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Índice
INTRODUÇÃO
O_valor_incomparável_da_pessoa_humana
As_novas_ameaças_à_vida_humana
Em_comunhão_com_todos_os_Bispos_do_mundo
CAPÍTULO_I
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A_VOZ_DO_SANGUE_DO_TEU_IRMÃO_CLAMA_DA_TERRA_ATÉ_MIM_
AS_ACTUAIS_AMEAÇAS_À_VIDA_HUMANA
«_Caim_levantou_a_mão_contra_o_irmão_Abele_matou-o_»_(Gn_4,_8):_na_raiz_da_violência_contra_a_vida
«_Que_fizeste_»_(Gn_4,_10):_o_eclipse_do_valor_da_vida
«_Sou,_porventura,_guarda_do_meu_irmão_»_(Gn_4,_9):_uma_noção_perversa_de_liberdade_
«_Obrigado_a_ocultar-me_longe_da_tua_face_»_(Gn_4,_14):_o_eclipse_do_sentido_de_Deus_e_do_homem
«_Aproximaste-vos_do_sangue_de_aspersão_»_(cf._Heb_12,_22.24:_sinais_de_esperança_e_convite_ao_compromisso_
CAPÍTULO_II
-
VIM_PARA_QUE_TENHAM_VIDA
A_MENSAGEM_CRISTÃ_SOBRE_A_VIDA
«_A_vida_manifestou-se,_nós_vimo-la_»_(1_Jo_1,_2):_o_olhar_voltado_para_Cristo,_«_o_Verbo_da_vida_»
«_O_Senhor_é_a_minha_força_e_a_minha_glória,_foi_Ele_quem_me_salvou»_(Ex_15,_2:_a_vida_é_sempre_um_bem
«_Pela_fé_no_nome_de_Jesus,_este_homem_recobrou_as_forças_»_(Act_3,_16:_na_precariedade_da_existência_humana,_Jesus_realiza_plenamente_o_sentido_da_vida
«_Chamados_(...)_a_ser_conformes_à_imagem_do_Seu_Filho_»_(Rm_8,_28-29:_a_glória_de_Deus_resplandece_no_rosto_do_homem_
«_Quem_crê_em_Mim,_ainda_que_esteja_morto_viverá_»_(Jo_11,_26):_o_dom_da_vida_eterna_
«_A_cada_um,_pedirei_contas_do_seu_irmão_»_(cf._Gn_9,_5):_veneração_e_amor_pela_vida_dos_outros
«_Crescei_e_multiplicai-vos,_enchei_e_dominai_a_terra_»_(Gn_1,_28:_as_responsabilidades_do_homem_pela_vida_
«_Vós_é_que_plasmastes_o_meu_interior_»_(Sal_139_138,_13):_a_dignidade_da_criança_ainda_não_nascida_
«_Confiei_mesmo_quando_disse:_Sou_um_homem_de_todo_infeliz_»_(Sal_116_115,_10:_a_vida_na_velhice_e_no_sofrimento_
«_Todos_os_que_a_seguirem_alcançarão_a_vida_»_(Bar_4,_1):_da_Lei_do_Sinai_ao_dom_do_Espírito
«_Hão-de_olhar_para_Aquele_que_trespassaram_»_(Jo_19,_37):_na_árvore_da_Cruz,_cumpre-se_o_Evangelho_da_Vida
CAPÍTULO_III
-
NÃO_MATARÁS
A_LEI_SANTA_DE_DEUS
«_Se_queres_entrar_na_vida_eterna,_cumpre_os_mandamentos_»_(Mt_19,_17):_Evangelho_e_mandamento
«_Ao_homem,_pedirei_contas_da_vida_do_homem_»_(Gn_9,_5):_a_vida_humana_é_sagrada_e_inviolável
«_Vossos_olhos_contemplaram-me_ainda_em_embrião_»_(Sal_139_138,_16):_o_crime_abominável_do_aborto
«_Só_Eu_é_que_dou_a_vida_e_dou_a_morte_»_(Dt_32,_39):_o_drama_da_eutanásia
«_Importa_mais_obedecer_a_Deus_do_que_aos_homens_»_(Act_5,_29):_a_lei_civil_e_a_lei_moral
«_Amarás_ao_teu_próximo_como_a_ti_mesmo_»_(Lc_10,_27):_«_promove_»_a_vida_
CAPÍTULO_IV
-
A_MIM_O_FIZESTES
POR_UMA_NOVA_CULTURA_DA_VIDA_HUMANA
«_Vós_sois_o_povo_adquirido_por_Deus,_para_proclamardes_as_suas_obras_maravilhosas_»_(1_Ped_2,_9:_o_povo_da_vida_e_pela_vida
«_O_que_vimos_e_ouvimos,_isso_vos_anunciamos_»_(1_Jo_1,_3):_anunciar_o_Evangelho_da_vida
«_Eu_Vos_louvo_porque_me_fizestes_como_um_prodígio_»_(Sal_139_138,_14):_celebrar_o_Evangelho_da_vida
«_De_que_aproveitará,_irmãos,_a_alguém_dizer_que_tem_fé_se_não_tiver_obras_»_(Tg_2,_14:_servir_o_Evangelho_da_vida
«_Os_filhos_são_bênçãos_do_Senhor;_os_frutos_do_ventre,_um_mimo_do_Senhor_»_(Sal_127_126,_3:_a_família_«_santuário_da_vida_»
«_Comportai-vos_como_filhos_da_luz_»_(Ef_5,_8):_para_realizar_uma_viragem_cultural
«_Escrevemo-vos_estas_coisas_para_que_a_vossa_alegria_seja_completa_»_(1_Jo_1,_4:_o_Evangelho_da_vida_é_para_bem_da_cidade_dos_homens
CONCLUSÃO
«_Apareceu_um_grande_sinal_no_Céu:_uma_mulher_revestida_de_Sol_»_(Ap_12,_1:_a_maternidade_de_Maria_e_da_Igreja
«_O_dragão_deteve-se_diante_da_mulher_(...)_para_lhe_devorar_o_filho_que_estava_para_nascer_»_(Ap_12,_4):_a_vida_ameaçada_pelas_forças_do_mal
«_Não_mais_haverá_morte_»_(Ap_21,_4):_o_esplendor_da_ressurreição

Ioannes
Paulus PP. II
Evangelium vitae
aos Presbíteros e Diáconos
aos Religiosos e Religiosas
aos Fiéis leigos e a todas as Pessoas de Boa Vontade
sobre o Valor e a Inviolabilidade
da Vida Umana
1995.03.25
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INTRODUÇÃO
1. O
Evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus. Amorosamente
acolhido cada dia pela Igreja, há-de ser fiel e corajosamente
anunciado como boa nova aos homens de todos os tempos e culturas.
Na aurora
da salvação, é proclamado como feliz notícia o nascimento de um
menino: « Anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo:
Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias,
Senhor » (Lc 2, 10-11). O motivo imediato que faz irradiar esta
« grande alegria » é, sem dúvida, o nascimento do Salvador; mas, no
Natal, manifesta-se também o sentido pleno de todo o nascimento
humano, pelo que a alegria messiânica se revela fundamento e plenitude
da alegria por cada criança que nasce (cf. Jo 16, 21).
Ao
apresentar o núcleo central da sua missão redentora, Jesus diz: « Eu
vim para que tenham vida, e a tenham em abundância » (Jo 10,
10). Ele fala daquela vida « nova » e « eterna » que consiste na
comunhão com o Pai, à qual todo o homem é gratuitamente chamado no
Filho, por obra do Espírito Santificador. Mas é precisamente em tal «
vida » que todos os aspectos e momentos da vida do homem adquirem
pleno significado. |
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O valor incomparável
da pessoa humana
2. O homem
é chamado a uma plenitude de vida que se estende muito para além das
dimensões da sua existência terrena, porque consiste na participação
da própria vida de Deus.
A
sublimidade desta vocação sobrenatural revela a grandeza e o
valor precioso da vida humana, inclusive já na sua fase temporal.
Com efeito, a vida temporal é condição basilar, momento inicial e
parte integrante do processo global e unitário da existência humana:
um processo que, para além de toda a expectativa e merecimento, fica
iluminado pela promessa e renovado pelo dom da vida divina, que
alcançará a sua plena realização na eternidade (cf. 1 Jo 3,
1-2). Ao mesmo tempo, porém, o próprio chamamento sobrenatural
sublinha a relatividade da vida terrena do homem e da mulher.
Na verdade, esta vida não é realidade « última », mas « penúltima »;
trata-se, em todo o caso, de uma realidade sagrada que nos é
confiada para a guardarmos com sentido de responsabilidade e levarmos
à perfeição no amor pelo dom de nós mesmos a Deus e aos irmãos.
A Igreja
sabe que este Evangelho da vida, recebido do seu Senhor, 1
encontra um eco profundo e persuasivo no coração de cada pessoa,
crente e até não crente, porque se ele supera infinitamente as suas
aspirações, também lhes corresponde de maneira admirável. Mesmo por
entre dificuldades e incertezas, todo o homem sinceramente aberto à
verdade e ao bem pode, pela luz da razão e com o secreto influxo da
graça, chegar a reconhecer, na lei natural inscrita no coração (cf.
Rm 2, 14-15), o valor sagrado da vida humana desde o seu início
até ao seu termo, e afirmar o direito que todo o ser humano tem de ver
plenamente respeitado este seu bem primário. Sobre o reconhecimento de
tal direito é que se funda a convivência humana e a própria comunidade
política.
De modo
particular, devem defender e promover este direito os crentes em
Cristo, conscientes daquela verdade maravilhosa, recordada pelo
Concílio Vaticano II: « Pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus,
uniu-Se de certo modo a cada homem ». 2 De facto, neste acontecimento
da salvação, revela-se à humanidade não só o amor infinito de Deus que
« amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único » (Jo
3, 16), mas também o valor incomparável de cada pessoa humana.
A Igreja,
perscrutando assiduamente o mistério da Redenção, descobre com
assombro incessante 3 este valor, e sente-se chamada a anunciar aos
homens de todos os tempos este « evangelho », fonte de esperança
invencível e de alegria verdadeira para cada época da história. O
Evangelho do amor de Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da
pessoa e o Evangelho da vida são um único e indivisível Evangelho.
É por este
motivo que o homem, o homem vivo, constitui o primeiro e fundamental
caminho da Igreja. 4 |
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As
novas ameaças à vida humana
3.
Precisamente por causa do mistério do Verbo de Deus que Se fez carne
(cf. Jo 1, 14), cada homem está confiado à solicitude materna
da Igreja. Por isso, qualquer ameaça à dignidade e à vida do homem não
pode deixar de se repercutir no próprio coração da Igreja, é
impossível não a tocar no centro da sua fé na encarnação redentora do
Filho de Deus, não pode passar sem a interpelar na sua missão de
anunciar o Evangelho da vida pelo mundo inteiro a toda a
criatura (cf. Mc 16, 15).
Hoje, este
anúncio torna-se particularmente urgente pela impressionante
multiplicação e agravamento das ameaças à vida das pessoas e dos
povos, sobretudo quando ela é débil e indefesa. Às antigas e dolorosas
chagas da miséria, da fome, das epidemias, da violência e das guerras,
vêm-se juntar outras com modalidades inéditas e dimensões
inquietantes.
Já o
Concílio Vaticano II, numa página de dramática actualidade, deplorou
fortemente os múltiplos crimes e atentados contra a vida humana. À
distância de trinta anos e fazendo minhas as palavras da Assembleia
Conciliar, uma vez mais e com idêntica força os deploro em nome da
Igreja inteira, com a certeza de interpretar o sentimento autêntico de
toda a consciência recta: « Tudo quanto se opõe à vida, como seja toda
a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio
voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as
mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para
violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da
pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões
arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio
de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho,
em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e
não como pessoas livres e responsáveis. Todas estas coisas e outras
semelhantes são infamantes; ao mesmo tempo que corrompem a civilização
humana, desonram mais aqueles que assim procedem, do que os que
padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador
». 5
4.
Infelizmente, este panorama inquietante, longe de diminuir, tem vindo
a dilatar-se: com as perspectivas abertas pelo progresso científico e
tecnológico, nascem outras formas de atentados à dignidade do ser
humano, enquanto se delínea e consolida uma nova situação cultural que
dá aos crimes contra a vida um aspecto inédito e — se é possível —
ainda mais iníquo, suscitando novas e graves preocupações: amplos
sectores da opinião pública justificam alguns crimes contra a vida em
nome dos direitos da liberdade individual e, sobre tal pressuposto,
pretendem não só a sua impunidade mas ainda a própria autorização da
parte do Estado para os praticar com absoluta liberdade e, mais, com a
colaboração gratuita dos Serviços de Saúde.
Ora, tudo
isto provoca uma profunda alteração na maneira de considerar a vida e
as relações entre os homens. O facto de as legislações de muitos
países, afastando-se quiçá dos próprios princípios basilares das suas
Constituições, terem consentido em não punir ou mesmo até reconhecer a
plena legitimidade de tais acções contra a vida, é conjuntamente
sintoma preocupante e causa não marginal de uma grave derrocada moral:
opções, outrora consideradas unanimamente criminosas e rejeitadas pelo
senso moral comum, tornam-se pouco a pouco socialmente respeitáveis. A
própria medicina que, por vocação, se orienta para a defesa e cuidado
da vida humana, em alguns dos seus sectores vai-se prestando em escala
cada vez maior a realizar tais actos contra a pessoa, e, deste modo,
deforma o seu rosto, contradiz-se a si mesma e humilha a dignidade de
quantos a exercem. Em semelhante contexto cultural e legal, os graves
problemas demográficos, sociais ou familiares — que incidem sobre
numerosos povos do mundo e exigem a atenção responsável e operante das
comunidades nacionais e internacionais —, encontram-se também sujeitos
a soluções falsas e ilusórias, em contraste com a verdade e o bem das
pessoas e das nações.
O resultado
de tudo isto é dramático: se é muitíssimo grave e preocupante o
fenómeno da eliminação de tantas vidas humanas nascentes ou
encaminhadas para o seu ocaso, não o é menos o facto de à própria
consciência, ofuscada por tão vastos condicionalismos, lhe custar cada
vez mais a perceber a distinção entre o bem e o mal, precisamente
naquilo que toca o fundamental valor da vida humana.
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Em
comunhão com todos os Bispos do mundo
5. Ao
problema das ameaças à vida humana no nosso tempo, foi dedicado o
Consistório Extraordinário dos Cardeais, realizado em Roma de 4
a 7 de Abril de 1991. Depois de amplo e profundo debate do problema
e dos desafios postos à família humana inteira e, de modo
particular, à Comunidade cristã, os Cardeais, com voto unânime,
pediram-me que reafirmasse, com a autoridade do Sucessor de Pedro, o
valor da vida humana e a sua inviolabilidade, à luz das
circunstâncias actuais e dos atentados que hoje a ameaçam.
Acolhendo
tal pedido, no Pentecostes de 1991 escrevi uma carta pessoal
a cada Irmão no Episcopado para que, em espírito de colegialidade,
me oferecesse a sua colaboração com vista à elaboração de um
específico documento. 6 Agradeço profundamente a todos os Bispos que
responderam, fornecendo-me preciosas informações, sugestões e
propostas. Deram também assim testemunho da sua participação
concorde e convicta na missão doutrinal e pastoral da Igreja acerca
do Evangelho da vida.
Nessa
mesma carta, que fora enviada poucos dias depois da celebração do
centenário da Encíclica Rerum novarum, chamava a atenção de
todos para esta singular analogia: « Como há um século, oprimida nos
seus direitos fundamentais era a classe operária, e a Igreja com
grande coragem tomou a sua defesa, proclamando os sacrossantos
direitos da pessoa do trabalhador, assim agora, quando outra
categoria de pessoas é oprimida no direito fundamental à vida, a
Igreja sente que deve, com igual coragem, dar voz a quem a não tem.
O seu é sempre o grito evangélico em defesa dos pobres do mundo, de
quantos estão ameaçados, desprezados e oprimidos nos seus direitos
humanos ». 7
Espezinhada no direito fundamental à vida, é hoje uma grande
multidão de seres humanos débeis e indefesos, como o são, em
particular, as crianças ainda não nascidas. Se, ao findar do século
passado, não fora consentido à Igreja calar perante as injustiças
então reinantes, menos ainda pode ela calar hoje, quando às
injustiças sociais do passado — infelizmente ainda não superadas —
se vêm somar, em tantas partes do mundo, injustiças e opressões
ainda mais graves, mesmo se disfarçadas em elementos de progresso
com vista à organização de uma nova ordem mundial.
A
presente Encíclica, fruto da colaboração do Episcopado de cada país
do mundo, quer ser uma reafirmação precisa e firme do valor da
vida humana e da sua inviolabilidade, e, conjuntamente, um
ardente apelo dirigido em nome de Deus a todos e cada um:respeita,
defende, ama e serve a vida, cada vida humana! Unicamente por
esta estrada, encontrarás justiça, progresso, verdadeira liberdade,
paz e felicidade!
Cheguem
estas palavras a todos os filhos e filhas da Igreja! Cheguem a todas
as pessoas de boa vontade, solícitas pelo bem de cada homem e mulher
e pelo destino da sociedade inteira!
6. Em
profunda comunhão com cada irmão e irmã na fé e animado por sincera
amizade para com todos, quero meditar de novo e anunciar o
Evangelho da vida, clara luz que ilumina as consciências,
esplendor de verdade que cura o olhar ofuscado, fonte inexaurível de
constância e coragem para enfrentar os desafios sempre novos que
encontramos no nosso caminho.
Tendo no
pensamento a rica experiência vivida durante o Ano da Família, e
quase completando idealmente a Carta que dirigi « a cada
família concreta de cada região da terra », 8 olho com renovada
confiança para todas as comunidades domésticas e faço votos por que
renasça ou se reforce, em todos e aos diversos níveis, o compromisso
de apoiarem a família, para que também hoje — mesmo no meio de
numerosas dificuldades e graves ameaças — ela se conserve sempre,
segundo o desígnio de Deus, como « santuário da vida ». 9
A todos
os membros da Igreja, povo da vida e pela vida, dirijo o mais
premente convite para que, juntos, possamos dar novos sinais de
esperança a este nosso mundo, esforçando-nos por que cresçam a
justiça e a solidariedade e se afirme uma nova cultura da vida
humana, para a edificação de uma autêntica civilização da verdade e
do amor.
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CAPÍTULO
I
A VOZ DO
SANGUE DO TEU IRMÃO CLAMA DA TERRA ATÉ MIM
AS ACTUAIS
AMEAÇAS À VIDA HUMANA
«
Caim levantou a mão contra o irmão Abele matou-o » (Gn 4,
8): na raiz da violência contra a vida
7. « Deus
não é o autor da morte, a perdição dos vivos não Lhe dá nenhuma
alegria. Porquanto Ele criou tudo para a existência. (...) Com efeito,
Deus criou o homem para a incorruptibilidade, e fê- -lo à
imagem da sua própria natureza. Por inveja do demónio é que a morte
entrou no mundo e prová-la-ão os que pertencem ao demónio » (Sab
1, 13-14; 2, 23-24).
O
Evangelho da vida, que ressoa, logo ao princípio, com a criação do
homem à imagem de Deus para um destino de vida plena e perfeita (cf.
Gn 2, 7; Sab 9, 2-3), vê-se contestado pela experiência
dilacerante da morte que entra no mundo, lançando o espectro da
falta de sentido sobre toda a existência do homem.
A morte
entra por causa da inveja do diabo (cf. Gn 3, 1.4-5) e do
pecado dos primeiros pais (cf. Gn 2, 17; 3, 17-19). E entra de
modo violento, através do assassínio de Abel por obra do seu irmão:
« Logo que chegaram ao campo, Caim levantou a mão contra o irmão
Abel e matou-o » (Gn 4, 8).
