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Famílias
numerosas Num
tempo em que a maioria dos casais não se aventura a ter mais do que um ou dois filhos por
razões tão diversas como o investir na profissão, a falta de disponibilidade, o
dinheiro que não chega, a casa que é pequena ou a falta de paciência, quisemos saber
como vivem os casais que optaram por ter uma família numerosa. O dia-a-dia numa casa
cheia não é fácil, é muitas vezes caótico e confuso. Dormem dois ou três em cada
quarto, fazem fila para a casa-de-banho, falam todos ao mesmo tempo e, se possível, alto
para serem ouvidos, herdam a roupa e os brinquedos dos irmãos, disputam o melhor lugar no
sofá, fazem birras, adoecem em escalada... Mas com humor e sentido de organização tudo
se compõe. Exige sacrifícios, é certo, mas as compensações e alegrias ultrapassam
todas as dificuldades. Não fosse a família uma escola de afectos, que ensina e põe em
marcha o princípio do "um por todos e todos por um".
Leonor e Fernando Castro: 12 filhos
(actualmente já são 13) Tente
perguntar a qualquer pessoa, em S. Domingos de Rana, onde vive um casal com uma dúzia de
filhos. A resposta será imediata, sem ponta de hesitação. O número 302 da Rua
Francisco Coutinho não passa despercebido a ninguém que more nas redondezas, tal é o
movimento de entradas e saídas desta casa. É onde vivem Leonor e Fernando Castro com dez
de 12 filhos. Dois estão casados, já lá não moram. Mas a azáfama nem por isso é
menor. O
jantar tinha sido há pouco. Carmo, a sétima, está a sacudir a toalha. "Aqui temos
todos tarefas bem determinadas". Da cozinha chega-nos o barulho dos pratos e dos
talheres e das portas dos armário a bater. Aos poucos, vão chegando um a um à
sala-de-estar e apresentam-se: "Olá, eu sou o João, o quinto;" "E eu o
Marcos, o oitavo;" "Eu sou o décimo, chamo-me Bernardo"... e assim
sucessivamente. Em jeito de provocação, perguntamos qual vai ser o nome do próximo
filho(a). Resposta dos pais: "Isso é coisa que só pensamos na altura" (risos). Por
serem tantos recorreram à regra cardinal para identificar os guardanapos. Alguns nomes
são demasiado compridos e as iniciais, essas, muitas delas seriam repetidas. "Tem
mesmo de ser o número por ordem de nascença", explica Madalena, a sexta. Apinhados
no sofá, sentados nas cadeiras ou espalhados pelo chão, aguardam sorridentes por força
da palavra "Cheeeeeese" o clique da máquina fotográfica. O mais novinho,
Lourenço, de dois anos, carinhosamente apelidado por todos de bebé, está um bocado
irrequieto. A esta hora já deveria estar de chucha na boca dentro dos lençóis. Mas com
insistentes "olha o passarinho", Lourenço acabou por posar para a fotografia. Num
quadro pendurado na parede da sala, uma laranjeira com 16 laranjas de cerâmica
correspondentes aos elementos da família, incluindo as mais recentes aquisições: nora,
genro e neto (este é representado por uma pequena tangerina). E na raiz da árvore, a
palavra "Deus". Leonor,
professora de inglês que deixou de leccionar na décima gravidez para ser mãe a tempo
inteiro, explica as razões por que quis uma família numerosa. "Sempre quis.
Primeiro, porque é um projecto de família. Depois, talvez por influência da família
onde fui criada. Fiquei órfã muito cedo e os meus padrinhos, que tinham muitos filhos,
acolheram-me. Vivi sempre num ambiente cheio de gente." Fernando,
o marido, não tem antecedentes de famílias numerosas na sua família. Mas sempre foi seu
desejo ter uma família grande. Não teve filhos por missão, mas por felicidade: "No
fundo, o que as pessoas procuram é ser felizes. E a nossa felicidade passava por aí, por
ter muitos filhos." Para muita gente, doze não é muito, é demasiado. Por isso
Leonor já se habituou ao ar espantado com que as pessoas olham para ela na rua. E aos
comentários também, do tipo "Que horror, eu tenho dois e fico com a cabeça em
água. Como consegue aguentar doze?". Responde que isso não é mérito, é
vocação. Para ela, o importante é "viver um dia de cada vez". Planear
a quantidade de filhos nunca foi a preocupação deste casal. "Estamos simplesmente
disponíveis para os receber, nunca pensámos se seriam cinco, sete ou doze. Evidentemente
que o dinheiro foi uma preocupação, mas não faltou o apoio de familiares e amigos. Em
25 anos, a idade do filho mais velho, Leonor quase não se viu noutro estado senão
grávida. "Gosto muito de me ver assim", ao que o marido acrescenta: "E
fica linda barriguda." Como quase todas as mulheres grávidas, Leonor também teve
desejos. Fica o registo do mais estranho: "Fui fumadora até à primeira gravidez. O
meu organismo começava a ter falta de nicotina. O curioso é que eu tinha não vontade de
fumar um cigarro, tinha era vontade de comer beatas. Fui buscá-las ao caixote do lixo.
