que hoje muitos querem justificar, atribuindo-lhe um certo valor. A razão
humana insinua já a sua não aceitação, mostrando quanto seja pouco
convincente que se faça uma «experiência» em relação a pessoas humanas,
cuja dignidade exige que sejam elas só e sempre, o termo do amor de doação
sem limite algum nem de tempo nem de qualquer outra circunstância.
Por sua parte, a Igreja
não pode admitir um tal tipo de união por ulteriores motivos, originais,
derivantes da fé. Por um lado, com efeito, o dom do corpo na relação
sexual é símbolo real da doação de toda a pessoa: uma doação tal que, além
do mais, na actual economia da salvação não pode actuar-se com verdade
plena sem o concurso do amor de caridade, dado por Cristo. Por outro lado,
o matrimónio entre duas pessoas baptizadas é o símbolo real da união de
Cristo com a Igreja, uma união não temporária ou «à experiência», mas
eternamente fiel; entre dois baptizados, portanto, não pode existir senão
um matrimónio indissolúvel.
Ordinariamente tal
situação não poder ser superada se a pessoa humana, desde a infancia, com
a ajuda da graça de Cristo e sem temores, não for educada para o domínio
da concupiscência nascente e para estabelecer com os outros relações de
amor genuíno. Isso não se consegue sem uma verdadeira educação para o amor
autêntico e para o recto uso da sexualidade, de modo a introduzir a pessoa
humana em todas as suas dimensões, mesmo no referente ao próprio corpo, na
plenitude do mistério de Cristo.
Seria muito útil
indagar sobre as causas deste fenómeno, também no seu aspecto psicológico
e sociológico, para chegar a uma terapia adequada.
b) Uniões livres de facto
81. Trata-se de uniões
sem nenhum vínculo institucional, civil ou religioso, publicamente
reconhecido. Este fenómeno - cada vez mais frequente - não deixará de
chamar a atenção dos pastores, exactamente porque existindo na sua base
elementos muito diversos, será possível actuar sobre eles e limitar-lhes
as consequências.
Alguns, com efeito,
consideram-se quase constrangidos a tais uniões por situações difíceis de
carácter económico, cultural e religioso, já que contraindo um matrimónio
regular, seriam expostos a um dano, à perda de vantagens económicas, à
discriminação, etc. Outras, pelo contrário, fazem-no numa atitude de
desprezo, de contestação ou de rejeição da sociedade, do instituto
familiar, do ordenamento socio-político, ou numa busca única de prazer.
Outros, enfim, são obrigados pela extrema ignorancia e pobreza, às vezes
por condicionamentos verificados por situações de verdadeira injustiça, ou
também de uma certa imaturidade psicológica, que os torna incertos e
duvidosos na contracção de um vínculo estável e definitivo. Em alguns
países os costumes tradicionais prevêem o matrimónio verdadeiro e próprio
só depois de um período de coabitação e depois do nascimento do primeiro
filho.
Cada um destes
elementos põe à Igreja árduos problemas pastorais, pelas graves
consequências quer religiosas e morais (perda do sentido religioso do
matrimónio à luz da Aliança de Deus com o seu Povo; privação da graça do
sacramento; escandalo grave), quer também sociais (destruição do conceito
de família; enfraquecimento do sentido de fidelidade mesmo para com a
sociedade; possíveis traumas psicológicos nos filhos; afirmação do
egoísmo).
Os pastores e a
comunidade eclesial serão diligentes em conhecer tais situações e as suas
causas concretas, caso por caso; em aproximar-se dos conviventes com
discrição e respeito; em esforçar-se com uma acção de esclarecimento
paciente, de caridosa correcção, de testemunho familiar cristão, que lhes
possa aplanar o caminho para regularizar a situação. Faça-se, sobretudo,
obra de prevenção, cultivando o sentido da fidelidade na educação moral e
religiosa dos jovens, instruindo-os acerca das condições e das estruturas
que favorecem tal fidelidade, sem a qual não há verdadeira liberdade,
ajudando-os a amadurecer espiritualmente e fazendo-lhes compreender a
riqueza da realidade humana e sobrenatural do matrimónio-sacramento.