Este
primeiro assassínio é apresentado, com singular eloquência, numa
página paradigmática do Livro do Génesis: página transcrita cada dia,
sem cessar e com degradante repetição, no livro da história dos povos.
Queremos
ler de novo, juntos, esta página bíblica, que, apesar do seu aspecto
arcaico e extrema simplicidade, se apresenta riquíssima de
ensinamentos.
« Abel
foi pastor; e Caim, lavrador. Ao fim de algum tempo, Caim apresentou
ao Senhor uma oferta de frutos da terra. Por seu lado, Abel ofereceu
primogénitos do seu rebanho e as gorduras deles. O Senhor olhou
favoravelmente para Abel e para a sua oferta, mas não olhou para Caim
nem para a sua oferta.
Caim
ficou muito irritado e o rosto transtornou- -se-lhe. O Senhor disse a
Caim: "Porque estás zangado e o teu rosto abatido? Se procederes bem,
certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado
deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem
muita inclinação para ti, mas deves dominá-lo".
Entretanto, Caim disse a Abel, seu irmão: "Vamos ao campo". Porém,
logo que chegaram ao campo, Caim levantou a mão contra o irmão Abel e
matou-o.
O Senhor
disse a Caim: "Onde está Abel, teu irmão?" Caim respondeu: "Não sei
dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?" O Senhor replicou: "Que
fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim. De
futuro, serás maldito sobre a terra que abriu a sua boca para beber da
tua mão o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, negar-te-á as suas
riquezas. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra".
Caim
disse ao Senhor: "A minha culpa é grande demais para obter perdão!
Expulsas-me hoje desta terra; obrigado a ocultar-me longe da tua face,
terei de andar fugitivo e vagabundo pela terra, e o primeiro a
encontrar-me matar-me-á".
O Senhor
respondeu: "Não, se alguém matar Caim, será castigado sete vezes
mais". E o Senhor marcou-o com um sinal, a fim de nunca ser morto por
quem o viesse a encontrar. Caim afastou-se da presença do Senhor e foi
residir na região de Nod, ao oriente do Éden » (Gn 4,
2-16).
8. Caim
está « muito irritado » e tem o rosto « transtornado », porque « o
Senhor olhou favoravelmente para Abel e para a sua oferta » (Gn
4, 4). O texto bíblico não revela o motivo pelo qual Deus preferiu o
sacrifício de Abel ao de Caim; mas indica claramente que, mesmo
preferindo a oferta de Abel, não interrompe o seu diálogo com Caim.
Acautela-o, recordando-lhe a sua liberdade frente ao mal: o
homem não está de forma alguma predestinado para o mal. Certamente, à
semelhança de Adão, ele é tentado pela força maléfica do pecado que,
como um animal feroz, se agacha à porta do seu coração, à espera de
lançar-se sobre a presa. Mas Caim permanece livre diante do pecado.
Pode e deve dominá-lo: « Cuidado, pois ele tem muita inclinação para
ti, mas deves dominá-lo » (Gn 4, 7).
Sobre a
advertência feita pelo Senhor, porém, levam a melhor o ciúme e a
ira, e Caim atira-se contra o próprio irmão e mata-o. Como lemos
no Catecismo da Igreja Católica, « a Sagrada Escritura, na
narrativa da morte de Abel por seu irmão Caim, revela, desde os
primórdios da história humana, a presença no homem da cólera e da
inveja, consequências do pecado original. O homem tornou-se inimigo do
seu semelhante ». 10
O irmão
mata o irmão. Como naquele primeiro fratricídio, também em cada
homicídio é violado o parentesco « espiritual » que congrega os
homens numa única grande família, 11 sendo todos participantes do
mesmo bem fundamental: a igual dignidade pessoal. E, não raro, resulta
violado também o parentesco « da carne e do sangue », quando,
por exemplo, as ameaças à vida se verificam ao nível do relacionamento
pais e filhos, como sucede com o aborto ou quando, no mais vasto
contexto familiar ou de parentela, é encorajada ou provocada a
eutanásia.
Na raiz de
qualquer violência contra o próximo, há uma cedência à « lógica »
do maligno, isto é, daquele que « foi assassino desde o princípio
» (Jo 8, 44), como nos recorda o apóstolo João: « Porque esta é
a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos
outros. Não seja como Caim que era do maligno, e matou o seu irmão » (1
Jo 3, 11-12). Assim o assassinato do irmão, desde os alvores da
história, é o triste testemunho de como o mal progride com rapidez
impressionante: à revolta do homem contra Deus no paraíso terreal
segue-se a luta mortal do homem contra o homem.
Depois do
crime, Deus intervém para vingar a vítima. Frente a Deus que o
interroga sobre a sorte de Abel, Caim, em vez de se mostrar confundido
e desculpar-se, esquiva-se à pergunta com arrogância: « Não sei dele.
Sou, porventura, guarda do meu irmão? » (Gn 4, 9). « Não sei
dele »: com a mentira, Caim procura encobrir o crime. Assim
aconteceu frequentemente e continua a verificar-se quando se servem
das mais diversas ideologias para justificar e mascarar os crimes mais
atrozes contra a pessoa. « Sou, porventura, guarda do meu irmão? »:
Caim não quer pensar no irmão, e recusa-se a assumir aquela
responsabilidade que cada homem tem pelo outro. Saltam espontaneamente
ao pensamento as tendências actuais para sonegar a responsabilidade do
homem pelo seu semelhante, de que são sintomas, entre outros, a falta
de solidariedade com os membros mais débeis da sociedade — como são os
idosos, os doentes, os imigrantes, as crianças —, e a indiferença que
tantas vezes se regista nas relações entre os povos, mesmo quando
estão em jogo valores fundamentais como a sobrevivência, a liberdade e
a paz.
9. Mas Deus
não pode deixar impune o crime: da terra onde foi derramado, o sangue
da vítima exige que Ele faça justiça (cf. Gn 37, 26; Is
26, 21; Ez 24, 7-8). Deste texto, a Igreja retirou a
denominação de « pecados que bradam ao Céu », incluindo em primeiro
lugar o homicídio voluntário. 12 Para os hebreus, como para muitos
povos da antiguidade, o sangue é a sede da vida, ou melhor « o sangue
é a vida » (Dt 12, 23), e a vida, sobretudo a humana, pertence
unicamente a Deus: por isso, quem atenta contra a vida do homem, de
algum modo atenta contra o próprio Deus.
Caim
é amaldiçoado por Deus como também pela terra, que lhe recusará os
seus frutos (cf. Gn 4, 11-12). E épunido: habitará em
terras agrestes e desertas. A violência homicida altera profundamente
o ambiente da vida do homem. A terra, que era o « jardim do Éden » (Gn
2, 15), lugar de abundância, de serenas relações interpessoais e
de amizade com Deus, torna-se o « país de Nod » (Gn 4, 16),
lugar de « miséria », de solidão e de afastamento de Deus. Caim será «
fugitivo e vagabundo pela terra » (Gn 4, 14): dúvida e
instabilidade sempre o acompanharão.
Contudo
Deus, misericordioso mesmo quando castiga, « marcou 1 com um sinal,
a fim de nunca ser morto por quem o viesse a encontrar » (Gn
4, 15): põe-lhe um sinal, cujo objectivo não é condená-lo à
abominação dos outros homens, mas protegê-lo e defendê-lo daqueles que
o quiserem matar, ainda que seja para vingar a morte de Abel. Nem
sequer o homicida perde a sua dignidade pessoal e o próprio Deus
Se constitui seu garante. E é precisamente aqui que se manifesta o
mistério paradoxal da justiça misericordiosa de Deus, como escreve
Santo Ambrósio: « Visto que tinha sido cometido um fratricídio — ou
seja, o maior dos crimes —, no momento em que se introduziu o pecado,
teve imediatamente de ser ampliada a lei da misericórdia divina; para
que, caso o castigo atingisse imediatamente o culpado, não sucedesse
que os homens, ao punirem, não usassem de qualquer tolerância nem
mansidão, mas entregassem imediatamente ao castigo os culpados. (...)
Deus repeliu Caim da sua presença e, renegado pelos seus pais, como
que o desterrou para o exílio de uma habitação separada, pelo facto de
ter passado da mansidão humana à crueldade selvagem. Todavia Deus não
quer punir o homicida com um homicídio, porque prefere o
arrependimento do pecador à sua morte ». 13 |
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« Que
fizeste? » (Gn 4, 10): o eclipse do valor da vida
10. O
Senhor disse a Caim: « Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama
da terra até Mim » (Gn 4, 10). A voz do sangue derramado
pelos homens não cessa de clamar, de geração em geração, assumindo
tons e acentos sempre novos e diversos.
A pergunta
do Senhor « que fizeste? », à qual Caim não se pode esquivar, é
dirigida também ao homem contemporâneo, para que tome consciência da
amplitude e gravidade dos atentados à vida que continuam a registar-se
na história da humanidade, para que vá à procura das múltiplas causas
que os geram e alimentam, e, enfim, para que reflita com extrema
seriedade sobre as consequências que derivam desses mesmos atentados
para a existência das pessoas e dos povos.
Algumas
ameaças provêm da própria natureza, mas são agravadas pelo descuido
culpável e pela negligência dos homens que, não raro, lhes poderiam
dar remédio; outras, ao contrário, são fruto de situações de
violência, de ódio, de interesses contrapostos, que induzem homens a
agredirem outros homens com homicídios, guerras, massacres,
genocídios.
Como não
pensar na violência causada à vida de milhões de seres humanos,
especialmente crianças, constrangidos à miséria, à subnutrição e à
fome, por causa da iníqua distribuição das riquezas entre os povos e
entre as classes sociais? Ou na violência inerente às guerras, e ainda
antes delas, ao escandaloso comércio de armas, que favorece o
torvelinho de tantos conflitos armados que ensanguentam o mundo? Ou
então na sementeira de morte que se provoca com a imprudente alteração
dos equilíbrios ecológicos, com a criminosa difusão da droga, ou com a
promoção do uso da sexualidade segundo modelos que, além de serem
moralmente inaceitáveis, acarretam ainda graves riscos para a vida? É
impossível registar de modo completo a vasta gama das ameaças à vida
humana, tantas são as formas, abertas ou camufladas, de que se
revestem no nosso tempo!
11. Mas
queremos concentrar a nossa atenção, de modo particular, sobre
outro género de atentados, relativos à vida nascente e terminal,
que apresentam novas características em relação ao passado e
levantam problemas de singular gravidade: é que, na consciência
colectiva, aqueles tendem a perder o carácter de « crimes » para
assumir, paradoxalmente, o carácter de « direitos », a ponto de se
pretender um verdadeiro e próprioreconhecimento legal da parte do
Estado e a consequente execução gratuita por intermédio dos
profissionais da saúde. Tais atentados ferem a vida humana em
situações de máxima fragilidade, quando se acha privada de qualquer
capacidade de defesa. Mais grave ainda é o facto de serem consumados,
em grande parte, mesmo no seio e por obra da família que está, pelo
contrário, chamada constitutivamente a ser « santuário da vida ».
Como se
pôde criar semelhante situação? Há que tomar em consideração diversos
factores. Como pano de fundo, existe uma crise profunda da cultura,
que gera cepticismo sobre os próprios fundamentos do conhecimento e da
ética e torna cada vez mais difícil compreender claramente o sentido
do homem, dos seus direitos e dos seus deveres. A isto, vêm juntar-se
as mais diversas dificuldades existenciais e interpessoais, agravadas
pela realidade de uma sociedade complexa, onde frequentemente as
pessoas, os casais, as famílias são deixadas sozinhas a braços com os
seus problemas. Não faltam situações de particular pobreza, angústia e
exasperação, onde a luta pela sobrevivência, a dor nos limites do
suportável, as violências sofridas, especialmente aquelas que investem
as mulheres, tornam por vezes exigentes até ao heroísmo as opções de
defesa e promoção da vida.
Tudo isto
explica — pelo menos em parte — como possa o valor da vida sofrer hoje
uma espécie de « eclipse », apesar da consciência não cessar de o
apontar como valor sagrado e intocável; e comprova-o o próprio
fenómeno de se procurar encobrir alguns crimes contra a vida nascente
ou terminal com expressões de âmbito terapêutico, que desviam o olhar
do facto de estar em jogo o direito à existência de uma pessoa humana
concreta.
12. Com
efeito, se muitos e graves aspectos da problemática social actual
podem, de certo modo, explicar o clima de difusa incerteza moral e,
por vezes, atenuar a responsabilidade subjectiva no indivíduo, não é
menos verdade que estamos perante uma realidade mais vasta que se pode
considerar como verdadeira e própria estrutura de pecado,
caracterizada pela imposição de uma cultura anti-solidária, que em
muitos casos se configura como verdadeira « cultura de morte ». É
activamente promovida por fortes correntes culturais, económicas e
políticas, portadoras de uma concepção eficientista da sociedade.
Olhando as
coisas deste ponto de vista, pode-se, em certo sentido, falar de uma
guerra dos poderosos contra os débeis: a vida que requereria
mais acolhimento, amor e cuidado, é reputada inútil ou considerada
como um peso insuportável, e, consequentemente, rejeitada sob
múltiplas formas. Todo aquele que, pela sua enfermidade, a sua
deficiência ou, mais simplesmente ainda, a sua própria presença, põe
em causa o bem-estar ou os hábitos de vida daqueles que vivem mais
avantajados, tende a ser visto como um inimigo do qual defender-se ou
um inimigo a eliminar. Desencadeia-se assim uma espécie de «
conjura contra a vida ». Esta não se limita apenas a tocar os
indivíduos nas suas relações pessoais, familiares ou de grupo, mas
alarga-se muito para além até atingir e subverter, a nível mundial, as
relações entre os povos e os Estados.
13. Para
facilitar a difusão do aborto, foram investidas — e continuam a
sê-lo — somas enormes, destinadas à criação de fármacos que tornem
possível a morte do feto no ventre materno, sem necessidade de
recorrer à ajuda do médico. A própria investigação científica, neste
âmbito, parece quase exclusivamente preocupada em obter produtos cada
vez mais simples e eficazes contra a vida e, ao mesmo tempo, capazes
de subtrair o aborto a qualquer forma de controlo e responsabilidade
social.
Afirma-se
frequentemente que a contracepção, tornada segura e acessível a
todos, é o remédio mais eficaz contra o aborto. E depois acusa-se a
Igreja Católica de, na realidade, favorecer o aborto, porque continua
obstinadamente a ensinar a ilicitude moral da contracepção.
Bem vista,
porém, a objecção é falaciosa. De facto, pode acontecer que muitos
recorram aos contraceptivos com a intenção também de evitar depois a
tentação do aborto. Mas os pseudo-valores inerentes à « mentalidade
contraceptiva » — muito diversa do exercício responsável da
paternidade e maternidade, actuada no respeito pela verdade plena do
acto conjugal — são tais que tornam ainda mais forte essa tentação, na
eventualidade de ser concebida uma vida não desejada. De facto, a
cultura pro-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes
que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. Certo é que
a contracepção e o aborto são males especificamente diversos do
ponto de vista moral: uma contradiz a verdade integral do acto sexual
enquanto expressão própria do amor conjugal, o outro destrói a vida de
um ser humano; a primeira opõe-se à virtude da castidade matrimonial,
o segundo opõe-se à virtude da justiça e viola directamente o preceito
divino « não matarás ».
Mas, apesar
de terem natureza e peso moral diversos, eles surgem, com muita
frequência, intimamente relacionados como frutos da mesma planta. É
verdade que não faltam casos onde, à contracepção e ao próprio aborto
se vem juntar a pressão de diversas dificuldades existenciais que, no
entanto, não podem nunca exonerar do esforço de observar plenamente a
lei de Deus. Mas, em muitíssimos outros casos, tais práticas afundam
as suas raízes numa mentalidade hedonista e desresponsabilizadora da
sexualidade, e supõem um conceito egoísta da liberdade que vê na
procriação um obstáculo ao desenvolvimento da própria personalidade. A
vida que poderia nascer do encontro sexual torna-se assim o inimigo
que se há-de evitar absolutamente, e o aborto a única solução possível
diante de uma contracepção falhada.
Infelizmente, emerge cada vez mais a estreita conexão que existe, a
nível de mentalidade, entre as práticas da contracepção e do aborto,
como o demonstra, de modo alarmante, a produção de fármacos,
dispositivos intra-uterinos e preservativos, os quais, distribuídos
com a mesma facilidade dos contraceptivos, actuam na prática como
abortivos nos primeiros dias de desenvolvimento da vida do novo ser
humano.
14. Também
as várias técnicas de reprodução artificial, que pareceriam
estar ao serviço da vida e que, não raro, são praticadas com essa
intenção, na realidade abrem a porta a novos atentados contra a vida.
Para além do facto de serem moralmente inaceitáveis, porquanto separam
a procriação do contexto integralmente humano do acto conjugal, 14
essas técnicas registam altas percentagens de insucesso: este diz
respeito não tanto à fecundação como sobretudo ao desenvolvimento
sucessivo do embrião, sujeito ao risco de morte em tempos geralmente
muito breves. Além disso, são produzidos às vezes embriões em número
superior ao necessário para a implantação no útero da mulher e esses,
chamados « embriões supranumerários », são depois suprimidos ou
utilizados para pesquisas que, a pretexto de progresso científico ou
médico, na realidade reduzem a vida humana a simples « material
biológico », de que se pode livremente dispor.
Os
diagnósticos pré-natais, que não apresentam dificuldades morais
quando feitos para individuar a eventualidade de curas necessárias à
criança ainda no seio materno, tornam-se, com muita frequência,
ocasião para propor e solicitar o aborto. É o aborto eugénico, cuja
legitimação, na opinião pública, nasce de uma mentalidade — julgada,
erradamente, coerente com as exigências « terapêuticas » — que acolhe
a vida apenas sob certas condições, e que recusa a limitação, a
deficiência, a enfermidade.
Seguindo a
mesma lógica, chegou-se a negar os cuidados ordinários mais
elementares, mesmo até a alimentação, a crianças nascidas com graves
deficiências ou enfermidades. E o cenário contemporâneo apresenta-se
ainda mais desconcertante com as propostas — avançadas aqui e além —
para, na mesma linha do direito ao aborto, se legitimar até o
infanticídio, retornando assim a um estado de barbárie que se
esperava superado para sempre.
15. Ameaças
não menos graves pesam também sobre os doentes incuráveis e os
doentes terminais, num contexto social e cultural que, tornando
mais difícil enfrentar e suportar o sofrimento, aviva a tentação de
resolver o problema do sofrimento eliminando-o pela raiz, com a
antecipação da morte para o momento considerado mais oportuno.
Para tal
decisão concorrem, muitas vezes, elementos de natureza diversa mas
infelizmente convergentes para essa terrível saída. Pode ser decisivo,
na pessoa doente, o sentimento de angústia, exasperação, ou até
desespero, provocado por uma experiência de dor intensa e prolongada.
Vêem-se, assim, duramente postos à prova os equilíbrios, por vezes já
abalados, da vida pessoal e familiar, de maneira que, por um lado, o
doente, não obstante os auxílios cada vez mais eficazes da assistência
médica e social, corre o risco de se sentir esmagado pela própria
fragilidade; por outro lado, naqueles que lhe estão afectivamente
ligados, pode gerar-se um sentimento de compreensível, ainda que
mal-entendida, compaixão. Tudo isto fica agravado por uma atmosfera
cultural que não vê qualquer significado nem valor no sofrimento,
antes considera-o como o mal por excelência, que se há-de eliminar a
todo o custo; isto verifica- -se especialmente quando não se possui
uma visão religiosa que ajude a decifrar positivamente o mistério da
dor.