Que bem me souberam! No dia seguinte, claro, preocupada, telefonei ao médico para saber
se aquilo me fazia mal"... Uma
das vantagens em ter muitos filhos é o aprender desde cedo a partilhar. Da roupa ao
calçado, dos brinquedos aos discos. E se nem sempre pode haver um bife para cada um, uns
croquetes, rissóis e empadão servem para completar a refeição. Nas férias, viagens de
avião e quartos de hotel estão completamente vedados ao orçamento familiar, que bem
ginasticado, chega para fazer campismo ou percorrer o país e algumas principais cidades
da Europa numa auto-caravana. De resto, vão-se contentando com os postais e fotografias
dos casais amigos, em destinos fantásticos.
Manuel e Maria
Vergínia Magriço: 9 filhos Ter
muitos filhos sempre foi o projecto de vida do casal Magriço. Maria Vergínia e Manuel
explicam que as suas motivações para ter uma família numerosa passam por uma questão
de fundo como a "abertura à vida". Católicos praticantes, jamais pensaram
deixar de ter mais filhos por outro motivo que não o de saúde e de risco de vida da
mãe. Nem sequer por motivos de deficiência do bebé. "Seria bem-vindo à
mesma." Tanto assim é que Maria Vergínia recusou fazer a amniocentese quando
engravidou do último filho. "Antes de mais, porque implica riscos para o bebé,
depois, porque se ele tivesse alguma deficiência eu nunca abortaria." Para este
casal, o valor da vida humana sobrepõe-se a tudo e, nesse sentido, apesar das
contra-indicacões médicas devido à idade de Maria Vergínia, hoje com 51 anos, ela não
enjeita a possibilidade de vir a ter mais filhos. Manuel
Magriço e a mulher regem-se por princípios e valores que à maior parte das pessoas não
fará talvez muito sentido. Por exemplo, a capacidade de gerar posta ao serviço da
sociedade. "Uma forma de sermos socialmente úteis é concretizar as potencialidades
que temos, como seja gerar e educar cidadãos livres, responsáveis, solidários, com
virtudes cívicas". Mas antes disso, salienta Manuel, "é a responsabilidade
intrínseca por mim próprio e perante Deus, que é criador, previdente, está nisto
comigo". É, de resto, por crença religiosa que todos os filhos se chamam Maria:
"É uma forma de invocar a Nossa Senhora que proteja os nossos filhos." Crítico
em relação aos que procuram a felicidade na quantidade de roupas de marca, de viagens,
de jipes, de casas de campo e de praia, porque considera isso um conceito demasiado pobre
de felicidade, Manuel sustenta que "toda a gente seria mais feliz se desenvolvesse as
suas capacidades. Gerar filhos é uma delas. E aí, sim, é onde encontramos a nossa
felicidade". Criar
nove filhos é compensador, mas não é tarefa fácil sem organização, dedicação,
paciência, disponibilidade, bom humor e sacrifício. Esta é a receita que Maria
Vergínia tem cozinhado ao longo de 25 anos, a idade do filho mais velho. E quantas vezes,
não fosse imprescindível o salário que aufere como directora do Centro de
Documentação do Instituto de Investigação Científica Tropical, pensou fazer uma
paragem na sua actividade profissional para estar mais tempo com eles. Mas outra solução
não teve senão conciliar família e trabalho, muito embora em prejuízo da profissão.
"Uma mãe tem de perceber que pode ter de prescindir de uma certa ambição
profissional se disso depender o bem-estar da família. Se eu escolhi ter filhos, eles
são a minha prioridade."
José Luís e Ana Isabel Gala: 9 filhos São
nove e todos Maria. José Maria, João Maria, Ana Maria, Teresa Maria, Pedro Maria, e por
aí fora, com idades entre os sete meses e os 12 anos. Com tantos miúdos em idade
escolar, são inevitáveis as mochilas atafulhadas no chão a barrar a porta de entrada.