O Povo de Deus actue
também junto das autoridades públicas, para que, resistindo a estas
tendências desagregadoras da própria sociedade e prejudiciais à dignidade,
segurança e bem-estar dos cidadãos, a opinião pública não seja induzida a
menosprezar a importância institucional do matrimónio e da família. E já
que em muitas regiões, pela pobreza extrema derivante de estruturas
sócio-económicas injustas ou inadequadas, os jovens não estão em condições
de se casarem como convém, a sociedade e as autoridades públicas favoreçam
o matrimónio legítimo mediante uma série de intervenções sociais e
políticas, garantindo o salário familiar, emanando disposições para uma
habitação adaptada à vida familiar, criando possibilidades adequadas de
trabalho e de vida.
c)
Católicos unidos só em matrimónio civil
82. Difunde-se sempre
mais o caso de católicos que, por motivos ideológicos e práticos, preferem
contrair só matrimónio civil, rejeitando ou pelo menos adiando o
religioso. A sua situação não se pode equiparar certamente à dos simples
conviventes sem nenhum vinculo, pois que ali se encontra ao menos um
empenhamento relativo a um preciso e provavelmente estável estado de vida,
mesmo se muitas vezes não está afastada deste passo a perspectiva de um
eventual divórcio. Procurando o reconhecimento público do vínculo da parte
do Estado, tais casais mostram que estão dispostos a assumir, com as
vantagens também as obrigações. Não obstante, tal situacão não é aceitável
por parte da Igreja.
A acção pastoral
procurará fazer compreender a necessidade da coerência entre a escolha de
um estado de vida e a fé que se professa, e tentará todo o possível para
levar tais pessoas a regularizar a sua situação à luz dos princípios
cristãos. Tratando-as embora com muita caridade, e interessando-as na vida
das respectivas comunidades, os pastores da Igreja não poderão
infelizmente admiti-las aos sacramentos.
d)
Separados e divorciados sem segunda união
83. Motivos diversos,
quais incompreensões recíprocas, incapacidade de abertura a relações
interpessoais, etc. podem conduzir dolorosamente o matrimónio válido a uma
fractura muitas vezes irreparável. Obviamente que a separação deve ser
considerada remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as
tentativas razoáveis.
A solidão e outras
dificuldades são muitas vezes herança para o cônjuge separado,
especialmente se inocente. Em tal caso, a comunidade eclesial deve
ajudá-lo mais que nunca; demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão
e ajuda concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade
mesmo na situação difícil em que se encontra; ajudá-lo a cultivar a
exigência do perdão própria do amor cristão e a disponibilidade para
retomar eventualmente a vida conjugal anterior.
Análogo é o caso do
cônjuge que foi vítima de divórcio, mas que - conhecendo bem a
indissolubilidade do vínculo matrimonial válido - não se deixa arrastar
para uma nova união, empenhando-se, ao contrário, unicamente no
cumprimento dos deveres familiares e na responsabilidade da vida cristã.
Em tal caso, o seu exemplo de fidelidade e de coerência cristã assume um
valor particular de testemunho diante do mundo e da Igreja, tornando mais
necessária ainda, da parte desta, uma acção contínua de amor e de ajuda,
sem algum obstáculo à admissão aos sacramentos.
e)
Divorciados que contraem nova união
84. A experiência
quotidiana mostra, infelizmente, que quem recorreu ao divórcio tem
normalmente em vista a passagem a uma nova união, obviamente não com o
rito religioso católico. Pois que se trata de uma praga que vai,
juntamente com as outras, afectando sempre mais largamente mesmo os
ambientes católicos, o problema deve ser enfrentado com urgência
inadiável. Os Padres Sinodais estudaram-no expressamente. A Igreja, com
efeito, instituída para conduzir à salvação todos os homens e sobretudo os
baptizados, não pode abandonar aqueles que - unidos já pelo vínculo
matrimonial sacramental - procuraram passar a novas núpcias. Por isso,
esforçar-se-á infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação.
Saibam os pastores que,
por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na
realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por
salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles
que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há
ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos
filhos, e, às vezes, estão subjectivamente certos em consciência de que o
prece dente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido.
Juntamente com o Sínodo
exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os
divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem
separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto baptizados,
participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a
frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as
obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a
educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de
penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por
eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na
fé e na esperança.
A Igreja, contudo,
reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à
comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem
ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida
contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja,
significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar
motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis
seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a
indissolubilidade do matrimónio.