Mas, no
conjunto do horizonte cultural, não deixa de incidir também uma
espécie de atitude prometéica do homem que, desse modo, se ilude de
poder apropriar-se da vida e da morte para decidir delas, quando na
realidade acaba derrotado e esmagado por uma morte irremediavelmente
fechada a qualquer perspectiva de sentido e a qualquer esperança. Uma
trágica expressão de tudo isto, encontramo-la na difusão da
eutanásia, ora mascarada e subreptícia, ora actuada abertamente e
até legalizada. Para além do motivo de presunta compaixão diante da
dor do paciente, às vezes pretende-se justificar a eutanásia também
com uma razão utilitarista, isto é, para evitar despesas improdutivas
demasiado gravosas para a sociedade. Propõe-se, assim, a supressão dos
recém-nascidos defeituosos, dos deficientes profundos, dos inválidos,
dos idosos, sobretudo quando não auto-suficientes, e dos doentes
terminais. Nem nos é lícito calar frente a outras formas mais
astuciosas, mas não menos graves e reais, de eutanásia, como são as
que se poderiam verificar, por exemplo, quando, para aumentar a
disponibilidade de material para transplantes, se procedesse à
extracção dos órgãos sem respeitar os critérios objectivos e adequados
de certificação da morte do dador.
16. Outro
motivo actual, que frequentemente é acompanhado por ameaças e
atentados à vida, é o fenómeno demográfico. Este reveste
aspectos diversos, nas várias partes do mundo: nos países ricos e
desenvolvidos, regista-se uma preocupante diminuição ou queda da
natalidade; os países pobres, ao contrário, apresentam em geral uma
elevada taxa de aumento da população, dificilmente suportável num
contexto de menor progresso económico e social, ou até de grave
subdesenvolvimento. Face ao sobrepovoamento dos países pobres,
verifica-se, a nível internacional, a falta de intervenções globais —
sérias políticas familiares e sociais, programas de crescimento
cultural e de justa produção e distribuição dos recursos — enquanto se
continuam a actuar políticas anti-natalistas.
Devendo,
sem dúvida, incluir-se a contracepção, a esterilização e o aborto
entre as causas que contribuem para determinar as situações de forte
queda da natalidade, pode ser fácil a tentação de recorrer aos mesmos
métodos e atentados contra a vida, nas situações de « explosão
demográfica ».
O antigo
Faraó, sentindo como um íncubo a presença e a multiplicação dos filhos
de Israel, sujeitou-os a todo o tipo de opressão e ordenou que fossem
mortas todas as crianças do sexo masculino (cf. Ex 1, 7-22). Do
mesmo modo se comportam hoje bastantes poderosos da terra.
Também
estes vêem como um íncubo o crescimento demográfico em acto, e temem
que os povos mais prolíferos e mais pobres representem uma ameaça para
o bem-estar e a tranquilidade dos seus países. Consequentemente, em
vez de procurarem enfrentar e resolver estes graves problemas dentro
do respeito da dignidade das pessoas e das famílias e do inviolável
direito de cada homem à vida, preferem promover e impor, por qualquer
meio, um maciço planeamento da natalidade. As próprias ajudas
económicas, que se dizem dispostos a dar, ficam injustamente
condicionadas à aceitação desta política anti-natalista.
17. A
humanidade de hoje oferece-nos um espectáculo verdadeiramente
alarmante, se pensarmos não só aos diversos âmbitos em que se realizam
os atentados à vida, mas também à singular dimensão numérica dos
mesmos, bem como ao múltiplo e poderoso apoio que lhes é dado pelo
amplo consenso social, pelo frequente reconhecimento legal, pelo
envolvimento de uma parte dos profissionais da saúde.
Como senti
dever bradar em Denver, por ocasião do VIII Dia Mundial da Juventude,
« com o tempo, as ameaças contra a vida não diminuíram. Elas, ao
contrário, assumem dimensões enormes. Não se trata apenas de ameaças
vindas do exterior, de forças da natureza ou dos « Cains » que
assassinam os « Abéis »; não, trata-se de ameaças programadas de
maneira científica e sistemática. O século XX ficará considerado
uma época de ataques maciços contra a vida, uma série infindável de
guerras e um massacre permanente de vidas humanas inocentes. Os falsos
profetas e os falsos mestres conheceram o maior sucesso possível ». 15
Para além das intenções, que podem ser várias e quiçá assumir formas
persuasivas em nome até da solidariedade, a verdade é que estamos
perante uma objectiva « conjura contra a vida » que vê também
implicadas Instituições Internacionais, empenhadas a encorajar e
programar verdadeiras e próprias campanhas para difundir a
contracepção, a esterilização e o aborto. Não se pode negar, enfim,
que os mass-media são frequentemente cúmplices dessa conjura, ao
abonarem junto da opinião pública aquela cultura que apresenta o
recurso à contracepção, à esterilização, ao aborto e à própria
eutanásia como sinal do progresso e conquista da liberdade, enquanto
descrevem como inimigas da liberdade e do progresso as posições
incondicionalmente a favor da vida. |
|
«
Sou, porventura, guarda do meu irmão? » (Gn 4, 9): uma
noção perversa de liberdade
18. O
panorama descrito requer ser conhecido não somente nos fenómenos de
morte que o caracterizam, mas também nas múltiplas causas que o
determinam. A pergunta do Senhor « que fizeste? » (Gn 4, 10)
quase parece um convite dirigido a Caim para que, ultrapassando a
materialidade do gesto homicida, veja toda a gravidade nas
motivações que estão na sua origem e nas consequências que
dele derivam.
As opções
contra a vida nascem, às vezes, de situações difíceis ou mesmo
dramáticas de profundo sofrimento, de solidão, de carência total de
perspectivas económicas, de depressão e de angústia pelo futuro. Estas
circunstâncias podem atenuar, mesmo até notavelmente, a
responsabilidade subjectiva e, consequentemente, a culpabilidade
daqueles que realizam tais opções em si mesmas criminosas. Hoje,
todavia, o problema estende-se muito para além do reconhecimento,
sempre necessário, destas situações pessoais. Põe-se também no plano
cultural, social e político, onde apresenta o seu aspecto mais
subversivo e perturbador na tendência, cada vez mais largamente
compartilhada, de interpretar os mencionados crimes contra a vida como
legítimas expressões da liberdade individual, que hão-de ser
reconhecidas e protegidas como verdadeiros e próprios direitos.
Chega assim
a uma viragem de trágicas consequências, um longo processo histórico,
o qual, depois de ter descoberto o conceito de « direitos humanos » —
como direitos inerentes a cada pessoa e anteriores a qualquer
Constituição e legislação dos Estados —, incorre hoje numa estranha
contradição: precisamente numa época em que se proclamam
solenemente os direitos invioláveis da pessoa e se afirma publicamente
o valor da vida, o próprio direito à vida é praticamente negado e
espezinhado, particularmente nos momentos mais emblemáticos da
existência, como são o nascer e o morrer.
Por um
lado, as várias declarações dos direitos do homem e as múltiplas
iniciativas que nelas se inspiram, indicam a consolidação a nível
mundial de uma sensibilidade moral mais diligente em reconhecer o
valor e a dignidade de cada ser humano enquanto tal, sem qualquer
distinção de raça, nacionalidade, religião, opinião política, estrato
social.
Por outro
lado, a estas nobres proclamações contrapõem-se, infelizmente nos
factos, a sua trágica negação. Esta é ainda mais desconcertante, antes
mais escandalosa, precisamente porque se realiza numa sociedade que
faz da afirmação e tutela dos direitos humanos o seu objectivo
principal e, conjuntamente, o seu título de glória. Como pôr de acordo
essas repetidas afirmações de princípio com a contínua multiplicação e
a difusa legitimação dos atentados à vida humana? Como conciliar estas
declarações com a recusa do mais débil, do mais carenciado, do idoso,
daquele que acaba de ser concebido? Estes atentados encaminham-se
exactamente na direcção contrária à do respeito pela vida e
representam uma ameaça frontal a toda a cultura dos direitos do
homem. É uma ameaça capaz, em última análise, de pôr em risco o
próprio significado da convivência democrática: de sociedade de «
con-viventes », as nossas cidades correm o risco de passar a sociedade
de excluídos, marginalizados, irradiados e suprimidos. Se depois o
olhar se alarga ao horizonte mundial, como não pensar que a afirmação
dos direitos das pessoas e dos povos, verificada em altas reuniões
internacionais, se reduz a um estéril exercício retórico, se lá não é
desmascarado o egoísmo dos países ricos que fecham aos países pobres o
acesso ao desenvolvimento ou o condicionam a proibições absurdas de
procriação, contrapondo o progresso ao homem? Porventura não é de pôr
em discussão os próprios modelos económicos, adoptados pelos Estados
frequentemente também por pressões e condicionamentos de carácter
internacional, que geram e alimentam situações de injustiça e
violência, nas quais a vida humana de populações inteiras fica
degradada e espezinhada?
19. Onde
estão as raízes de uma contradição tão paradoxal?
Podemo-las
individuar em avaliações globais de ordem cultural e moral, a começar
daquela mentalidade que, exasperando e até deformando o conceito de
subjectividade, só reconhece como titular de direitos quem se
apresente com plena ou, pelo menos, incipiente autonomia e esteja fora
da condição de total dependência dos outros. Mas, como conciliar tal
impostação com a exaltação do homem enquanto ser « não-disponível
»? A teoria dos direitos humanos funda-se precisamente na
consideração do facto de o homem, ao contrário dos animais e das
coisas, não poder estar sujeito ao domínio de ninguém. Deve-se acenar
ainda àquela lógica que tende a identificar a dignidade pessoal com
a capacidade de comunicação verbal e explícita e, em todo o caso,
experimentável. Claro que, com tais pressupostos, não há espaço no
mundo para quem, como o nascituro ou o doente terminal, é um sujeito
estruturalmente débil, parece totalmente à mercê de outras pessoas e
radicalmente dependente delas, e sabe comunicar apenas mediante a
linguagem muda de uma profunda simbiose de afectos. Assim a força
torna-se o critério de decisão e de acção, nas relações interpessoais
e na convivência social. Mas isto é precisamente o contrário daquilo
que, historicamente, quis afirmar o Estado de direito, como comunidade
onde as « razões da força » são substituídas pela « força da razão ».
A outro
nível, as raízes da contradição que se verifica entre a solene
afirmação dos direitos do homem e a sua trágica negação na prática,
residem numa concepção da liberdade que exalta o indivíduo de
modo absoluto e não o predispõe para a solidariedade, o pleno
acolhimento e serviço do outro. Se é certo que, por vezes, a supressão
da vida nascente ou terminal aparece também matizada com um sentido
equivocado de altruísmo e de compaixão humana, não se pode negar que
tal cultura de morte, no seu todo, manifesta uma concepção da
liberdade totalmente individualista que acaba por ser a liberdade dos
« mais fortes » contra os débeis, destinados a sucumbir.
Precisamente neste sentido, se pode interpretar a resposta de Caim à
pergunta do Senhor « onde está Abel, teu irmão? »: « Não sei dele.
Sou, porventura, guarda do meu irmão? » (Gn 4, 9). Sim, todo o
homem é « guarda do seu irmão », porque Deus confia o homem ao homem.
E é tendo em vista também tal entrega que Deus dá a cada homem a
liberdade, que possui uma dimensão relacional essencial.
Trata-se de um grande dom do Criador, quando colocada como deve ser ao
serviço da pessoa e da sua realização mediante o dom de si e o
acolhimento do outro; quando, pelo contrário, a liberdade é
absolutizada em chave individualista, fica esvaziada do seu conteúdo
originário e contestada na sua própria vocação e dignidade.
Mas há um
aspecto ainda mais profundo a sublinhar: a liberdade renega-se a si
mesma, autodestrói-se e predispõe-se à eliminação do outro, quando
deixa de reconhecer e respeitar a sua ligação constitutiva com a
verdade. Todas as vezes que a razão humana, querendo emancipar-se
de toda e qualquer tradição e autoridade, se fecha até às evidências
primárias de uma verdade objectiva e comum, fundamento da vida pessoal
e social, a pessoa acaba por assumir como única e indiscutível
referência para as próprias decisões, não já a verdade sobre o bem e o
mal, mas apenas a sua subjectiva e volúvel opinião ou, simplesmente, o
seu interesse egoísta e o seu capricho.
20. Nesta
concepção da liberdade, a convivência social fica profundamente
deformada. Se a promoção do próprio eu é vista em termos de
autonomia absoluta, inevitavelmente chega-se à negação do outro, visto
como um inimigo de quem defender-se. Deste modo, a sociedade torna-se
um conjunto de indivíduos, colocados uns ao lado dos outros mas sem
laços recíprocos: cada um quer afirmar-se independentemente do outro,
mais, quer fazer prevalecer os seus interesses. Todavia, na presença
de análogos interesses da parte do outro, terá de se render a procurar
qualquer forma de compromisso, se se quer que, na sociedade, seja
garantido a cada um o máximo de liberdade possível. Deste modo,
diminui toda a referência a valores comuns e a uma verdade absoluta
para todos: a vida social aventura-se pelas areias movediças de um
relativismo total. Então, tudo é convencional, tudo é negociável:
inclusivamente o primeiro dos direitos fundamentais, o da vida.
É aquilo
que realmente acontece, mesmo no âmbito mais especificamente político
e estatal: o primordial e inalienável direito à vida é posto em
discussão ou negado com base num voto parlamentar ou na vontade de uma
parte — mesmo que seja maioritária — da população. É o resultado
nefasto de um relativismo que reina incontestado: o próprio « direito
» deixa de o ser, porque já não está solidamente fundado sobre a
inviolável dignidade da pessoa, mas fica sujeito à vontade do mais
forte. Deste modo e para descrédito das suas regras, a democracia
caminha pela estrada de um substancial totalitarismo. O Estado deixa
de ser a « casa comum », onde todos podem viver segundo princípios de
substancial igualdade, e transforma-se num Estado tirano, que
presume de poder dispor da vida dos mais débeis e indefesos, desde a
criança ainda não nascida até ao idoso, em nome de uma utilidade
pública que, na realidade, não é senão o interesse de alguns.
Tudo parece
acontecer no mais firme respeito da legalidade, pelo menos quando as
leis, que permitem o aborto e a eutanásia, são votadas segundo as
chamadas regras democráticas. Na verdade, porém, estamos perante uma
mera e trágica aparência de legalidade, e o ideal democrático, que é
verdadeiramente tal apenas quando reconhece e tutela a dignidade de
toda a pessoa humana, é atraiçoado nas suas próprias bases: «
Como é possível falar ainda de dignidade de toda a pessoa humana,
quando se permite matar a mais débil e a mais inocente? Em nome de
qual justiça se realiza a mais injusta das discriminações entre as
pessoas, declarando algumas dignas de ser defendidas, enquanto a
outras esta dignidade é negada? ». 16 Quando se verificam tais
condições, estão já desencadeados aqueles mecanismos que levam à
dissolução da convivência humana autêntica e à desagregação da própria
realidade estatal.
Reivindicar
o direito ao aborto, ao infanticídio, à eutanásia, e reconhecê-lo
legalmente, equivale a atribuir à liberdade humana um significado
perverso e iníquo: o significado de um poder absoluto sobre os
outros e contra os outros. Mas isto é a morte da verdadeira
liberdade: « Em verdade, em verdade vos digo: todo aquele que comete o
pecado é escravo do pecado » (Jo 8, 34). |
|
«
Obrigado a ocultar-me longe da tua face » (Gn 4, 14): o
eclipse do sentido de Deus e do homem
21. Quando
se procuram as raízes mais profundas da luta entre a « cultura da vida
» e a « cultura da morte », não podemos deter-nos na noção perversa de
liberdade acima referida. É necessário chegar ao coração do drama
vivido pelo homem contemporâneo: o eclipse do sentido de Deus e do
homem, típico de um contexto social e cultural dominado pelo
secularismo que, com os seus tentáculos invasivos, não deixa às vezes
de pôr à prova as próprias comunidades cristãs. Quem se deixa
contagiar por esta atmosfera, entra facilmente na voragem de um
terrível círculo vicioso: perdendo o sentido de Deus, tende-se a
perder também o sentido do homem, da sua dignidade e da sua vida;
por sua vez, a sistemática violação da lei moral, especialmente na
grave matéria do respeito da vida humana e da sua dignidade, produz
uma espécie de ofuscamento progressivo da capacidade de enxergar a
presença vivificante e salvífica de Deus.
Podemos,
mais uma vez, inspirar-nos na narração da morte de Abel provocada pelo
seu irmão. Depois da maldição infligida por Deus a Caim, este
dirige-se ao Senhor dizendo: « A minha culpa é grande demais para
obter perdão. Expulsas-me hoje desta terra;obrigado a ocultar-me
longe da tua face, terei de andar fugitivo e vagabundo pela terra,
e o primeiro a encontrar-me matar-me-á » (Gn 4, 13-14).
Caim pensa
que o seu pecado não poderá obter perdão do Senhor e que o seu destino
inevitável será « ocultar-se longe » d'Ele. Se Caim chega a confessar
que a sua culpa é « grande demais », é por saber que se encontra
diante de Deus e do seu justo juízo. Na realidade, só diante do Senhor
é que o homem pode reconhecer o seu pecado e perceber toda a sua
gravidade. Tal foi a experiência de David, que, depois « de ter feito
o que é mal aos olhos do Senhor » e de ser repreendido pelo profeta
Natã (cf. 2 Sam 11-12), exclama: « Eu reconheço os meus
pecados, e as minhas culpas tenho-as sempre diante de mim. Pequei
contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos » (Sal
51 50, 5-6).
22. Por
isso, quando declina o sentido de Deus, também o sentido do homem fica
ameaçado e adulterado, como afirma de maneira lapidar o Concílio
Vaticano II: « Sem o Criador, a criatura não subsiste. (...) Antes, se
se esquece Deus, a própria criatura se obscurece ». 17 O homem deixa
de conseguir sentir-se como « misteriosamente outro » face às diversas
criaturas terrenas; considera-se apenas como um de tantos seres vivos,
como um organismo que, no máximo, atingiu um estado muito elevado de
perfeição. Fechado no estreito horizonte da sua dimensão física,
reduz-se de certo modo a « uma coisa », deixando de captar o carácter
« transcendente » do seu « existir como homem ». Deixa de considerar a
vida como um dom esplêndido de Deus, uma realidade « sagrada »
confiada à sua responsabilidade e, consequentemente, à sua amorosa
defesa, à sua « veneração ». A vida torna-se simplesmente « uma coisa
», que ele reivindica como sua exclusiva propriedade, que pode
plenamente dominar e manipular.
Assim,
diante da vida que nasce e da vida que morre, o homem já não é capaz
de se deixar interrogar sobre o sentido mais autêntico da sua
existência, assumindo com verdadeira liberdade estes momentos cruciais
do próprio « ser ». Preocupa-se somente com o « fazer », e, recorrendo
a qualquer forma de tecnologia, moureja a programar, controlar e
dominar o nascimento e a morte. Estes acontecimentos, em vez de
experiências primordiais que requerem ser « vividas », tornam-se
coisas que se pretende simplesmente « possuir » ou « rejeitar ».
Aliás, uma
vez excluída a referência a Deus, não surpreende que o sentido de
todas as coisas resulte profundamente deformado, e a própria natureza,
já não vista como mater 1, fique reduzida a « material »
sujeito a todas as manipulações. A isto parece conduzir certa
mentalidade técnico-científica, predominante na cultura contemporânea,
que nega a ideia mesma de uma verdade própria da criação que se há-de
reconhecer, ou de um desígnio de Deus sobre a vida que temos de
respeitar. E isto não é menos verdade, quando a angústia pelos
resultados de tal « liberdade sem lei » induz alguns à exigência
oposta de uma « lei sem liberdade », como sucede, por exemplo, em
ideologias que contestam a legitimidade de qualquer forma de
intervenção sobre a natureza, como que em nome de uma sua «
divinização », o que uma vez mais menospreza a sua dependência do
desígnio do Criador.