E, a um canto da cozinha, cestos de verga para levar a merenda. Não os contei, mas
pareceram-me imensos. Atrás da porta da casa-de-banho, penduradas num plástico com
divisórias, escovas de pentear, escovas de dentes e pastas dentífricas de cada um.
Nenhuma tem identificação. "Não é preciso. Eles sabem que, da direita para a
esquerda, o primeiro buraquinho pertence ao mais velho, o segundo ao número dois e assim
sucessivamente, o último é do mais novo. Quando
se vive numa casa cheia como esta, em que todos são ainda muito miúdos, a melhor maneira
de a gerir é simplificando as coisas. "Já viu o que seria se cada um deles, todas
as manhãs e todas as noites andasse atrás de mim a perguntar 'mãe, a minha escova de
dentes?, pai não encontro o meu pente' E quem fala disto, fala de outras coisas." Apesar
de gostar de ser médica, Ana não se importava de continuar a ser mãe a tempo inteiro.
"Eles estão acima de qualquer ambição profissional. Mas tenho de admitir que o
dinheiro é importante." Tão importante que lhes permita comprar uma casa maior, que
esta começa a rebentar pelas costuras. As meninas dormem num quarto, os rapazes noutro,
em beliches. A casa não é pequena mas os armários da roupa acabam por roubar bastante
espaço. "Estamos a precisar de mudar, só que agora é impossível." Ana
já tem 40 anos, mas a possibilidade de nova gravidez não está posta de parte.
"Não consigo estabelecer um limite ao número de filhos. Ficarei feliz se tiver
outro." Porque ambos acreditam que é "um dom que Deus lhes deu" e não um
"terceiro mundismo ou um sinal de novo riquismo, como tanta gente pensa".
Roberto e Maria do Rosário:
Carneiro: 9 filhos Para
este casal, uma das vantagens em ter muitos filhos é não haver tempo para estar quieto
num canto a pensar nos problemas. E quando são muitos, a possibilidade de construir
projectos é maior. Preocupações têm muitas. Com o futuro deles, o bem-estar, a
educação..., mas com paciência e disponibilidade, apesar do aperto da agenda, tudo se
encaminha. Maria do Rosário ainda se lembra, com uma certa nostalgia, do lufa-lufa que
era quando eles eram mais pequeninos. "Uma vez contei as vezes que entrava e saía de
casa todas as tardes. Catorze, veja bem! Ia buscar um à escola, levava o outro às aulas
de música, corria ao supermercado, levava outro a casa do amigo, outro não sei onde,
depois ia dar aulas... enfim, foi um período fantástico da minha vida." Conseguir
conciliar tantas funções ao mesmo tempo, mãe, mulher, deputada, professora
universitária e manter a casa em funcionamento "só com um ar ligeiramente
caótico", não é fácil. Mas para Maria do Rosário "quando se quer uma coisa
há que arranjar recursos para o conseguir de modo a gerir o que se tem com aquilo que se
quer. Tornou-se imprescindível ter empregadas em casa, mas a atenção dos pais é
insubstituível. Por isso é que Roberto e Maria do Rosário nunca se demitiram dessa
função quando os mais velhos alcançaram idade para tratar dos irmãos. "Não se
pode pedir aos filhos mais adultos que sejam outra coisa para os mais novos senão
irmãos. Não se lhes deve exigir que sejam pais ou mães." Porque assistência é
uma coisa, substituir os pais é outra. No entanto, para facilitar a vida aos pais, cada
um dos filhos mais velhos decidiu responsabilizar-se por cada um dos mais pequenos no que
respeita ao acompanhamento escolar. Orientam, ensinam, ajudam nos deveres da escola. Os
pais agradecem, naturalmente. Estando
todos em idade escolar é inevitável estar atento aos horários de cada um. Para isso
serve também a porta do frigorífico, completamente forrada a papelinhos amarelos. Mesmo
assim há falhas e, de vez em quando, "há alguém que é esquecido à porta da
escola". Ressentimentos, birras? Nem pensar! Quando se pertence a uma família
numerosa este tipo de acidentes é encarado com a maior das naturalidades, sem dramas. Ter
muitos filhos é óptimo do ponto de vista afectivo e emocional, mas também tem custos,
implica mais sacrifícios. Roberto e Maria do Rosário Carneiro, admitem que se tivessem
só um ou dois filhos não precisariam de trabalhar tanto nem de ter dois empregos.