A
reconciliação pelo sacramento da penitência - que abriria o caminho ao
sacramento eucarístico - pode ser concedida só àqueles que, arrependidos
de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão
sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a
indissolubilidade do matrimónio. Isto tem como consequência,
concretamente, que quando o homem e a mulher, por motivos sérios - quais,
por exemplo, a educação dos filhos - não se podem separar, «assumem a
obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos actos
próprios dos cônjuges».
Igualmente o respeito
devido quer ao sacramento do matrimónio quer aos próprios cônjuges e aos
seus familiares, quer ainda à comunidade dos fiéis proíbe os pastores, por
qualquer motivo ou pretexto mesmo pastoral, de fazer em favor dos
divorciados que contraem uma nova união, cerimónias de qualquer género.
Estas dariam a impressão de celebração de novas núpcias sacramentais
válidas, e consequentemente induziriam em erro sobre a indissolubilidade
do matrimónio contraído validamente.
Agindo de tal maneira,
a Igreja professa a própria fidelidade a Cristo e à sua verdade; ao mesmo
tempo comporta-se com espírito materno para com estes seus filhos,
especialmente para com aqueles que sem culpa, foram abandonados pelo
legítimo cônjuge.
Com firme confiança ela
vê que, mesmo aqueles que se afastaram do mandamento do Senhor e vivem
agora nesse estado, poderão obter de Deus a graça da conversão e da
salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade.
Os
sem-família
85. Desejo ainda
acrescentar uma palavra para uma categoria de pessoas que, pela situação
concreta em que se encontram - e muitas vezes não por sua vontade
deliberada - eu considero particularmente junto do Coração de Cristo e
dignas do afecto e da solicitude da Igreja e dos pastores.
Infelizmente há no
mundo muitíssimas pessoas que não podem referir-se de modo algum ao que
poderia definir-se em sentido próprio uma família. Grandes sectores da
humanidade vivem em condições de enorme pobreza, em que a promiscuidade, a
carência de habitações, a irregularidade e instabilidade das relações, a
falta extrema de cultura não permitem praticamente poder falar de
verdadeira família. Há outras pessoas que, por motivos diversos, ficaram
sós no mundo. Também para todos estes há um «bom anúncio da família».
Em favor de quantos
vivem na pobreza extrema, já falei da necessidade urgente de trabalhar com
coragem para se encontrarem soluções mesmo a nível político, que consintam
ajudar a superar estas condições desumanas de prostração. É um dever que
incumbe, solidariamente, à sociedade inteira, mas de uma maneira especial
às autoridades pela força do seu cargo e das responsabilidades
consequentes, assim como às famílias, que devem demonstrar grande
compreensão e vontade de ajudar.
Àqueles que não têm uma
família natural, é preciso abrir ainda mais as portas da grande família
que é a Igreja, concretizada na família diocesana e paroquial, nas
comunidades eclesiais de base ou nos movimentos apostólicos. Ninguém está
privado da família neste mundo: a Igreja é casa e família para todos,
especialmente para quantos estão «cansados e oprimidos».
CONCLUSÃO
A vós esposos, a vós
pais e mães de família;
a vós, jovens e
donzelas, que sois o futuro e a esperança da Igreja e do mundo e
construireis o núcleo que garantirá e dinamizará a família no terceiro
milénio que se aproxima;
a vós, veneráveis e
caros Irmãos no episcopado e no sacerdócio, queridos filhos religiosos e
religiosas, almas consacradas ao Senhor, que testemunhais aos esposos a
realidade última do amor de Deus;
a vós, homens todos de
coração recto, que por razões diversas vos preocupais da situação da
família, dirige-se com trepidante solicitude, a minha atenção ao final
desta Exortação Apostólica.
O
futuro da humanidade passa pela família!
É pois indispensável e
urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e promover os
valores e as exigências da família.
Sinto-me no dever de
pedir aos filhos da Igreja um esforço especial neste campo. Conhecendo
plenamente, pela fé, o maravilhoso plano de Deus, eles têm uma razão mais
para se dedicar à realidade da família neste nosso tempo de prova e de
graça.
Devem amar
particularmente a família. É o que concreta e exigentemente vos
confio.
Amar a família
significa saber estimar os seus valores e possibilidades, promovendo-os
sempre. Amar a família significa descobrir os perigos e os males que a
ameaçam, para poder superá-los. Amar a família significa empenhar-se em
criar um ambien te favorável ao seu desenvolvimento. E, por fim, forma
eminente de amor à família cristã de hoje, muitas vezes tentada por
incomodidades e angustiada por crescentes dificuldades, é dar-lhe
novamente razões de confiança em si mesma, nas riquezas próprias que lhe
advém da natureza e da graça e na missão que Deus lhe confiou. «É
necessário que as famílias do nosso tempo tomem novamente altura! É
necessário que sigam a Cristo».