Na
realidade, vivendo « como se Deus não existisse », o homem perde o
sentido não só do mistério de Deus, mas também do mistério do mundo, e
do mistério do seu próprio ser.
23. O
eclipse do sentido de Deus e do homem conduz inevitavelmente ao
materialismo prático, no qual prolifera o individualismo, o
utilitarismo e o hedonismo. Também aqui se manifesta a validade perene
daquilo que escreve o Apóstolo: « Como não procuraram ter de Deus
conhecimento perfeito, entregou-os Deus a um sentimento pervertido, a
fim de que fizessem o que não convinha (Rm 1, 28). Assim os
valores do ser ficam substituídos pelos do ter.
O único fim
que conta, é a busca do próprio bem-estar material. A chamada «
qualidade de vida » é interpretada prevalente ou exclusivamente como
eficiência económica, consumismo desenfreado, beleza e prazer da vida
física, esquecendo as dimensões mais profundas da existência, como são
as interpessoais, espirituais e religiosas.
Em tal
contexto, o sofrimento — peso inevitável da existência humana
mas também factor de possível crescimento pessoal —, é « deplorado »,
rejeitado como inútil, ou mesmo combatido como mal a evitar sempre e
por todos os modos. Quando não é possível superá-lo e a perspectiva de
um bem-estar, pelo menos futuro, se desvanece, parece então que a vida
perdeu todo o significado e cresce no homem a tentação de reivindicar
o direito à sua eliminação.
Sempre no
mesmo horizonte cultural, o corpo deixa de ser visto como
realidade tipicamente pessoal, sinal e lugar da relação com os outros,
com Deus e com o mundo. Fica reduzido à dimensão puramente material: é
um simples complexo de órgãos, funções e energias, que há-de ser usado
segundo critérios de mero prazer e eficiência. Consequentemente,
também a sexualidade fica despersonalizada e instrumentalizada:
em lugar de ser sinal, lugar e linguagem do amor, ou seja, do dom de
si e do acolhimento do outro na riqueza global da pessoa, torna-se
cada vez mais ocasião e instrumento de afirmação do próprio eu e de
satisfação egoísta dos próprios desejos e instintos. Deste modo se
deforma e falsifica o conteúdo original da sexualidade humana, e os
seus dois significados — unitivo e procriativo —, inerentes à própria
natureza do acto conjugal, acabam artificialmente separados: assim a
união é atraiçoada e a fecundidade fica sujeita ao arbítrio do homem e
da mulher. A geração torna-se, então, o « inimigo » a evitar no
exercício da sexualidade: se aceite, é-o apenas porque exprime o
próprio desejo ou mesmo a determinação de ter o filho « a todo o custo
», e não já porque significa total acolhimento do outro e, por
conseguinte, abertura à riqueza de vida que o filho é portador.
Na
perspectiva materialista até aqui descrita, as relações
interpessoais experimentam um grave empobrecimento. E os primeiros
a sofrerem os danos são a mulher, a criança, o enfermo ou atribulado,
o idoso. O critério próprio da dignidade pessoal — isto é, o do
respeito, do altruísmo e do serviço — é substituído pelo critério da
eficiência, do funcional e da utilidade: o outro é apreciado não por
aquilo que « é », mas por aquilo que « tem, faz e rende ». É a
supremacia do mais forte sobre o mais fraco.
24. É no
íntimo da consciência moral que se consuma o eclipse do sentido de
Deus e do homem, com todas as suas múltiplas e funestas consequências
sobre a vida. Em questão está, antes de mais, a consciência de cada
pessoa, onde esta, na sua unicidade e irrepetibilidade, se
encontra a sós com Deus. 18 Mas, em certo sentido, é posta em questão
também a « consciência moral » da sociedade: esta é, de algum
modo, responsável, não só porque tolera ou favorece comportamentos
contrários à vida, mas também porque alimenta a « cultura da morte »,
chegando a criar e consolidar verdadeiras e próprias « estruturas de
pecado » contra a vida. A consciência moral, tanto do indivíduo como
da sociedade, está hoje — devido também à influência invasora de
muitos meios de comunicação social —, exposta a um perigo
gravíssimo e mortal: o perigo da confusão entre o bem e o mal,
precisamente no que se refere ao fundamental direito à vida. Uma parte
significativa da sociedade actual revela-se tristemente semelhante
àquela humanidade que Paulo descreve na Carta aos Romanos. É feita «
de homens que sufocam a verdade na injustiça » (1, 18): tendo renegado
Deus e julgando poder construir a cidade terrena sem Ele, «
desvaneceram nos seus pensamentos », pelo que « se obscureceu o seu
insensato coração » (1, 21); « considerando-se sábios, tornaram-se
néscios » (1, 22), fizeram-se autores de obras dignas de morte, e «
não só as cometem, como também aprovam os que as praticam » (1, 32).
Quando a consciência, esse luminoso olhar da alma (cf. Mt 6,
22-23), chama « bem ao mal e mal ao bem » (Is 5, 20), está já
no caminho da sua degeneração mais preocupante e da mais tenebrosa
cegueira moral.
Mas todos
esses condicionalismos e tentativas de impor silêncio não conseguem
sufocar a voz do Senhor, que ressoa na consciência de cada homem: é
sempre deste sacrário íntimo da consciência que pode recomeçar um novo
caminho de amor, de acolhimento e de serviço à vida humana. |
|
«
Aproximaste-vos do sangue de aspersão » (cf. Heb 12,
22.24): sinais de esperança e convite ao compromisso
25. « A voz
do sangue do teu irmão clama da terra até Mim! » (Gn 4, 10).
Não é só a voz do sangue de Abel, o primeiro inocente morto, a gritar
por Deus, fonte e defensor da vida. Também o sangue de todos os outros
homens, assassinados depois de Abel, é voz que brada ao Senhor. De uma
forma absolutamente única, porém, grita a Deus a voz do sangue de
Cristo, de quem Abel, na sua inocência, é figura profética, como
nos recorda o autor da Carta aos Hebreus: « Vós, porém,
aproximaste-vos do monte de Sião, da cidade do Deus vivo, (...) de
Jesus, o Mediador da Nova Aliança, e de um sangue de aspersão que fala
melhor do que o de Abel » (12, 22.24).
É o
sangue de aspersão. Símbolo e sinal prefigurador dele fora o
sangue dos sacrifícios da Antiga Aliança, com os quais Deus exprimia a
vontade de comunicar a sua vida aos homens, purificando-os e
consagrando-os (cf. Ex 24, 8; Lv 17, 11). Agora em
Cristo, tudo isso se cumpre e realiza: o d'Ele é o sangue de aspersão
que redime, purifica e salva; é o sangue do Mediador da Nova Aliança,
« derramado por muitos, em remissão dos pecados » (Mt 26, 28).
Este sangue, que brota do peito trespassado de Cristo na Cruz (cf.
Jo 19, 34), « fala melhor » do que o sangue de Abel; aquele, com
efeito, exprime e exige uma « justiça » mais profunda, mas sobretudo
implora misericórdia, 19 torna-se junto do Pai intercessão pelos
irmãos (cf. Heb 7, 25), é fonte de perfeita redenção e dom de
vida nova.
O sangue de
Cristo, ao mesmo tempo que revela a grandeza do amor do Pai,
manifesta também como o homem é precioso aos olhos de Deus e quão
inestimável seja o valor da sua vida. Isto mesmo nos recorda o
apóstolo Pedro: « Sabei que fostes resgatados da vossa vã maneira de
viver, recebida por tradição dos vossos pais, não a preço de coisas
corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como
de um cordeiro imaculado e sem defeito algum » (1 Ped 1,
18-19). Contemplando precisamente o sangue precioso de Cristo, sinal
da sua doação de amor (cf. Jo 13, 1), o crente aprende a
reconhecer e a apreciar a dignidade quase divina de cada homem, e pode
exclamar com incessante e agradecida admiração: « Que grande valor
deve ter o homem aos olhos do Criador, se "mereceu tão grande
Redentor" (Precónio Pascal), se "Deus deu o seu Filho", para que ele,
o homem, "não pereça, mas tenha a vida eterna" (cf. Jo 3, 16)
»! 20
Além disso,
o sangue de Cristo revela ao homem que a sua grandeza e,
consequentemente, a sua vocação consiste no dom sincero de si.
Precisamente porque é derramado como dom de vida, o sangue de Jesus já
não é sinal de morte, de separação definitiva dos irmãos, mas
instrumento de uma comunhão que é riqueza de vida para todos. Quem, no
sacramento da Eucaristia, bebe este sangue e permanece em Jesus (cf.
Jo 6, 56), vê-se associado ao mesmo dinamismo de amor e doação
de vida d'Ele, para levar à plenitude a primordial vocação ao amor que
é própria de cada homem (cf. Gn 1, 27; 2, 18-24).
É, enfim,
do sangue de Cristo que todos os homens recebem a força para se
empenharem a favor da vida. Precisamente esse sangue é o motivo
mais forte de esperança, melhor é o fundamento da certeza absoluta
de que, segundo o desí- gnio de Deus, a vitória será da vida. «
Nunca mais haverá morte » — exclama a voz poderosa que sai do trono de
Deus na Jerusalém celeste (Ap 21, 4). E S. Paulo assegura-nos
que a vitória actual sobre o pecado é sinal e antecipação da vitória
definitiva sobre a morte, quando « se cumprirá o que está escrito: "A
morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória?
Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" » (1 Cor 15, 54-55).
26. Na
realidade, não faltam prenúncios desta vitória nas nossas sociedade e
culturas, apesar de marcadas tão fortemente pela « cultura da morte ».
Dar-se-ia, por conseguinte, uma imagem unilateral que poderia induzir
a um estéril desânimo, se a denúncia das ameaças contra a vida não
fosse acompanhada pela apresentação dos sinais positivos,
operantes na actual situação da humanidade.
Infelizmente, estes sinais positivos têm com frequência dificuldade em
manifestar-se e ser reconhecidos, talvez também porque não recebem
adequada atenção dos meios de comunicação social. Mas quantas
iniciativas de ajuda e amparo às pessoas mais débeis e indefesas
surgiram — e continuam a surgir — na comunidade cristã e na sociedade,
a nível local, nacional e internacional, por obra de indivíduos,
grupos, movimentos e organizações de vário género!
Muitos são
ainda os esposos que, com generosa responsabilidade, sabem
acolher os filhos como « o maior dom do matrimónio ». 21 E não faltam
famílias que, para além do seu serviço quotidiano à vida, sabem
também abrir-se ao acolhimento de crianças abandonadas, de
adolescentes e jovens em dificuldade, de pessoas inválidas, de idosos
que vivem na solidão. Numerosos são os centros de ajuda à vida
ou instituições análogas, dinamizadas por pessoas e grupos que, com
admirável dedicação e sacrifício, oferecem apoio moral e material às
mães em dificuldade, tentadas a recorrer ao aborto. Surgem e
multiplicam-se ainda os grupos de voluntários, empenhados em
dar hospitalidade a quem não tem família, encontra-se em condições de
particular dificuldade ou precisa de reencontrar um ambiente educativo
que o ajude a superar hábitos destrutivos e recuperar o sentido da
vida.
A
medicina, promovida com grande empenho por investigadores e
profissionais, prossegue no seu esforço por encontrar remédios cada
vez mais eficazes: resultados, antes totalmente impensáveis e capazes
de abrir promissoras perspectivas, são hoje obtidos em favor da vida
nascente, das pessoas que sofrem e dos doentes em fase grave ou
terminal. Várias entidades e organizações se mobilizam para levar aos
países mais atingidos pela miséria e por doenças crónicas, tais
benefícios da medicina mais avançada. Do mesmo modo, associações
nacionais e internacionais de médicos movem-se rapidamente, para
prestar socorro às populações provadas por calamidades naturais,
epidemias ou guerras. Apesar de estar ainda longe da sua plena
consecução uma verdadeira justiça internacional na partilha dos
recursos médicos, como não reconhecer, nos passos até agora dados, o
sinal de crescente solidariedade entre os povos, de apreciável
sensibilidade humana e moral, e de maior respeito pela vida?
27. Face a
legislações que permitiram o aborto e a tentativas, aqui e além
concretizadas, de legalizar a eutanásia, surgiram em todo o mundo
movimentos e iniciativas de sensibilização social a favor da vida.
Quando estes movimentos, de acordo com a sua inspiração autêntica,
agem com determinada firmeza mas sem recorrer à violência, então eles
favorecem uma tomada de consciência mais ampla e profunda do valor da
vida, fazem apelo e realizam um empenho mais decisivo em sua defesa.
Como não
recordar, além disso, todos aqueles gestos diários de acolhimento,
de sacrifício, de cuidado desinteressado, que um número
incalculável de pessoas realiza com amor nas famílias, nos hospitais,
nos orfanatos, nos lares da terceira idade, e noutros centros ou
comunidades em defesa da vida? A Igreja, deixando-se guiar pelo
exemplo de Jesus, « bom samaritano » (cf. Lc 10, 29-37), e
sustentada pela sua força, sempre esteve em primeira fila nestes
confins da caridade: muitos dos seus filhos e filhas, especialmente
religiosas e religiosos, em formas antigas e novas, consagraram e
continuam a consagrar a sua vida a Deus, dando-a por amor do próximo
mais débil e necessitado.
Estes
gestos constroem em profundidade aquela « civilização do amor e da
vida », sem a qual a existência das pessoas e da sociedade perde o seu
significado humano mais autêntico. Ainda que ninguém os notasse, e
ficassem escondidos aos olhos dos outros, a fé assegura que o Pai, «
que vê no segredo » (Mt 6, 4), saberá não só recompensá-los,
mas também torná-los desde já fecundos de frutos duradouros para
todos.
Entre os
sinais de esperança, há que incluir ainda o crescimento, em muitos
estratos da opinião pública, de uma nova sensibilidade cada vez
mais contrária à guerra como instrumento de solução dos conflitos
entre os povos, e sempre mais inclinada à busca de instrumentos
eficazes, mas « não violentos », para bloquear o agressor armado. No
mesmo horizonte, se coloca igualmente a aversão cada vez mais
difusa na opinião pública à pena de morte — mesmo vista só como
instrumento de « legítima defesa » social —, tendo em consideração as
possibilidades que uma sociedade moderna dispõe para reprimir
eficazmente o crime, de forma que, enquanto torna inofensivo aquele
que o cometeu, não lhe tira definitivamente a possibilidade de se
redimir.
Também
ocorre saudar favoravelmente a atenção crescente à qualidade de
vida e à ecologia, que se regista sobretudo nas sociedades mais
avançadas, nas quais os anseios das pessoas já não estão concentrados
tanto sobre os problemas da sobrevivência como sobretudo na procura de
um melhoramento global das condições de vida. Particularmente
significativo é o despertar da reflexão ética acerca da vida: a
aparição e o desenvolvimento cada vez maior da bioética
favoreceu a reflexão e o diálogo — entre crentes e não crentes, como
também entre crentes de diversas religiões — sobre problemas éticos,
mesmo fundamentais, que dizem respeito à vida do homem.
28. Este
horizonte de luzes e sombras deve tornar-nos, a todos, plenamente
conscientes de que nos encontramos perante um combate gigantesco e
dramático entre o mal e o bem, a morte e a vida, a « cultura da morte
» e a « cultura da vida ». Encontramo-nos não só « diante », mas
necessariamente « no meio » de tal conflito: todos estamos implicados
e tomamos parte nele, com a responsabilidade iniludível de decidir
incondicionalmente a favor da vida.
Também para
nós, ressoa claro e forte o convite de Moisés: « Vê, ofereço-te hoje,
de um lado, a vida e o bem; do outro, a morte e o mal. (...) Coloco
diante de ti a vida e a morte, a felicidade e a maldição. Escolhe a
vida, e então viverás com toda a tua posteridade » (Dt 30,
15.19). É um convite muito apropriado para nós, chamados cada dia a
ter de escolher entre a « cultura da vida » e a « cultura da morte ».
Mas o apelo do Deuteronómio é ainda mais profundo, porque nos chama a
uma opção especificamente religiosa e moral. Trata-se de dar à própria
existência uma orientação fundamental, vivendo com fidelidade e
coerência a Lei do Senhor: « Recomendo-te hoje que ames o Senhor,
teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os
seus preceitos, suas leis e seus decretos. (...) Escolhe a vida, e
então viverás com toda a tua posteridade. Ama o Senhor, teu Deus,
escuta a sua voz e permanece-Lhe fiel, porque é Ele a tua vida
e a longevidade dos teus dias » (30, 16.19-20).
A decisão
incondicional a favor da vida atinge em plenitude o seu significado
religioso e moral, quando brota, é plasmada e alimentada pela fé em
Cristo. Nada ajuda tanto a enfrentar positivamente o conflito
entre a morte e a vida, no qual estamos imersos, como a fé no Filho de
Deus que Se fez homem e veio habitar entre os homens, « para que
tenham vida, e a tenham em abundância » (Jo 10, 10): é a fé
no Ressuscitado, que venceu a morte; é a fé no sangue de Cristo «
que fala melhor do que o de Abel » (Heb 12, 24).
Assim, com
a luz e a força desta fé, perante os desafios da situação actual, a
Igreja toma consciência mais viva da graça e da responsabilidade, que
lhe vêm do seu Senhor, de anunciar, celebrar e servir o Evangelho
da vida.
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CAPÍTULO II
VIM PARA
QUE TENHAM VIDA
A MENSAGEM CRISTÃ SOBRE A VIDA
« A vida
manifestou-se, nós vimo-la » (1 Jo 1, 2): o olhar voltado
para Cristo, « o Verbo da vida »
29. Frente
às inumeráveis e graves ameaças contra a vida, presentes no mundo
contemporâneo, poder-se-ia ficar como que dominado por um sentido de
impotência insuperável: jamais o bem poderá ter força para vencer o
mal!
Este é o
momento em que o Povo de Deus, e nele cada um dos crentes, é chamado a
professar, com humildade e coragem, a própria fé em Jesus Cristo, « o
Verbo da vida » (1 Jo 1, 1). O Evangelho da vida não é
uma simples reflexão, mesmo se original e profunda, sobre a vida
humana; nem é apenas um preceito destinado a sensibilizar a
consciência e provocar mudanças significativas na sociedade; tampouco
é a ilusória promessa de um futuro melhor. O Evangelho da vida
é uma realidade concreta e pessoal, porque consiste no anúncio da
própria pessoa de Jesus. Ao apóstolo Tomé, e nele a cada homem,
Jesus apresenta-Se com estas palavras: « Eu sou o caminho, a verdade e
a vida » (Jo 14, 6). A mesma identidade foi referida a Marta,
irmã de Lázaro: « Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim,
ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim,
não morrerá jamais » (Jo 11, 25-26). Jesus é o Filho que, desde
toda a eternidade, recebe a vida do Pai (cf. Jo 5, 26) e veio
estar com os homens, para os tornar participantes deste dom: « Eu vim
para que tenham vida, e a tenham em abundância » (Jo 10, 10).
Deste modo,
a possibilidade de « conhecer » a verdade plena sobre o valor
da vida humana é oferecida ao homem pela palavra, a acção e a própria
pessoa de Jesus; e desta « fonte », vem-lhe, de forma especial, a
capacidade de « praticar » perfeitamente tal verdade (cf. Jo 3,
21), ou seja, a capacidade de assumir e realizar em plenitude a
responsabilidade de amar e servir, de defender e promover a vida
humana.