"Creio que não teria feito metade do que fiz se não tivesse necessidade de
sustentar uma família grande", assegura Roberto. Uma parte choruda do orçamento
familiar é gasto na formação musical dos filhos. Quando entram na escola, iniciam-se
logo nas aulas de música. Todos tocam um ou vários instrumentos. Violoncelo, viola,
violino, flauta, piano.., é uma orquestra lá em casa.
Vasco e Maria Teresa Cabral: 13 filhos Estão
na faixa dos 80. Têm 13 filhos, 43 netos e 10 bisnetos. Hoje vivem sozinhos em Paço
D'Arcos, numa casa demasiado grande para eles. Que logo se torna exígua quando a família
se reúne, normalmente aos fins-de-semana. "Quando cá estão todos espalham-se pelo
rés-do-chão, primeiro e segundo andares." Apesar de terem cortado há muitos anos o
cordão umbilical, os filhos não largam os pais. Todos os dias, depois de saírem do
trabalho, filhos, netos e bisnetos passam por "casa" simplesmente para dizer
olá e saber se está tudo bem. E se algum não aparece ou não dá notícias durante dois
dias, Maria Teresa não hesita em telefonar. "O maior entretenimento da minha mãe é
o telefone. Ela sabe tudo acerca de nós. Quando algum irmão quer saber do outro, é à
mãe que telefona. Ela é o centro de informações da família", diz um dos filhos,
António Maria, de 46 anos. Mãe
galinha assumida, Maria Teresa confessa que ainda hoje não consegue demitir-se do papel
de mãe. E se antes se preocupava apenas com os 13 filhos, hoje as suas ansiedades são
acrescidas. A família aumentou e agora há que prestar atenção também aos netos e
bisnetos. "Não pára de pensar neles. Hoje o mundo está tão diferente, são as
drogas, o álcool, está tudo mais acessível que no tempo dos meus meninos." Diferente
também está a concepção de família. No tempo em que Vasco e Maria Teresa eram jovens,
as famílias numerosas não suscitavam espanto nem admiração. Era natural e frequente
encontrar casais com muitos filhos. De há uns anos para cá são uma raridade. Vasco
Cabral dá nota de duas situações que exemplificam isso mesmo: "Num
curso que frequentei no estrangeiro foi-me pedido o curriculum. Escrevi-o em inglês e
mandei-o por fax. Tinha então só nove filhos. Os destinatários entenderam que teria
havido forçosamente uma gralha e mudaram o 'nine' (nove) para 'none' (nenhum). Qual não
foi a surpresa e escândalo quando eu rectifiquei a gralha, não minha, a deles. De uma
outra vez, numa viagem que fiz com um estrangeiro, quando lhe revelei a minha situação
familiar ele chamou-me assassino." Com
a emancipação da mulher, que passou a trabalhar fora, passou a não haver tempo nem
disponibilidade para mais do que dois ou três filhos. É esta a leitura que Maria Teresa
faz da diminuição crescente da natalidade no nosso país: "No meu tempo, as
mulheres, salvo excepções, não tinham uma actividade profissional, eram educadas para
ficar em casa a cuidar dos filhos." Mesmo assim, este casal não tem 13 filhos só
porque Maria Teresa estava disponível para tratar deles a tempo inteiro. Tem-nos porque
uma família grande é uma família feliz". De resto, é já uma tradição familiar.
Vasco nasceu numa família numerosa. Os avós paternos tiveram 14 filhos e os pais oito.
'No meu caso, foi uma aventura ter estes filhos todos. Não sei como é que com esta
confusão consegui chegar aos 82 anos", Vasco perde-se de riso. Mas logo assume um ar
sério quando recorda os piores momentos, passados por altura da guerra colonial. Cinco
filhos partiram para as ex-colónias em combate. Pai e mãe viviam com o coração nas
mãos, sempre à espera de más notícias. "Mas graças a Deus voltaram todos
vivos." Para
criar e educar tantos filhos não existem receitas milagrosas. Mas é absolutamente
indispensável traçar linhas de orientação: ou se dá o essencial aos filhos ou se
satisfaz caprichos. Para Vasco, uma das vantagens em ter uma família numerosa é não
embarcar no consumismo desmedido que impera nas sociedades actuais. "Um dos problemas
das gerações mais jovens é serem insaciáveis, não se contentam com nada. Nós não
tivemos essa oportunidade, felizmente. Outro valor nos rege, o da família. Não é
preciso dar-lhes tudo de material, só o necessário."
(Texto retirado de http://paginasfamilia.no.sapo.pt/familiasnumerosas.htm) |