Compete ainda aos
cristãos a tarefa de anunciar com alegria e convicção a «boa nova»
acerca da família, que tem necessidade absoluta de ouvir e de
compreender sempre mais profundamente as palavras autênticas que lhe
revelam a sua identidade, os seus recursos interiores, a importancia da
sua missão na Cidade dos homens e na de Deus.
A Igreja conhece o
caminho pelo qual a família pode chegar ao coração da sua verdade
profunda. Este caminho, que a Igreja aprendeu na escola de Cristo e da
história interpretada à luz do Espírito, não o impõe, mas sente a
exigência indeclinável de o propor a todos sem medo, com grande confiança
e esperança, sabendo, porém, que a «boa nova» conhece a linguagem da Cruz.
É, no entanto, através da Cruz que a família pode atingir a plenitude do
seu ser e a perfeição do seu amor.
Desejo,
por fim, convidar todos os cristãos a colaborar, carinhosa e
corajosamente, com todos os homens de boa vontade, que vivem a
responsabilidade própria no serviço à família. Os que dentro da Igreja, em
seu nome e sob a sua inspiração, quer individualmente quer em grupos,
movimentos ou associações, se consagram ao bem da família, encontram
muitas vezes a seu lado pessoas e instituições empenhadas no mesmo ideal.
Na fidelidade aos valores do Evangelho e do homem e no respeito a um
legítimo pluralismo de iniciativas, esta colaboração poderá favorecer uma
mais rápida e integral promoção da família.
E agora, ao concluir
esta mensagem pastoral, que visa chamar a atenção de todos sobre as
pesadas mas fascinantes tarefas da família cristã, desejo invocar a
protecção da Família de Nazaré.
Por misterioso desígnio
de Deus, nela viveu o Filho de Deus escondido por muitos anos: é, pois,
protótipo e exemplo de todas as famílias cristãs. E aquela Família, única
no mundo, que passou uma existência anónima e silenciosa numa pequena
localidade da Palestina; que foi provada pela pobreza, pela perseguição,
pelo exílio; que glorificou a Deus de modo incomparavelmente alto e puro,
não deixará de ajudar as famílias cristãs, ou melhor, todas as famílias do
mundo, na fidelidade aos deveres quotidianos, no suportar as ansias e as
tribulações da vida, na generosa abertura às necessidades dos outros, no
feliz cumprimento do plano de Deus a seu respeito.
Que São José, «homem
justo», trabalhador incansável, guarda integérrimo dos penhores que lhe
foram confiados, as guarde, proteja e ilumine.
Que a Virgem Maria, Mãe
da Igreja, seja também a Mãe da «Igreja doméstica» e, graças ao seu
auxílio materno, cada família cristã possa tornar-se verdadeiramente uma
«pequena Igreja», na qual se manifeste e reviva o mistério da Igreja de
Cristo. Seja Ela, a Escrava do Senhor, o exemplo de acolhimento humilde e
generoso da vontade de Deus; seja Ela, Mãe das Dores aos pés da Cruz, a
confortar e a enxugar as lágrimas dos que sofrem pelas dificuldades das
suas famílias.
E Cristo Senhor, Rei do
Universo, Rei das famílias, como em Caná, esteja presente em cada lar
cristão a conceder-lhe luz, felicidade, serenidade, fortaleza.
No dia solene dedicado
à sua Realeza, peço que cada família Lhe ofereça um contributo próprio,
original para a vinda no mundo do seu Reino, «Reino de verdade e de vida,
de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz», para o
qual se encaminha a história.
A Ele, a Maria e a José
confio cada família. Nas suas mãos e no seu coração ponho esta Exortação:
sejam Eles a transmiti-la a vós, veneráveis Irmãos e dilectos filhos, e a
abrir os vossos corações à luz que o Evangelho irradia sobre cada família.
A todos e a cada um,
assegurando a minha constante prece, concedo de coração a Bênção
Apostólica em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Dado em Roma, junto
de São Pedro, no dia 22 de Novembro de 1981, Solenidade de N. S. Jesus
Cristo Rei do Universo, quarto ano do meu Pontificado.
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