Em Cristo,
de facto, é anunciado definitivamente e concedido plenamente aquele
Evangelho da vida, que, oferecido já na Revelação do Antigo
Testamento e, antes ainda, de algum modo escrito no próprio coração de
cada homem e mulher, ressoa em toda a consciência « desde o princípio
», ou seja, desde a própria criação, de tal modo que, não obstante os
condicionalismos negativos do pecado, pode também ser conhecido nos
seus traços essenciais pela razão humana. Como escreve o Concílio
Vaticano II, Cristo « com toda a sua presença e manifestação da sua
pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua
morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito da
verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a
revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das
trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna
». 22
30. É,
pois, com o olhar fixo no Senhor Jesus que desejamos novamente escutar
d'Ele « as palavras de Deus » (Jo 3, 34) e meditar o
Evangelho da vida. O sentido mais profundo e original desta
meditação sobre a mensagem revelada relativa à vida humana foi
recolhido pelo apóstolo João, quando escreve, no início da sua
Primeira Carta: « O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que
vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos
apalparam acerca do Verbo da vida, — porque a vida manifestou-se, nós
vimo-la, damos testemunho dela e vos anunciamos esta vida eterna que
estava no Pai e que nos foi manifestada — o que vimos e ouvimos, isso
vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão connosco » (1,
1-3).
Então, a
vida divina e eterna é anunciada e comunicada em Jesus, « Verbo da
vida ». Graças a este anúncio e a este dom, a vida física e espiritual
do homem, mesmo na sua fase terrena, adquire plenitude de valor e
significado: com efeito, a vida divina e eterna é o fim, para o qual
está orientado e chamado o homem que vive neste mundo. Assim, o
Evangelho da vida encerra tudo aquilo que a própria experiência e
a razão humana dizem acerca do valor da vida humana: acolhe-o, eleva-o
e condu-lo à sua plena realização. |
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« O
Senhor é a minha força e a minha glória, foi Ele quem me salvou »
(Ex 15, 2): a vida é sempre um bem
31. Na
verdade, a plenitude evangélica do anúncio sobre a vida fora preparada
já no Antigo Testamento. É sobretudo nos acontecimentos do Êxodo,
fulcro da experiência de fé do Antigo Testamento, que Israel descobre
quão preciosa é aos olhos de Deus a sua vida. Quando já parece votado
ao extermínio, dado que sobre todos os seus recém-nascidos do sexo
masculino grava a ameaça de morte (cf. Ex 1, 15-22), o Senhor
revela-Se-lhes como salvador, capaz de assegurar um futuro a quem vive
sem esperança. Nasce, assim, em Israel uma certeza bem precisa: a
sua vida não se acha à mercê de um faraó que a pode usar com
despótico arbítrio; mas, ao contrário, é objecto de um terno e
intenso amor da parte de Deus.
A
libertação da escravidão é o dom de uma identidade, o reconhecimento
de uma dignidade indelével e o início de uma história nova, na
qual caminham lado a lado a descoberta de Deus e a descoberta de si
próprio. A experiência do Êxodo é constitutiva e paradigmática. Lá
Israel compreendeu que, todas as vezes que estiver ameaçado na sua
existência, terá apenas de recorrer a Deus com renovada confiança para
encontrar n'Ele eficaz assistência: « Formei-te, tu és meu servo;
Israel, não te posso esquecer » (Is 44, 21).
Assim,
enquanto reconhece o valor da própria existência como povo, Israel
avança também na percepção do sentido e valor da vida como tal.
É uma reflexão que se desenvolve particularmente nos Livros
Sapienciais, partindo da experiência quotidiana da precariedade
da vida e da consciência das ameaças que a tramam. Diante das
contradições da existência, a fé é chamada a dar uma resposta.
É sobretudo
o problema da dor, o que mais pressiona a fé e a põe à prova. Como não
identificar o gemido universal do homem na meditação do Livro de Job?
O inocente esmagado pelo sofrimento é compreensivelmente levado a
interrogar-se: « Por que razão foi concedida a luz ao infeliz, e a
vida àquele cuja alma está desconsolada, os quais esperam a morte sem
que ela venha e a procuram com mais ardor que um tesouro? » (3,
20-21). Mas, mesmo na escuridão mais densa, a fé encaminha para o
reconhecimento confiante e adorador do « mistério »: « Sei que podes
tudo e que nada Te é impossível » (Job 42, 2).
Progressivamente a Revelação faz ver, com uma clareza cada vez maior,
o germe de vida imortal posto pelo Criador no coração dos homens: «
Todas as coisas que Deus fez são boas no seu tempo. Além disso, pôs no
coração 1 a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra
divina de um extremo ao outro » (Ecl 3, 11). Este germe de
totalidade e plenitude anseia por se manifestar no amor e
realizar-se, por dom gratuito de Deus, na participação da sua vida
eterna. |
|
«
Pela fé no nome de Jesus, este homem recobrou as forças » (Act
3, 16): na precariedade da existência humana, Jesus realiza
plenamente o sentido da vida
32. A
experiência do povo da Aliança renova-se em todos os « pobres » que
encontram Jesus de Nazaré. Como Deus, « amante da vida » (Sab
11, 26), já tinha tranquilizado Israel no meio dos perigos, assim
agora o Filho de Deus anuncia a quantos se sentem ameaçados e
limitados na própria existência, que a sua vida é um bem, ao qual o
amor do Pai dá sentido e valor.
« Os cegos
vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os
mortos ressuscitam, a boa nova é anunciada aos pobres » (Lc 7,
22). Com estas palavras do profeta Isaías (35, 5-6; 61, 1), Jesus
apresenta o significado da sua própria missão: deste modo, aqueles que
sofrem por causa de uma existência de qualquer modo « limitada » ouvem
d'Ele a boa nova do interesse que Deus nutre por eles e têm a
confirmação de que também a sua vida é um dom zelosamente guardado nas
mãos do Pai (cf. Mt 6, 25-34).
Quem se
sente particularmente interpelado pela pregação e acção de Jesus, são
os « pobres ». As multidões de doentes e marginalizados, que O seguem
e procuram (cf. Mt 4, 23-25), encontram na sua palavra e nos
seus gestos a revelação do valor imenso da vida deles e de quão
fundados sejam os seus anseios de salvação.
Acontece o
mesmo na missão da Igreja, já desde as suas origens. Ao anunciar Jesus
como Aquele que « andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando
todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele » (Act
10, 38), ela sabe que é portadora de uma mensagem de salvação que
ressoa, com toda a sua novidade, precisamente nas situações de miséria
e pobreza da vida humana. Assim faz Pedro, ao curar o paralítico que
estava colocado diariamente junto da porta « Formosa » do templo de
Jerusalém a pedir esmola: « Não tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o
que tenho: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda! » (Act
3, 6). Pela fé em Jesus, « Príncipe da vida » (Act 3, 15),
a vida que ali jaz abandonada e suplicante, reencontra a consciência
de si mesma e a sua plena dignidade.
A palavra e
os gestos de Jesus e da sua Igreja não dizem respeito apenas a quem
está enfermo, aflito pela provação, ou é vítima das diversas formas de
marginalização social. Vão mais fundo, tocando o próprio sentido da
vida de cada homem nas suas dimensões morais e espirituais. Só
quem reconhece que a própria vida está tocada pelas mazelas do pecado,
pode reencontrar a verdade e a autenticidade da própria existência
junto de Jesus Salvador, segundo as suas próprias palavras: « Não são
os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes. Não
foram os justos, mas os pecadores, que Eu vim chamar ao arrependimento
» (Lc 5, 31-32).
Pelo
contrário, aquele que à semelhança do rico agricultor da parábola
evangélica julga poder assegurar a própria vida com a posse de simples
bens materiais, na realidade engana-se. A vida está-lhe escapando, e
bem depressa ficará privado dela sem ter chegado a perceber o seu
verdadeiro significado: « Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a
tua alma; e o que acumulaste para quem será? » (Lc 12, 20).
33. Na vida
de Jesus, desde o início até ao fim, encontra-se esta « dialéctica »
singular entre a experiência da contingência da vida humana e a
afirmação do seu valor. De facto, a precariedade caracteriza a vida de
Jesus, desde o seu nascimento. Ele depara certamente com o
acolhimento dos justos, que se unem ao « sim » pronto e feliz de
Maria (cf. Lc 1, 38). Mas logo aparece também a rejeição
por parte de um mundo que se torna hostil e procura o Menino « para O
matar » (Mt 2, 13), ou então fica indiferente e alheio ao
cumprimento do mistério desta vida que entra no mundo: « não havia
para eles lugar na hospedaria » (Lc 2, 7). Exactamente por este
contraste — as ameaças e inseguranças, por um lado, e o poder do dom
de Deus, pelo outro — resplandece com maior força a glória que irradia
da casa de Nazaré e da manjedoura de Belém: esta vida que nasce é
salvação para a humanidade inteira (cf. Lc 2, 10-11).
As
contradições e riscos da vida são assumidos plenamente por Jesus: «
sendo rico, fez-Se pobre por vós, a fim de vos enriquecer pela pobreza
» (2 Cor 8, 9). Esta pobreza, de que fala Paulo, não é apenas
despojamento dos privilégios divinos, mas também partilha das
condições mais humildes e precárias da vida humana (cf. Fil 2,
6-7). Jesus vive esta pobreza ao longo de toda a sua vida até ao
momento culminante da cruz: « Humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente
até à morte e morte de cruz. Por isso é que Deus O exaltou e Lhe deu
um nome que está acima de todo o nome » (Fil 2, 8-9). É
precisamente na sua morte que Jesus revela toda a grandeza e
valor da vida, enquanto a sua doação na cruz se torna fonte de
vida nova para todos os homens (cf. Jo 12, 32). Neste
peregrinar por entre as contradições e a própria perda da vida, Jesus
é guiado pela certeza de que ela está nas mãos do Pai. Por isso, na
cruz pode dizer-Lhe: « Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito » (Lc
23, 46), isto é, a minha vida. Verdadeiramente grande é o valor da
vida humana, se o Filho de Deus a assumiu e fez dela o lugar onde se
realiza a salvação para a humanidade inteira! |
|
«
Chamados (...) a ser conformes à imagem do Seu Filho » (Rm
8, 28-29): a glória de Deus resplandece no rosto do homem
34. A vida
é sempre um bem. Esta é uma intuição ou até um dado de experiência,
cuja razão profunda o homem é chamado a compreender.
Por que
motivo a vida é um bem? Esta pergunta percorre a Bíblia inteira,
encontrando já nas primeiras páginas uma resposta eficaz e admirável.
A vida que Deus dá ao homem é diversa e original, se comparada com a
de qualquer outra criatura viva, dado que ele, apesar de emparentado
com o pó da terra (cf. Gn 2, 7; 3, 19; Job 34, 15;
Sal 103 102, 14; 104 103, 29), é, no mundo, manifestação de
Deus, sinal da sua presença, vestígio da sua glória (cf. Gn
1, 26-27; Sal 8, 6). Isto mesmo quis sublinhar Santo Ireneu de
Lião, com a célebre definição: « A glória de Deus é o homem vivo ». 23
Ao homem foi dada uma dignidade sublime, que tem as suas raízes
na ligação íntima que o une ao seu Criador: no homem, brilha um
reflexo da própria realidade de Deus.
Afirma-o o
Livro do Génesis, na primeira narração das origens, ao colocar o homem
no vértice da actividade criadora de Deus, como seu coroamento, no
termo de um processo que vai do caos indefinido até à criatura mais
perfeita. Na criação, tudo está ordenado para o homem e tudo lhe
fica submetido: « Enchei e dominai a terra. Dominai (...) sobre
todos os animais que se movem na terra » (1, 28) — ordena Deus ao
homem e à mulher. Mensagem semelhante aparece também no outro relato
das origens: « O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden
para o cultivar e, também, para o guardar » (Gn 2, 15).
Confirma- -se assim o primado do homem sobre as coisas: estas estão
ordenadas ao homem e entregues à sua responsabilidade, enquanto por
nenhuma razão pode o homem ser subjugado pelos seus semelhantes e como
que reduzido ao estatuto de coisa.
Na narração
bíblica, a distinção entre o homem e as demais criaturas é evidenciada
sobretudo pelo facto de apenas a sua criação ser apresentada como
fruto de uma especial decisão da parte de Deus, de uma deliberação que
consiste em estabelecer uma ligação particular e específica com o
Criador: « Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança » (Gn
1, 26). A vida que Deus oferece ao homem, é um dom, pelo
qual Deus participa algo de Si mesmo à sua criatura.
Israel
interrogar-se-á longamente acerca do sentido desta ligação particular
e específica do homem com Deus. O Livro de Ben-Sirá reconhece que
Deus, ao criar os homens, « revestiu-os da força conveniente e fê-los
à própria imagem » (17, 3). E a isso subordina o autor sagrado, não só
o domínio sobre o mundo, mas também as faculdades espirituais mais
específicas do homem, como a razão, o discernimento do bem e do
mal, a vontade livre: « Encheu-os de saber e inteligência, e
mostrou-lhes o bem e o mal » (Sir 17, 7). A capacidade de
alcançar a verdade e a liberdade são prerrogativas do homem
enquanto criatura feita à imagem do seu Criador, o Deus verdadeiro e
justo (cf. Dt 32, 4). Dentre todas as criaturas visíveis,
apenas o homem é « capaz de conhecer e amar o seu Criador ». 24 A vida
que Deus dá ao homem, é muito mais do que uma existência no tempo. É
tensão para uma plenitude de vida; é germe de uma existência que
ultrapassa os próprios limites do tempo: « Deus criou o homem para
a incorruptibilidade, e fê-lo à imagem da sua própria natureza » (Sab
2, 23).
35. Também
o relato jahvista das origens exprime a mesma convicção. Esta antiga
narração fala de um sopro divino que éinsuflado no homem,
para que este dê entrada na vida: « O Senhor Deus formou o homem
do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem
transformou-se num ser vivo » (Gn 2, 7).
A origem
divina deste espírito de vida explica a perene insatisfação que
acompanha o homem, ao longo dos seus dias. Obra plasmada pelo Senhor e
trazendo em si mesmo um traço indelével de Deus, o homem tende
naturalmente para Ele. Quando escuta o anseio profundo do coração, não
pode deixar de fazer sua esta afirmação de Santo Agostinho: «
Criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração vive inquieto
enquanto não repousa em Vós ». 25
Como é
eloquente aquela insatisfação que se apodera da vida do homem no Éden,
quando lhe resta como única referência o mundo vegetal e animal (cf.
Gn 2, 20)! Somente a aparição da mulher, isto é, de um ser que
é carne da sua carne e osso dos seus ossos (cf. Gn 2, 23) e no
qual vive igualmente o espírito de Deus Criador, pode satisfazer a
exigência de diálogo interpessoal, tão vital para a existência humana.
No outro, homem ou mulher, reflecte-Se o próprio Deus, abrigo
definitivo e plenamente feliz de toda a pessoa.
« Que é o
homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para dele cuidardes?
» — interroga-se o Salmista (Sal 8, 5). Diante da imensidão do
universo, coisa bem pequena é o homem; mas é precisamente este
contraste que faz sobressair a sua grandeza: « Pouco lhe falta para
que seja um ser divino; de glória e de honra o coroastes » (Sal
8, 6). A glória de Deus resplandece no rosto do homem. Nele, o
Criador encontra o seu repouso, como comenta, maravilhado e comovido,
Santo Ambrósio: « Terminou o sexto dia, ficando concluída a criação do
mundo com a formação daquela obra-prima, o homem, que exerce o domínio
sobre todos os seres vivos e é como que o ápice do universo e a
suprema beleza de todo o ser criado. Verdadeiramente deveremos manter
um silêncio reverente, já que o Senhor Se repousou de toda a obra do
mundo. Repousou-Se no íntimo do homem, repousou-Se na sua mente e no
seu pensamento; de facto, tinha criado o homem dotado de razão, capaz
de O imitar, émulo das suas virtudes, desejoso das graças celestes.
Nestes seus dotes, repousa Deus que disse: "Sobre quem repousarei
senão naquele que é humilde, pacífico e teme as minhas palavras?" (Is
66, 1-2). Agradeço ao Senhor nosso Deus que criou uma obra tão
maravilhosa que nela encontra o seu repouso ». 26
36.
Infelizmente, este projecto maravilhoso de Deus ficou ofuscado pela
irrupção do pecado na história. Com o pecado, o homem revolta-se
contra o Criador, acabando por idolatrar as criaturas: «
Veneraram a criatura e prestaram-lhe culto de preferência ao Criador »
(Rm 1, 25). Deste modo, o ser humano não só deturpa a imagem de
Deus em si mesmo, mas é tentado a ofendê-la também nos outros,
substituindo as relações de comunhão por atitudes de desconfiança,
indiferença, inimizade, até chegar ao ódio homicida. Quando não se
reconhece Deus como tal, atraiçoa-se o sentido profundo do
homem e prejudica-se a comunhão entre os homens.
Na vida do
homem, a imagem de Deus volta a resplandecer e manifesta-se em toda a
sua plenitude com a vinda do Filho de Deus em carne humana: « Ele é a
imagem do Deus invisível » (Col 1, 15), « o resplendor da sua
glória e a imagem da sua substância » (Heb 1, 3). Ele é a
imagem perfeita do Pai.
O projecto
de vida confiado ao primeiro Adão encontra finalmente em Cristo a sua
realização. Enquanto a desobediência de Adão arruína e deturpa o
desígnio de Deus sobre a vida do homem e introduz a morte no mundo, a
obediência redentora de Cristo é fonte de graça que se derrama sobre
os homens, abrindo a todos, de par em par, as portas do reino da vida
(cf. Rm 5, 12-21). Afirma o apóstolo Paulo: « O primeiro homem,
Adão, foi feito alma vivente; o último Adão é um espírito vivificante
» (1 Cor 15, 45).
A todos
aqueles que aceitam seguir Cristo, é-lhes dada a plenitude da vida:
neles, a imagem divina é restaurada, renovada e levada à perfeição.
Este é o desígnio de Deus para os seres humanos: tornarem-se «
conformes à imagem do seu Filho » (Rm 8, 29). Só assim, no
esplendor desta imagem, é que o homem pode ser liberto da escravidão
da idolatria, pode reconstruir a fraternidade perdida e reencontrar a
sua identidade. |
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«
Quem crê em Mim, ainda que esteja morto viverá » (Jo 11,
26): o dom da vida eterna
37. A vida
que o Filho de Deus veio dar aos homens, não se reduz meramente à
existência no tempo. A vida, que desde sempre está « n'Ele » e
constitui « a luz dos homens » (Jo 1, 4), consiste em ser
gerados por Deus e participar na plenitude do seu amor: « A todos
os que O receberam, aos que crêem n'Ele, deu-lhes o poder de se
tornarem filhos de Deus; eles que não nasceram do sangue, nem de
vontade carnal, nem de vontade do homem, mas sim de Deus » (Jo
1, 12-13).
Umas vezes,
Jesus designa esta vida, que Ele veio dar, simplesmente como « a vida
»; e apresenta o ser gerado por Deus como condição necessária para
poder alcançar o fim para o qual o homem foi criado: « Quem não nascer
de novo, não pode ver o Reino de Deus » (Jo 3, 3). O dom desta
vida constitui o objecto próprio da missão de Jesus; Ele « é Aquele
que desce do Céu e dá a vida ao mundo » (Jo 6, 33), de tal modo
que pode afirmar com toda a verdade: « Quem Me segue (...) terá a luz
da vida » (Jo 8, 12).
Outras
vezes, Jesus fala de « vida eterna », sem querer com o adjectivo
aludir apenas a uma perspectiva supratemporal. « Eterna » é a vida que
Jesus promete e dá, porque é plenitude de participação na vida do «
Eterno ». Todo aquele que crê em Jesus e vive em comunhão com Ele tem
a vida eterna (cf. Jo 3, 15; 6, 40), porque d'Ele escuta as
únicas palavras que revelam e infundem plenitude de vida à sua
existência; são as « palavras de vida eterna », que Pedro reconhece na
sua confissão de fé: « Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens
palavras de vida eterna; e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de
Deus » (Jo 6, 68-69). O que seja essa vida eterna, declara-o
Jesus quando se dirigiu ao Pai na grande oração sacerdotal: « A vida
eterna consiste nisto: que Te conheçam a Ti, por único Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste » (Jo 17, 3).
Conhecer a Deus e ao seu Filho é acolher o mistério da comunhão de
amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, na própria vida que se
abre, já desde agora, à vida eterna pela participação na
vida divina.
38. Por
conseguinte, a vida eterna é a própria vida de Deus e simultaneamente
a vida dos filhos de Deus. Um assombro incessante e uma
gratidão sem limites não podem deixar de se apoderar do crente diante
desta inesperada e inefável verdade que nos vem de Deus em Cristo. O
crente faz suas as palavras do apóstolo João: « Vede com que amor nos
amou o Pai, ao querer que fôssemos chamados filhos de Deus. E somo-lo
de facto! (...) Caríssimos, agora somos filhos de Deus, mas ainda não
se manifestou o que havemos de ser. Sabemos, porém, que, quando Ele Se
manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é » (1
Jo 3, 1-2).
Assim,
chega ao seu auge a verdade cristã acerca da vida. A dignidade
desta não está ligada apenas às suas origens, à sua proveniência de
Deus, mas também ao seu fim, ao seu destino de comunhão com Deus no
conhecimento e no amor d'Ele. É à luz desta verdade que Santo Ireneu
especifica e completa a sua exaltação do homem: « glória de Deus » é,
sim, « o homem vivo », mas « a vida do homem consiste na visão de Deus
». 27
Daqui
resultam consequências imediatas para a vida humana em sua própria
condição terrena, na qual já germinou e está a crescer a vida
eterna. Se o homem ama instintivamente a vida porque é um bem, tal
amor encontra ulterior motivação e força, nova amplitude e
profundidade nas dimensões divinas desse bem. Em semelhante
perspectiva, o amor que cada ser humano tem pela vida não se reduz à
simples busca de um espaço onde poder exprimir-se a si mesmo e entrar
em relação com os outros, mas evolui até à certeza feliz de poder
fazer da própria existência o « lugar » da manifestação de Deus, do
encontro e comunhão com Ele. A vida que Jesus nos dá, não desvaloriza
a nossa existência no tempo, mas assume-a e condu-la ao seu último
destino: « Eu sou a ressurreição e a vida; (...) todo aquele que vive
e crê em Mim não morrerá jamais » (Jo 11, 25.26). |
|
« A
cada um, pedirei contas do seu irmão » (cf. Gn 9, 5):
veneração e amor pela vida dos outros
39. A
vida do homem provém de Deus, é dom seu, é imagem e figura d'Ele,
participação do seu sopro vital. Desta vida, portanto,
Deus é o único senhor: o homem não pode dispor dela. Deus mesmo
o confirma a Noé, depois do dilúvio: « Ao homem, pedirei contas da
vida do homem, seu irmão » (Gn 9, 5). E o texto bíblico
preocupa-se em sublinhar como a sacralidade da vida tem o seu
fundamento em Deus e na sua acção criadora: « Porque Deus fez o
homem à sua imagem » (Gn 9, 6).
Portanto,
a vida e a morte do homem estão nas mãos de Deus, em seu poder: «
Deus tem nas suas mãos a alma de todo o ser vivente, e o sopro de
vida de todos os homens » — exclama Job (12, 10). « O Senhor é que
dá a morte e a vida, leva à habitação dos mortos e retira de lá » (1
Sam 2, 6). Apenas Ele pode afirmar: « Só Eu é que dou a vida e
dou a morte » (Dt 32, 39).
Mas Deus
não exerce esse poder como arbítrio ameaçador, mas, sim, como
cuidado e solicitude amorosa pelas suas criaturas. Se é verdade
que a vida do homem está nas mãos de Deus, não o é menos que estas
são mãos amorosas como as de uma mãe que acolhe, nutre e toma conta
do seu filho: « Fico sossegado e tranquilo como criança deitada nos
braços de sua mãe, como um menino deitado é a minha alma » (Sal
131 130, 2; cf. Is 49, 15; 66, 12-13; Os 11, 4).
Assim nas vicissitudes dos povos e na sorte dos indivíduos, Israel
não vê o fruto de pura casualidade ou de um destino cego, mas o
resultado de um desígnio de amor, pelo qual Deus resguarda todas as
potencialidades da vida e se contrapõe às forças de morte que nascem
do pecado: « Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não
Lhe dá nenhuma alegria. Porquanto Ele criou tudo para a existência »
(Sab 1, 13-14).
40. Da
sacralidade da vida dimana a sua inviolabilidade, inscrita desde
as origens no coração do homem, na sua consciência. A pergunta «
que fizeste? » (Gn 4, 10), dirigida por Deus a Caim depois de
ter assassinado o irmão Abel, traduz a experiência de cada homem: no
fundo da sua consciência, ele sente incessantemente o apelo à
inviolabilidade da vida — a própria e a alheia —, como realidade que
não lhe pertence, pois é propriedade e dom de Deus Criador e Pai.
O
preceito relativo à inviolabilidade da vida humana ocupa o centro
dos « dez mandamentos » na aliança do Sinai (cf. Ex 34,
28). Nele se proíbe, antes de mais, o homicídio: « Não matarás » (Ex
20, 13), « não causarás a morte do inocente e do justo » (Ex
23, 7); mas proíbe também — como se explicita na legislação
posterior de Israel — qualquer lesão infligida a outrem (cf. Ex
21, 12-27). Tem-se de reconhecer que esta sensibilidade pelo valor
da vida no Antigo Testamento, apesar de já tão notável, não alcança
ainda a perfeição do Sermão da Montanha, como resulta de alguns
aspectos da legislação penal então vigente, que previa castigos
corporais pesados e até mesmo a pena de morte. Mas globalmente esta
mensagem, que o Novo Testamento levará à perfeição, é já um forte
apelo ao respeito pela inviolabilidade da vida física e da
integridade pessoal, e tem o seu ápice no mandamento positivo que
obriga a cuidar do próximo como de si mesmo: « Amarás o teu próximo
como a ti mesmo » (Lv 19, 18).
41. O
mandamento « não matarás », contido e aprofundado no mandamento
positivo do amor do próximo, é confirmado em toda a sua validade
pelo Senhor Jesus. Ao jovem rico que Lhe pede « Mestre, que
hei-de fazer de bom para alcançar a vida eterna? », responde: « Se
queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos » (Mt 19,
16.17). E, logo em primeiro lugar, cita « não matarás » (19, 18). No
Sermão da Montanha, Jesus exige dos discípulos uma justiça
superior à dos escribas e fariseus, no campo do respeito pela
vida: « Ouvistes que foi dito aos antigos: "Não matarás; aquele que
matar está sujeito a ser condenado". Eu, porém, digo-vos: quem se
irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal » (Mt
5, 21-22).
Com a sua
palavra e os seus gestos, Jesus explicita ulteriormente as
exigências positivas do mandamento referente à inviolabilidade da
vida. Estavam já presentes no Antigo Testamento, onde a legislação
se preocupava em garantir e salvaguardar as situações de vida débil
e ameaçada: o estrangeiro, a viúva, o órfão, o enfermo, o pobre em
geral, a própria vida antes de nascer (cf. Ex 21, 22; 22,
20-26). Mas com Jesus, essas exigências positivas adquirem novo
vigor e ímpeto, manifestando-se em toda a sua amplitude e
profundidade: vão desde o velar pela vida do irmão (familiar,
membro do mesmo povo, estrangeiro que habita na terra de Israel),
passam pelo cuidar do desconhecido, para chegarem até ao amor
do inimigo.
O
desconhecido deixa de ser tal para quem deve fazer-se próximo
de todo aquele que se encontra necessitado, até assumir a
responsabilidade da sua vida, como ensina, de modo eloquente e
incisivo, a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 25-37).
Também o inimigo cessa de o ser para quem é obrigado a amá-lo (cf.
Mt 5, 38-48; Lc 6, 27-35) e « fazer-lhe bem » (cf.
Lc 6, 27.33.35), levando remédio às carências da sua vida, com
prontidão e sem esperar recompensa (cf. Lc 6, 34-35). No
vértice deste amor, está a oração pelo inimigo, pela qual nos
colocamos em sintonia com o amor providente de Deus: « Eu, porém,
digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.
Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus;
pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair
a chuva sobre os justos e os pecadores » (Mt 5, 44-45; cf.
Lc 6, 28.35).
Assim, o
mandamento de Deus, orientado para a defesa da vida do homem, tem a
sua dimensão mais profunda na exigência de veneração e amor
por toda a pessoa e sua vida. Este é o ensinamento que o apóstolo
Paulo, dando eco às palavras de Jesus (cf. Mt 19, 17-18),
dirige aos cristãos de Roma: « Com efeito: "Não cometerás adultério,
não matarás, não furtarás, não cobiçarás" e qualquer dos outros
mandamentos resumem-se nestas palavras: "Amarás ao próximo como a
ti mesmo". A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é,
pois, o pleno cumprimento da lei » (Rm 13, 9-10). |
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«
Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra » (Gn
1, 28): as responsabilidades do homem pela vida
42.
Defender e promover, venerar e amar a vida é tarefa que Deus confia a
cada homem, ao chamá-lo enquanto sua imagem viva a participar no
domínio que Ele tem sobre o mundo: « Abençoando-os, Deus disse:
"Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os
peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se
movem na terra" » (Gn 1, 28).
O texto
bíblico manifesta claramente a amplitude e profundidade do domínio que
Deus concede ao homem. Trata-se, antes de mais, de domínio sobre a
terra e sobre todo o ser vivo, como recorda o Livro da Sabedoria:
« Deus dos nossos pais e Senhor de misericórdia, (...) formastes o
homem pela vossa sabedoria, para dominar sobre as criaturas a quem
destes a vida, para governar o mundo com santidade e justiça » (9,
1.2-3). Também o Salmista exalta o domínio do homem como sinal da
glória e honra recebidas do Criador: « Destes-lhe domínio sobre as
obras das vossas mãos. Tudo submetestes debaixo dos seus pés; os
rebanhos e os gados sem excepção, até mesmo os animais selvagens; as
aves do céu e os peixes do mar, tudo o que se move nos oceanos » (Sal
8, 7-9).
Chamado a
cultivar e guardar o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15), o homem
detém uma responsabilidade específica sobre o ambiente de vida,
ou seja, sobre a criação que Deus pôs ao serviço da sua dignidade
pessoal, da sua vida: e isto não só em relação ao presente, mas também
às gerações futuras. É a questão ecológica — desde a
preservação do « habitat » natural das diversas espécies animais e das
várias formas de vida, até à « ecologia humana » propriamente dita 28
— que, no texto bíblico, encontra luminosa e forte indicação ética
para uma solução respeitosa do grande bem da vida, de toda a vida. Na
realidade, « o domínio conferido ao homem pelo Criador não é um poder
absoluto, nem se pode falar de liberdade de "usar e abusar", ou de
dispor das coisas como melhor agrade. A limitação imposta pelo mesmo
Criador, desde o princípio, e expressa simbolicamente com a proibição
de "comer o fruto da árvore" (cf. Gn 2, 16-17), mostra com
suficiente clareza que, nas relações com a natureza visível, nós
estamos submetidos a leis, não só biológicas, mas também morais, que
não podem impunemente ser transgredidas ». 29
43. Uma
certa participação do homem no domínio de Deus manifesta-se também na
específica responsabilidade que lhe está confiada no
referente à vida propriamente humana. Essa responsabilidade atinge
o auge na doação da vida, através da geração por obra do homem
e da mulher no matrimónio, como nos recorda o Concílio Vaticano II: «
O mesmo Deus que disse "não é bom que o homem esteja só" (Gn 2,
18) e que "desde a origem fez o ser humano varão e mulher" (Mt
19, 4), querendo comunicar uma participação especial na sua obra
criadora, abençoou o homem e a mulher dizendo: "crescei e
multiplicai-vos" (Gn 1, 28) ». 30
Ao falar de
« uma participação especial » do homem e da mulher na « obra criadora
» de Deus, o Concílio pretende pôr em relevo como a geração do filho é
um facto não só profundamente humano mas também altamente religioso,
enquanto implica os cônjuges, que formam « uma só carne » (Gn
2, 24), e simultaneamente o próprio Deus que Se faz presente. Como
escrevi na Carta às Famílias, « quando da união conjugal dos
dois nasce um novo homem, este traz consigo ao mundo uma particular
imagem e semelhança do próprio Deus: na biologia da geração está
inscrita a genealogia da pessoa. Ao afirmarmos que os cônjuges,
enquanto pais, são colaboradores de Deus Criador na concepção e
geração de um novo ser humano, não nos referimos apenas às leis da
biologia; pretendemos sobretudo sublinhar que, na paternidade e
maternidade humana, o próprio Deus está presente de um modo
diverso do que se verifica em qualquer outra geração "sobre a terra".
Efectivamente, só de Deus pode provir aquela "imagem e semelhança" que
é própria do ser humano, tal como aconteceu na criação. A geração é a
continuação da criação ». 31
Isto mesmo
ensina, com linguagem clara e eloquente, o texto sagrado ao mencionar
o grito jubiloso da primeira mulher, a « mãe de todos os viventes » (Gn
3, 20); consciente da intervenção de Deus, Eva exclama: « Gerei um
homem com o auxílio do Senhor » (Gn 4, 1). Assim, na geração,
através da comunicação da vida dos pais ao filho transmite-se, graças
à criação da alma imortal, 32 a imagem e semelhança do próprio Deus.
Neste sentido, se exprime o início do « livro da genealogia de Adão »:
« Quando Deus criou o homem, fê-lo à semelhança de Deus. Criou-os
varão e mulher, e abençoou-os. Deu-lhes o nome de Homem no dia em que
os criou. Com cento e trinta anos, Adão gerou um filho à sua imagem e
semelhança, e pôs-lhe o nome de Set » (Gn 5, 1-3). Precisamente
neste papel de colaboradores de Deus, que transmite a sua imagem à
nova criatura, está a grandeza dos cônjuges, dispostos « a
colaborar com o amor do Criador e Salvador, que por meio deles aumenta
cada dia mais e enriquece a sua família ». 33 À luz disto, o bispo
Anfilóquio exaltava o « matrimónio santo, eleito e elevado acima de
todos os dons terrenos », porque « gerador da humanidade, artífice de
imagens de Deus ». 34
Assim o
homem e a mulher, unidos pelo matrimónio, estão associados a uma obra
divina: por meio do acto da geração, o dom de Deus é acolhido, e uma
nova vida se abre ao futuro.
Mas, uma
vez realçada a missão específica dos pais, há que acrescentar: a
obrigação de acolher e servir a vida compete a todos e deve
manifestar-se sobretudo a favor da vida em condições de maior
fragilidade. É o próprio Cristo quem no-lo recorda, ao pedir para
ser amado e servido nos irmãos provados por qualquer tipo de
sofrimento: famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes,
encarcerados... Aquilo que for feito a cada um deles, é feito ao
próprio Cristo (cf. Mt 25, 31-46). |
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« Vós
é que plasmastes o meu interior » (Sal 139 138, 13): a
dignidade da criança ainda não nascida
44. A vida
humana atravessa situações de grande fragilidade, quer ao entrar no
mundo, quer quando sai do tempo para ir ancorar-se na eternidade. Na
Palavra de Deus, encontramos numerosos apelos ao cuidado e respeito
pela vida, sobretudo quando esta aparece ameaçada pela doença e pela
velhice. Se faltam apelos directos e explícitos para salvaguardar a
vida humana nas suas origens, especialmente a vida ainda não nascida,
ou então a vida próxima do seu termo, isso explica-se facilmente pelo
facto de que a mera possibilidade de ofender, agredir ou mesmo negar a
vida em tais condições estava fora do horizonte religioso e cultural
do Povo de Deus.
No Antigo
Testamento, a esterilidade era temida como uma maldição, enquanto se
considerava uma bênção a prole numerosa: « Os filhos são bênçãos do
Senhor; os frutos do ventre, um mimo do Senhor » (Sal 127 126,
3; cf. Sal 128 127, 3-4). Para esta convicção, concorre
certamente a consciência que Israel tem de ser o povo da Aliança,
chamado a multiplicar-se segundo a promessa feita a Abraão: « Ergue os
olhos para os céus e conta as estrelas, se fores capaz de as contar
(...) será assim a tua descendência » (Gn 15, 5). Mas influi
sobretudo a certeza de que a vida transmitida pelos pais tem a sua
origem em Deus, como o atestam tantas páginas bíblicas que, com
respeito e amor, falam da concepção, da moldagem da vida no ventre
materno, do nascimento e da ligação íntima entre o momento inicial da
existência e a acção de Deus Criador.
« Antes que
fosses formado no ventre de tua mãe, Eu já te conhecia; antes que
saísses do seio materno, Eu te consagrei » (Jr 1, 5): a
existência de cada indivíduo, desde as suas origens, obedece ao
desígnio de Deus. Job, na profundidade da sua dor, detém-se a
contemplar a obra de Deus na miraculosa formação do seu corpo no
ventre da mãe, retirando daí motivo de confiança e exprimindo a
certeza da existência de um projecto divino para a sua vida: « As tuas
mãos formaram-me e fizeram-me e, de repente, vais aniquilar-me?
Lembra-Te que me formaste com o barro; far-me-ás, agora, voltar ao pó?
Não me espremeste como o leite e coalhaste como o queijo? De pele e de
carne me revestiste, de ossos e de nervos me consolidaste. Deste-me a
vida e favoreceste-me; a tua providência conservou o meu espírito »
(10, 8-12). Modulações cheias de enlevo adorador pela intervenção de
Deus na vida em formação no ventre materno ressoam também nos Salmos.
35
Como pensar
que este maravilhoso processo de germinação da vida possa subtrair-se,
por um só momento, à obra sapiente e amorosa do Criador para ficar
abandonado ao arbítrio do homem? Não o pensa, seguramente, a mãe dos
sete irmãos que professa a sua fé em Deus, princípio e garantia da
vida desde a concepção e ao mesmo tempo fundamento da esperança da
nova vida para além da morte: « Não sei como aparecestes nas minhas
entranhas, porque não fui eu quem vos deu a alma nem a vida e nem fui
eu quem ajuntou os vossos membros. Mas o Criador do mundo, autor do
nascimento do homem e criador de todas as coisas, restituir-vos-á, na
sua misericórdia, tanto o espírito como a vida, se agora fizerdes
pouco caso de vós mesmos por amor das suas leis » (2 Mac 7,
22-23).
45. A
revelação do Novo Testamento confirma o reconhecimento indiscutível
do valor da vida desde os seus inícios. A exaltação da fecundidade
e o trepidante anseio da vida ressoam nas palavras com que Isabel
rejubila pela sua gravidez: ao Senhor « aprouve retirar a minha
ignomínia » (Lc 1, 25). Mas o valor da pessoa, desde a sua
concepção, é celebrado ainda melhor no encontro da Virgem Maria e
Isabel e entre as duas crianças, que trazem no seio. São precisamente
eles, os meninos, a revelarem a chegada da era messiânica: no seu
encontro, começa a agir a força redentora da presença do Filho de Deus
no meio dos homens. « Depressa se manifestam — escreve Santo Ambrósio
— os benefícios da chegada de Maria e da presença do Senhor. (...)
Isabel foi a primeira a escutar a voz, mas João foi o primeiro a
pressentir a graça. Aquela escutou segundo a ordem da natureza; este
exultou em virtude do mistério. Ela apreendeu a chegada de Maria;
este, a do Senhor. A mulher ouviu a voz da mulher; o menino sentiu a
presença do Filho. Aquelas proclamam a graça de Deus, estes
realizam-na interiormente, iniciando no seio de suas mães o mistério
de piedade; e, por um duplo milagre, as mães profetizam sob a
inspiração de seus filhos. O filho exultou de alegria; a mãe ficou
cheia do Espírito Santo. A mãe não se antecipou ao filho; foi este
que, uma vez cheio do Espírito Santo, o comunicou a sua mãe ». 36 |
|
«
Confiei mesmo quando disse: "Sou um homem de todo infeliz" » (Sal
116 115, 10): a vida na velhice e no sofrimento
46. Também
no que se refere aos últimos dias da existência, seria anacrónico
esperar da revelação bíblica uma referência expressa à problemática
actual do respeito pelas pessoas idosas e doentes, ou uma explícita
condenação das tentativas de lhes antecipar violentamente o fim:
encontramo-nos, de facto, perante um contexto cultural e religioso que
não está pervertido por tais tentações, mas antes reconhece na
sabedoria e experiência do ancião uma riqueza insubstituível para a
família e a sociedade.
A
velhice goza de prestígio e é circundada de veneração (cf. 2
Mac 6, 23). O justo não pede para ser privado da velhice nem do
seu peso; antes pelo contrário: « Vós sois a minha esperança, a minha
confiança, Senhor, desde a minha juventude. (...) Agora, na velhice e
na decrepitude, não me abandoneis, ó Deus; para que narre às gerações
a força do vosso braço, o vosso poder a todos os que hão-de vir » (Sal
71 70, 5.18). O ideal do tempo messiânico é apresentado como
aquele em que « não mais haverá (...) um velho que não complete os
seus dias » (Is 65, 20).
Mas, como
enfrentar o declínio inevitável da vida, na velhice?Como
comportar-se frente à morte? O crente sabe que a sua vida está nas
mãos de Deus: « Senhor, nas tuas mãos está a minha vida » (cf. Sal
16 15, 5); e d'Ele aceite também a morte: « Este é o juízo do Senhor
sobre toda a humanidade; e porque quererias reprovar a lei do
Altíssimo? » (Sir 41, 4). O homem não é senhor nem da vida nem
da morte; tanto numa como noutra, deve abandonar-se totalmente à «
vontade do Altíssimo », ao seu desígnio de amor.
Também no
momento da doença, o homem é chamado a viver a mesma entrega ao
Senhor e a renovar a sua confiança fundamental n'Aquele que « sara
todas as enfermidades » (cf. Sal 103 102, 3). Quando toda e
qualquer esperança de saúde parece fechar-se para o homem — a ponto de
o levar a gritar: « Os meus dias são como a sombra que declina, e
vou-me secando como o feno » (Sal 102 101, 12) — , mesmo então
o crente está animado pela fé inabalável no poder vivificador de Deus.
A doença não o leva ao desespero nem ao desejo da morte, mas a uma
invocação cheia de esperança: « Confiei mesmo quando disse: "Sou um
homem de todo infeliz" » (Sal 116 115, 10); « Senhor, meu Deus,
a vós clamei e fui curado. Senhor, livrastes a minha alma da mansão
dos mortos; destes-me a vida quando já descia ao túmulo » (Sal
30 29, 3-4).
47. A
missão de Jesus, com as numerosas curas realizadas, indica quanto
Deus tem a peito também a vida corporal do homem. « Médico do
corpo e do espírito », 37 Jesus foi mandado pelo Pai para anunciar a
boa nova aos pobres e para curar os de coração despedaçado (cf. Lc
4, 18; Is 61, 1). Depois, ao enviar os seus discípulos pelo
mundo, confia-lhes uma missão na qual a cura dos doentes acompanha o
anúncio do Evangelho: « Pelo caminho, proclamai que o reino dos Céus
está perto. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os
leprosos, expulsai os demónios » (Mt 10, 7-8; cf. Mc 6,
13; 16, 18).
Certamente,
a vida do corpo na sua condição terrena não é um absoluto para
o crente, de tal modo que lhe pode ser pedido para a abandonar por um
bem superior; como diz Jesus, « quem quiser salvar a sua vida,
perdê-la-á, e quem perder a sua vida por Mim e pelo Evangelho,
salvá-la-á » (Mc 8, 35). A este propósito, o Novo Testamento
oferece diversos testemunhos. Jesus não hesita em sacrificar-Se a Si
próprio e, livremente, faz da sua vida uma oferta ao Pai (cf. Jo
10, 17) e aos seus (cf. Jo 10, 15). Também a morte de João
Baptista, precursor do Salvador, atesta que a existência terrena não é
o bem absoluto: é mais importante a fidelidade à palavra do Senhor,
ainda que esta possa pôr em jogo a vida (cf. Mc 6, 17-29). E
Estêvão, ao ser privado da vida temporal porque testemunha fiel da
ressurreição do Senhor, segue os passos do Mestre e vai ao encontro
dos seus lapidadores com as palavras do perdão (cf. Act 7,
59-60), abrindo a estrada do exército inumerável dos mártires,
venerados pela Igreja desde o princípio.
Todavia,
ninguém pode escolher arbitrariamente viver ou morrer; efectivamente,
senhor absoluto de tal decisão é apenas o Criador, Aquele em quem «
vivemos, nos movemos e existimos » (Act 17, 28). |
|
«
Todos os que a seguirem alcançarão a vida » (Bar 4, 1):
da Lei do Sinai ao dom do Espírito
48. A vida
traz indelevelmente inscrita nela uma verdade sua. O homem, ao
acolher o dom de Deus, deve comprometer-se a manter a vida nesta
verdade, que lhe é essencial. Desviar-se dela, equivale a
condenar-se a si próprio à insignificância e à infelicidade, com a
consequência de poder tornar-se também uma ameaça para a existência
dos outros, já que foram rompidos os diques que garantiam o respeito e
a defesa da vida, em qualquer situação.
A
verdade da vida é revelada pelo mandamento de Deus. A palavra do
Senhor indica concretamente a direcção que a vida deve seguir, para
poder respeitar a própria verdade e salvaguardar a sua dignidade. Não
é apenas o mandamento específico — « não matarás » (Ex 20, 13;
Dt 5, 17) — a garantir a protecção da vida; mas a Lei do
Senhor em toda a sua extensão está ao serviço dessa protecção,
porque revela aquela verdade na qual a vida encontra o seu pleno
significado.
Não admira,
pois, que a Aliança de Deus com o seu povo esteja tão intensamente
ligada à perspectiva da vida, mesmo na sua dimensão corpórea. Naquela,
o mandamento é dado como caminho da vida: « Vê,
ofereço-te hoje, de um lado, a vida e o bem; de outro, a morte e o
mal. Recomendo-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos seus
caminhos, que guardes os seus preceitos, suas leis e seus decretos. Se
assim fizeres, viverás, engrandecer-te-ás e serás abençoado pelo
Senhor, teu Deus, na terra em que vais entrar para a possuir » (Dt
30, 15-16). Não está em questão apenas a terra de Canaã e a
existência do povo de Israel, mas também o mundo de hoje e do futuro e
a existência de toda a humanidade. De facto, não é possível,
absolutamente, a vida permanecer autêntica e plena, quando se afasta
do bem; e o bem, por sua vez, está essencialmente ligado aos
mandamentos do Senhor, isto é, à « lei da vida » (Sir 17, 11).
O bem que se tem de realizar, não é imposto à vida como um fardo que
pesa sobre ela, porque a própria razão da vida é precisamente o bem, e
a vida é construída apenas mediante o cumprimento do bem.
Portanto, é
a Lei no seu todo que salvaguarda plenamente a vida do homem.
Isto explica como é difícil manter-se fiel ao preceito « não matarás
», quando não são observadas as demais « palavras de vida » (Act
7, 38), às quais ele está ligado. Fora deste horizonte, o
mandamento acaba por se tornar uma mera obrigação extrínseca, da qual
bem depressa desejar-se-ão ver os limites e procurar-se-ão as
atenuantes ou as excepções. Só se nos abrirmos à plenitude da verdade
acerca de Deus, do homem e da história, é que o preceito « não matarás
» voltará a resplandecer como o melhor para o homem em todas as suas
dimensões e relações. Nesta perspectiva, podemos atingir a plenitude
da verdade contida na passagem do Livro do Deuteronómio, retomada por
Jesus na resposta à primeira tentação: « O homem não vive somente de
pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor » (8, 3; cf. Mt 4,
4).
É escutando
a palavra do Senhor que o homem pode viver com dignidade e justiça; é
observando a lei de Deus que o homem pode produzir frutos de vida e de
felicidade: « Todos os que a seguirem alcançarão a vida, e os que a
abandonarem cairão na morte » (Bar 4, 1).
49. A
história de Israel mostra como é difícil permanecer fiel à lei da
vida, que Deus inscreveu no coração dos homens e entregou no Sinai
ao povo da Aliança. Contra a busca de projectos de vida alternativos
ao plano de Deus, levantam-se de modo particular os Profetas,
recordando insistentemente que só o Senhor é a autêntica fonte da
vida. Assim escreve Jeremias: « O meu povo cometeu um duplo crime:
abandonou-Me a Mim, fonte de águas vivas, para cavar cisternas,
cisternas rotas, que não podem reter as águas » (2, 13). Os Profetas
apontam o dedo acusador contra aqueles que desprezam a vida e violam
os direitos das pessoas: « Esmagam como o pó da terra a cabeça do
pobre » (Am 2, 7); « mancharam este lugar com o sangue de
inocentes » (Jr 19, 4). E a estes, vem juntar-se o profeta
Ezequiel que mais de uma vez verbera a cidade de Jerusalém,
designando-a como « a cidade sanguinária » (22, 2; 24, 6.9), a «
cidade que derramou o sangue no seu seio » (22, 3).
Mas, ao
mesmo tempo que denunciam as ofensas contra a vida, os Profetas
preocupam-se sobretudo por suscitar a esperança de um novo
princípio de vida, capaz de fundar um renovado relacionamento com
Deus e com os irmãos, entreabrindo possibilidades inéditas e
extraordinárias para compreender e actuar todas as exigências contidas
no Evangelho da vida. Isso será possível unicamente mediante um
dom de Deus, que purifique e renove: « Derramarei sobre vós uma água
pura e sereis purificados; Eu vos purificarei de todas as manchas e de
todos os pecados. Dar-vos-ei um coração novo e infundirei em vós um
espírito novo » (Ez 36, 25-26; cf. Jr 31, 31-34). Graças
a este « coração novo », pode-se compreender e realizar o sentido mais
verdadeiro e profundo da vida: ser um dom que se consuma no dar-se.
É a mensagem luminosa sobre o valor da vida que nos vem da figura
do Servo do Senhor: « Oferecendo a sua vida em sacrifício expiatório,
terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias. (...) Livrada a
sua alma dos tormentos, verá a luz » (Is 53, 10.11).
Na
existência de Jesus de Nazaré, a Lei teve pleno cumprimento, ao ser
dado o coração novo por meio do seu Espírito. Com efeito, Cristo não
revoga a Lei, mas leva-a ao seu pleno cumprimento (cf.Mt 5,
17): a Lei e os Profetas resumem-se na regra-áurea do amor recíproco
(cf. Mt 7, 12). N'Ele, a Lei torna-se definitivamente «
evangelho », feliz notícia do domínio de Deus sobre o mundo, que
reconduz toda a existência às suas raízes e perspectivas originais. É
a Nova Lei, « a lei do Espírito que dá vida em Cristo Jesus » (Rm
8, 2), cuja expressão fundamental, a exemplo do Senhor que dá a
vida pelos próprios amigos (cf. Jo 15, 13), é o dom de si no
amor aos irmãos: « Nós sabemos que passámos da morte para a vida,
porque amamos os irmãos » (1 Jo 3, 14). É lei de liberdade,
alegria e felicidade. |
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«
Hão-de olhar para Aquele que trespassaram » (Jo 19, 37):
na árvore da Cruz, cumpre-se o Evangelho da Vida
50. No
final deste capítulo, em que meditámos a mensagem cristã sobre a vida,
quereria deter-me com cada um de vós a contemplar Aquele que
trespassaram e que atrai todos a Si (cf. Jo 19, 37; 12,
32). Levantando os olhos para « o espectáculo » da cruz (cf. Lc
23, 48), poderemos descobrir, nesta árvore gloriosa, o cumprimento e a
plena revelação de todo o Evangelho da vida.
Nas
primeiras horas da tarde de Sexta-feira Santa, « as trevas cobriram
toda a terra (...) por o sol se haver eclipsado. O véu do Templo
rasgou-se ao meio » (Lc 23, 44.45). É o símbolo de uma grande
perturbação cósmica e de uma luta atroz das forças do bem contra as do
mal, da vida contra a morte. Também hoje nos encontramos no meio de
uma luta dramática entre a « cultura da morte » e a « cultura da vida
». Mas o esplendor da Cruz não fica submerso pelas trevas; pelo
contrário, aquela desenha-se ainda mais clara e luminosa, revelando-se
como o centro, o sentido e o fim da história inteira e de toda a vida
humana.
Jesus é
pregado na cruz e levantado da terra. Vive o momento da sua máxima «
impotência », e a sua vida parece totalmente abandonada aos insultos
dos seus adversários e às mãos dos seus carrascos: é humilhado,
escarnecido, ultrajado (cf. Mc 15, 24-36). E contudo,
precisamente diante de tudo isso e « ao vê-Lo expirar daquela maneira
», o centurião romano exclama: « Verdadeiramente este homem era o
Filho de Deus! » (Mc 15, 39). Revela-se assim, no momento da
sua extrema debilidade, a identidade do Filho de Deus: na Cruz,
manifesta-se a sua glória!
Com a sua
morte, Jesus ilumina o sentido da vida e da morte de todo o ser
humano. Antes de morrer, Jesus reza ao Pai, pedindo o perdão para os
seus perseguidores (cf. Lc 23, 34), e ao malfeitor, que Lhe
pede para Se recordar dele no seu reino, responde: « Em verdade te
digo: hoje estarás Comigo no Paraíso » (Lc 23, 43). Depois da
sua morte, « abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos que
estavam mortos, ressuscitaram » (Mt 27, 52). A salvação,
operada por Jesus, é doação de vida e de ressurreição. Ao longo da sua
existência, Jesus tinha concedido a salvação, curando e fazendo o bem
a todos (cf. Act 10, 38). Mas os milagres, as curas e as
próprias ressurreições eram sinal de outra salvação que consiste no
perdão dos pecados, ou seja, na libertação do homem do mal mais
profundo, e na sua elevação à própria vida de Deus.
Na Cruz,
renova-se e realiza-se, em sua perfeição plena e definitiva, o
prodígio da serpente erguida por Moisés no deserto (cf. Jo 3,
14-15; Nm 21, 8-9). Também hoje, voltando o olhar para Aquele
que foi trespassado, cada homem com a sua existência ameaçada recobra
a esperança segura de encontrar libertação e redenção.
51. Mas há
ainda outro acontecimento específico que atrai o meu olhar e merece
compenetrada meditação. « Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou:
"Tudo está consumado". E inclinando a cabeça, entregou o espírito » (Jo
19, 30). E o soldado romano « perfurou-Lhe o lado com uma lança e
logo saiu sangue e água » (Jo 19, 34).
Tudo chegou
já ao seu pleno cumprimento. O « entregar o espírito » exprime
certamente a morte de Jesus, semelhante à de qualquer outro ser
humano, mas parece aludir também ao « dom do Espírito », com que Ele
nos resgata da morte e desperta para uma vida nova.
A própria
vida de Deus é participada ao homem. Mediante os sacramentos da Igreja
— cujo símbolo são o sangue e a água, que brotam do lado de Cristo —,
aquela vida é incessantemente comunicada aos filhos de Deus,
constituídos como povo da nova aliança. Da Cruz, fonte de vida,
nasce e se propaga o « povo da vida ».
Deste modo,
a contemplação da Cruz leva-nos às raízes mais profundas daquilo que
sucedeu. Jesus que, ao entrar no mundo, tinha dito: « Eis que venho, ó
Deus, para fazer a tua vontade » (cf. Heb 10, 9), fez-Se em
tudo obediente ao Pai, e tendo « amado os seus que estavam no mundo,
amou-os até ao fim » (Jo 13, 1), entregando-Se inteiramente por
eles.
Ele que não
« veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por
todos » (Mc 10, 45), chega ao vértice do amor na Cruz: «
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos »
(Jo 15, 13). E Ele morreu por nós, quando éramos ainda
pecadores (cf. Rm 5, 8).
Deste modo,
Cristo proclama que a vida atinge o seu centro, sentido e plenitude
quando é doada.
Chegada a
este ponto, a meditação faz-se louvor e agradecimento e, ao mesmo
tempo, estimula-nos a imitar Jesus e a seguir os seus passos (cf. 1
Ped 2, 21).
Também nós
somos chamados a dar a nossa vida pelos irmãos, realizando assim, na
sua verdade mais plena, o sentido e o destino da nossa existência.
Podê-lo-emos fazer porque Vós, Senhor, nos destes o exemplo e
comunicastes a força do Espírito. Podê-lo-emos fazer se cada dia,
Convosco e como Vós, formos obedientes ao Pai e fizermos a sua
vontade.
Concedei-nos, pois, ouvir com coração dócil e generoso toda a palavra
que sai da boca de Deus: aprenderemos assim não apenas a « não matar »
a vida do homem, mas também a sabê-la venerar, amar e promover.
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CAPÍTULO III
NÃO
MATARÁS
A LEI SANTA DE DEUS
« Se
queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos » (Mt
19, 17): Evangelho e mandamento
52. «
Aproximou-se d'Ele um jovem e disse- -Lhe: "Que hei-de fazer de bom
para alcançar a vida eterna?" » (Mt 19, 16). Jesus respondeu: «
Se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos » (Mt
19, 17). O Mestre fala da vida eterna, isto é, da participação na
própria vida de Deus. A esta vida, chega-se através da observância dos
mandamentos, incluindo naturalmente aquele que diz « não matarás ».
Este é precisamente o primeiro preceito do Decálogo que Jesus recorda
ao jovem, quando este Lhe solicita os mandamentos que terá de cumprir:
« Retorquiu Jesus: "Não matarás; não cometerás adultério; não
roubarás..." » (Mt 19, 18).
O
mandamento de Deus nunca está separado do seu amor: é sempre um
dom para o crescimento e a alegria do homem. Como tal, constitui um
aspecto essencial e um elemento inalienável do Evangelho, mais, o
próprio mandamento se configura como « evangelho », ou seja, uma boa e
feliz notícia. Também o Evangelho da vida é um grande dom de
Deus e simultaneamente uma exigente tarefa para o homem. Aquele
suscita assombro e gratidão na pessoa livre e pede para ser acolhido,
guardado e valorizado com vivo sentimento de responsabilidade:
dando-lhe a vida, Deus exige do homem que a ame, respeite e
promova. Deste modo, o dom faz-se mandamento, e o mandamento
é em si mesmo um dom.
Imagem viva
de Deus, o homem foi querido pelo seu Criador como rei e senhor. «
Deus fez o homem — escreve S. Gregório de Nissa — de forma tal que
pudesse desempenhar a sua função de rei da terra. (...) O homem foi
criado à imagem d'Aquele que governa o universo. Tudo indica que,
desde o princípio, a sua natureza está marcada pela realeza. (...)
Assim a natureza humana, criada para ser senhora das outras criaturas,
à semelhança do Soberano do universo, foi estabelecida como sua imagem
viva, participante da dignidade do divino Arquétipo ». 38 Chamado para
ser fecundo e multiplicar-se, sujeitar a terra e dominar sobre os
seres que lhe são inferiores (cf. Gn 1, 28), o homem é rei e
senhor não apenas das coisas, mas também e primariamente de si mesmo
39 e, em certo sentido, da vida que lhe é dada e que ele pode
transmitir por meio da geração cumprida no amor e no respeito do
desígnio de Deus. No entanto, o seu domínio não é absoluto, mas
ministerial: é reflexo concreto do domínio único e infinito de
Deus. Por isso, o homem deve vivê-lo com sabedoria e amor,
participando da sabedoria e do amor incomensurável de Deus. E isto
verifica-se pela obediência à sua Lei santa: uma obediência livre e
alegre (cf. Sal 119 118) que nasce e se alimenta da certeza de
que os preceitos do Senhor são dons de graça, confiados ao homem
sempre e só para o seu bem, para a defesa da sua dignidade pessoal e
para a prossecução da sua felicidade.
Aquilo que
foi dito no referente às coisas, vale ainda mais agora no contexto da
vida: o homem não é senhor absoluto e árbitro incontestável, mas — e
nisso está a sua grandeza incomparável — é « ministro do desígnio de
Deus ». 40
A vida é
confiada ao homem como um tesouro que não pode malbaratar, como um
talento que há-de pôr a render. Dela terá de prestar contas ao seu
Senhor (cf. Mt 25, 14-30; Lc 19, 12-27). |
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« Ao
homem, pedirei contas da vida do homem » (Gn 9, 5): a
vida humana é sagrada e inviolável
53. « A
vida humana é sagrada, porque, desde a sua origem, supõe "a acção
criadora de Deus" e mantém-se para sempre numa relação especial com o
Criador, seu único fim. Só Deus é senhor da vida, desde o princípio
até ao fim: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o
direito de destruir directamente um ser humano inocente ». 41 Com
estas palavras, a Instrução Donum vitae expõe o conteúdo
central da revelação de Deus sobre a sacralidade e inviolabilidade da
vida humana.
De facto, a
Sagrada Escritura apresenta ao homem o preceito « não matarás »
(Ex 20, 13; Dt 5, 17) como mandamento divino. Como já
sublinhei, encontra-se no Decálogo, no coração da Aliança, que o
Senhor concluiu com o povo eleito; mas estava já contido na aliança
primordial de Deus com a humanidade, após o castigo purificador do
dilúvio, que fora provocado pelo incremento do pecado e da violência
(cf. Gn 9, 5-6).
Deus
proclama-Se Senhor absoluto da vida do homem, formado à sua imagem e
semelhança (cf. Gn 1, 26-28). A vida humana possui, portanto,
um carácter sagrado e inviolável, no qual se reflecte a própria
inviolabilidade do Criador. Por isso mesmo, será Deus que Se fará juiz
severo de qualquer violação do mandamento « não matarás », colocado na
base de toda a convivência social. Deus é o go'el, ou seja, o
defensor do inocente (cf. Gn 4, 9-15; Is 41, 14; Jr
50, 34; Sal 19 18, 15). Deus comprova, assim também, que
não Se alegra com a perdição dos vivos (cf. Sab 1, 13). Com
esta, apenas Satanás se pode alegrar: foi pela sua inveja que a morte
entrou no mundo (cf. Sab 2, 24). « Assassino desde o princípio
», o diabo é também « mentiroso e pai da mentira » (Jo 8, 44):
enganando o homem, levou-o para metas de pecado e de morte,
apresentadas como objectivos e frutos de vida.
54. O
preceito « não matarás », explicitamente, tem um forte conteúdo
negativo: indica o limite extremo que nunca poderá ser transposto.
Implicitamente, porém, induz a uma atitude positiva de respeito
absoluto pela vida, levando a promovê-la e a crescer seguindo a
estrada do amor que se dá, acolhe e serve. Também o povo da Aliança,
ainda que lentamente e não sem contradições, experimentou um
amadurecimento progressivo nessa direcção, preparando-se assim para a
grande proclamação de Jesus: o amor do próximo é um mandamento
semelhante ao do amor de Deus; « destes dois mandamentos depende toda
a Lei e os Profetas » (Mt 22, 36-40). « Com efeito, (...) não
matarás (...) e qualquer dos outros mandamentos — sublinha S. Paulo —
resumem-se nestas palavras: "Amarás ao próximo como a ti mesmo" » (Rm
13, 9; cf. Gal 5, 14). Assumido e levado à perfeição na
Nova Lei, o preceito « não matarás » permanece como condição
indispensável para poder « entrar na vida » (cf. Mt 19, 16-19).
E, nesta mesma perspectiva, aponta decisivamente a palavra do apóstolo
João: « Todo aquele que odeia o seu irmão é homicida e sabeis que
nenhum homicida tem a vida eterna permanentemente em si » (1 Jo
3, 15).
Desde os
seus primórdios, a Tradição viva da Igreja — como testemunha a
Didaké, o escrito cristão extra-bíblico mais antigo — reafirmou
de modo categórico o mandamento « não matarás »: « Há dois caminhos,
um da vida e o outro da morte; mas entre os dois existe uma grande
diferença. (...) Segundo o preceito da doutrina: não matarás; (...)
não matarás o embrião por meio do aborto, nem farás que morra o
recém-nascido. (...) Este é o caminho da morte: (...) não têm
compaixão do pobre, não sofrem com o enfermo, nem reconhecem o seu
Criador; assassinam os seus filhos e pelo aborto fazem perecer
criaturas de Deus; desprezam o necessitado, oprimem o atribulado, são
defensores dos ricos e juízes injustos dos pobres; estão cheios de
todo o pecado. Possais, filhos, permanecer sempre longe de todas estas
culpas! ». 42
Ao longo
dos tempos, a Tradição da Igreja ensinou sempre e unanimamente o valor
absoluto e permanente do mandamento « não matarás ». É sabido que, nos
primeiros séculos, o homicídio se contava entre os três pecados mais
graves — juntamente com a apostasia e o adultério —, e exigia-se uma
penitência pública particularmente onerosa e demorada, antes de ser
concedido ao homicida arrependido o perdão e a readmissão na
comunidade eclesial.
55. Não há
de que se maravilhar! Matar o ser humano, no qual está presente a
imagem de Deus, é pecado de particular gravidade. Só Deus é dono da
vida! No entanto, frente aos múltiplos casos, frequentemente
dramáticos, que a vida individual e social apresenta, a reflexão dos
crentes procurou sempre alcançar um conhecimento mais completo e
profundo daquilo que o mandamento de Deus proíbe e prescreve. 43 Com
efeito, há situações onde os valores propostos pela Lei de Deus
parecem formar um verdadeiro paradoxo. É o caso, por exemplo, da
legítima defesa, onde o direito de proteger a própria vida e o
dever de não lesar a alheia se revelam, na prática, dificilmente
conciliáveis. Sem dúvida que o valor intrínseco da vida e o dever de
dedicar um amor a si mesmo não menor que aos outros, fundam um
verdadeiro direito à própria defesa. O próprio preceito que manda
amar os outros, enunciado no Antigo Testamento e confirmado por Jesus,
supõe o amor a si mesmo como termo de comparação: « Amarás o teu
próximo como a ti mesmo » (Mc 12, 31). Portanto, ninguém
poderia renunciar ao direito de se defender por carência de amor à
vida ou a si mesmo, mas apenas em virtude de um amor heróico que, na
linha do espírito das bem-aventuranças evangélicas (cf. Mt 5,
38- 48), aprofunde o amor a si mesmo, transfigurando-o naquela oblação
radical cujo exemplo mais sublime é o próprio Senhor Jesus.
Por outro
lado, « a legítima defesa pode ser, não somente um direito, mas um
dever grave, para aquele que é responsável pela vida de outrem, do bem
comum da família ou da sociedade ». 44 Acontece, infelizmente, que a
necessidade de colocar o agressor em condições de não molestar
implique, às vezes, a sua eliminação. Nesta hipótese, o desfecho
mortal há-de ser atribuído ao próprio agressor que a tal se expôs com
a sua acção, inclusive no caso em que ele não fosse moralmente
responsável por falta do uso da razão. 45
56. Nesta
linha, coloca-se o problema da pena de morte, à volta do qual
se regista, tanto na Igreja como na sociedade, a tendência crescente
para pedir uma aplicação muito limitada, ou melhor, a total abolição
da mesma. O problema há-de ser enquadrado na perspectiva de uma
justiça penal, que seja cada vez mais conforme com a dignidade do
homem e portanto, em última análise, com o desígnio de Deus para o
homem e a sociedade. Na verdade, a pena, que a sociedade inflige, tem
« como primeiro efeito o de compensar a desordem introduzida pela
falta ». 46 A autoridade pública deve fazer justiça pela violação dos
direitos pessoais e sociais, impondo ao réu uma adequada expiação do
crime como condição para ser readmitido no exercício da própria
liberdade. Deste modo, a autoridade há-de procurar alcançar o
objectivo de defender a ordem pública e a segurança das pessoas, não
deixando, contudo, de oferecer estímulo e ajuda ao próprio réu para se
corrigir e redimir. 47
Claro está
que, para bem conseguir todos estes fins, a medida e a qualidade da
pena hão-de ser atentamente ponderadas e decididas, não se devendo
chegar à medida extrema da execução do réu senão em casos de absoluta
necessidade, ou seja, quando a defesa da sociedade não fosse possível
de outro modo. Mas, hoje, graças à organização cada vez mais adequada
da instituição penal, esses casos são já muito raros, se não mesmo
praticamente inexistentes.
Em todo o
caso, permanece válido o princípio indicado pelo novo Catecismo da
Igreja Católica: « na medida em que outros processos, que não a
pena de morte e as operações militares, bastarem para defender as
vidas humanas contra o agressor e para proteger a paz pública, tais
processos não sangrentos devem preferir-se, por serem proporcionados e
mais conformes com o fim em vista e a dignidade humana ». 48
57. Se se
deve mostrar uma atenção assim tão grande por qualquer vida, mesmo
pela do réu e a do injusto agressor, o mandamento « não matarás » tem
valor absoluto quando se refere à pessoa inocente. E mais
ainda, quando se trata de um ser frágil e inerme que encontra a sua
defesa radical do arbítrio e da prepotência alheia, unicamente na
força absoluta do mandamento de Deus.
De facto, a
inviolabilidade absoluta da vida humana inocente é uma verdade moral
explicitamente ensinada na Sagrada Escritura, constantemente mantida
na Tradição da Igreja e unanimamente proposta pelo seu Magistério. Tal
unanimidade é fruto evidente daquele « sentido sobrenatural da fé »
que, suscitado e apoiado pelo Espírito Santo, preserva do erro o Povo
de Deus, quando « manifesta consenso universal em matéria de fé e
costumes ». 49
Face ao
progressivo enfraquecimento, nas consciências e na sociedade, da
percepção da absoluta e grave ilicitude moral da eliminação directa de
qualquer vida humana inocente, sobretudo no seu início e no seu termo,
o Magistério da Igreja intensificou as suas intervenções em
defesa da sacralidade e inviolabilidade da vida humana. Ao Magistério
pontifício, particularmente insistente, sempre se uniu o Magistério
episcopal, com numerosos e amplos documentos doutrinais e pastorais
emanados quer pelas Conferências Episcopais, quer pelos Bispos
individualmente. Não faltou sequer, forte e incisiva na sua brevidade,
a intervenção do Concílio Vaticano II. 50
Portanto,
com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus Sucessores, em
comunhão com os Bispos da Igreja Católica,confirmo que a morte
directa e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente
imoral. Esta doutrina, fundada naquela lei não-escrita que todo o
homem, pela luz da razão, encontra no próprio coração (cf. Rm
2, 14-15), é confirmada pela Sagrada Escritura, transmitida pela
Tradição da Igreja e ensinada pelo Magisterio ordinário e universal.
51
A decisão
deliberada de privar um ser humano inocente da sua vida é sempre má do
ponto de vista moral, e nunca pode ser lícita nem como fim, nem como
meio para um fim bom. É, de facto, uma grave desobediência à lei
moral, antes ao próprio Deus, autor e garante desta; contradiz as
virtudes fundamentais da justiça e da caridade. « Nada e ninguém pode
autorizar que se dê a morte a um ser humano inocente seja ele feto ou
embrião, criança ou adulto, velho, doente incurável ou agonizante. E
também a ninguém é permitido requerer este gesto homicida para si ou
para outrem confiado à sua responsabilidade, nem sequer consenti-lo
explícita ou implicitamente. Não há autoridade alguma que o possa
legitimamente impor ou permitir ». 52
No
referente ao direito à vida, cada ser humano inocente é absolutamente
igual a todos os demais. Esta igualdade é a base de todo o
relacionamento social autêntico, o qual, para o ser verdadeiramente,
não pode deixar de se fundar sobre a verdade e a justiça, reconhecendo
e tutelando cada homem e cada mulher como pessoa, e não como coisa de
que se possa dispor. Diante da norma moral que proíbe a eliminação
directa de um ser humano inocente, « não existem privilégios, nem
excepções para ninguém. Ser o dono do mundo ou o último
"miserável" sobre a face da terra, não faz diferença alguma: perante
as exigências morais, todos somos absolutamente iguais ». 53 |
|
«
Vossos olhos contemplaram-me ainda em embrião » (Sal 139
138, 16): o crime abominável do aborto
58. Dentre
todos os crimes que o homem pode realizar contra a vida, o aborto
provocado apresenta características que o tornam particularmente grave
e abjurável. O Concílio Vaticano II define-o, juntamente com o
infanticídio, « crime abominável ». 54
Mas hoje, a
percepção da sua gravidade vai-se obscurecendo progressivamente em
muitas consciências. A aceitação do aborto na mentalidade, nos
costumes e na própria lei, é sinal eloquente de uma perigosíssima
crise do sentido moral que se torna cada vez mais incapaz de
distinguir o bem do mal, mesmo quando está em jogo o direito
fundamental à vida. Diante de tão grave situação, impõe-se mais que
nunca a coragem de olhar frontalmente a verdade e chamar as coisas
pelo seu nome, sem ceder a compromissos com o que nos é mais
cómodo, nem à tentação de auto-engano. A propósito disto, ressoa
categórica a censura do Profeta: « Ai dos que ao mal chamam bem, e ao
bem, mal, que têm as trevas por luz e a luz por trevas » (Is 5,
20). Precisamente no caso do aborto, verifica-se a difusão de uma
terminologia ambígua, como « interrupção da gravidez », que tende a
esconder a verdadeira natureza dele e a atenuar a sua gravidade na
opinião pública. Talvez este fenómeno linguístico seja já, em si
mesmo, sintoma de um mal-estar das consciências. Mas nenhuma palavra
basta para alterar a realidade das coisas: o aborto provocado é a
morte deliberada e directa, independentemente da forma como venha
realizada, de um ser humano na fase inicial da sua existência, que vai
da concepção ao nascimento.
A gravidade
moral do aborto provocado aparece em toda a sua verdade, quando se
reconhece que se trata de um homicídio e, particularmente, quando se
consideram as circunstâncias específicas que o qualificam. A pessoa
eliminada é um ser humano que começa a desabrochar para a vida, isto
é, o que de mais inocente, em absoluto, se possa imaginar:
nunca poderia ser considerado um agressor, menos ainda um injusto
agressor! É frágil, inerme, e numa medida tal que o deixa
privado inclusive daquela forma mínima de defesa constituída pela
força suplicante dos gemidos e do choro do recém-nascido. Está
totalmente entregue à protecção e aos cuidados daquela que o traz
no seio. E todavia, às vezes, é precisamente ela, a mãe, quem decide e
pede a sua eliminação, ou até a provoca.
É verdade
que, muitas vezes, a opção de abortar reveste para a mãe um carácter
dramático e doloroso: a decisão de se desfazer do fruto concebido não
é tomada por razões puramente egoístas ou de comodidade, mas porque se
quereriam salvaguardar alguns bens importantes como a própria saúde ou
um nível de vida digno para os outros membros da família. Às vezes,
temem-se para o nascituro condições de existência tais que levam a
pensar que seria melhor para ele não nascer. Mas estas e outras razões
semelhantes, por mais graves e dramáticas que sejam, nunca podem
justificar a supressão deliberada de um ser humano inocente.
59. A
decidirem a morte da criança ainda não nascida, a par da mãe,
aparecem, com frequência, outras pessoas. Antes de mais, culpado pode
ser o pai da criança, não apenas quando claramente constringe a mulher
ao aborto, mas também quando favorece indirectamente tal decisão ao
deixá-la sozinha com os problemas de uma gravidez: 55 desse modo, a
família fica mortalmente ferida e profanada na sua natureza de
comunidade de amor e na sua vocação para ser « santuário da vida ».
Nem se podem calar as solicitações que, às vezes, provêm do âmbito
familiar mais alargado e dos amigos. A mulher, não raro, é sujeita a
pressões tão fortes que se sente psicologicamente constrangida a ceder
ao aborto: não há dúvida que, neste caso, a responsabilidade moral
pesa particularmente sobre aqueles que directa ou indirectamente a
forçaram a abortar. Responsáveis são também os médicos e restantes
profissionais da saúde, sempre que põem ao serviço da morte a
competência adquirida para promover a vida.
Mas a
responsabilidade cai ainda sobre os legisladores que promoveram e
aprovaram leis abortistas, e sobre os administradores das estruturas
clínicas onde se praticam os abortos, na medida em que a sua execução
deles dependa. Uma responsabilidade geral, mas não menos grave, cabe a
todos aqueles que favoreceram a difusão de uma mentalidade de
permissivismo sexual e de menosprezo pela maternidade, como também
àqueles que deveriam ter assegurado — e não o fizeram — válidas
políticas familiares e sociais de apoio às famílias, especialmente às
mais numerosas ou com particulares dificuldades económicas e
educativas. Não se pode subestimar, enfim, a vasta rede de
cumplicidades, nela incluindo instituições internacionais, fundações e
associações, que se batem sistematicamente pela legalização e difusão
do aborto no mundo. Neste sentido, o aborto ultrapassa a
responsabilidade dos indivíduos e o dano que lhes é causado, para
assumir uma dimensão fortemente social: é uma ferida gravíssima
infligida à sociedade e à sua cultura por aqueles que deveriam ser os
seus construtores e defensores. Como escrevi na Carta às Famílias,
« encontramo-nos defronte a uma enorme ameaça contra a vida, não
apenas dos simples indivíduos, mas também de toda a civilização ». 56
Achamo-nos perante algo que bem se pode definir uma « estrutura de
pecado » contra a vida humana ainda não nascida.
60. Alguns
tentam justificar o aborto, defendendo que o fruto da concepção, pelo
menos até um certo número de dias, não pode ainda ser considerado uma
vida humana pessoal. Na realidade, porém, « a partir do momento em que
o óvulo é fecundado, inaugura-se uma nova vida que não é a do pai nem
a da mãe, mas sim a de um novo ser humano que se desenvolve por conta
própria. Nunca mais se tornaria humana, se não o fosse já desde então.
A esta evidência de sempre (...) a ciência genética moderna fornece
preciosas confirmações. Demonstrou que, desde o primeiro instante, se
encontra fixado o programa daquilo que será este ser vivo: uma pessoa,
esta pessoa individual, com as suas notas características já bem
determinadas. Desde a fecundação, tem início a aventura de uma vida
humana, cujas grandes capacidades, já presentes cada uma delas, apenas
exigem tempo para se organizar e encontrar prontas a agir ». 57 Não
podendo a presença de uma alma espiritual ser assinalada através da
observação de qualquer dado experimental, são as próprias conclusões
da ciência sobre o embrião humano a fornecer « uma indicação valiosa
para discernir racionalmente uma presença pessoal já a partir desta
primeira aparição de uma vida humana: como poderia um indivíduo humano
não ser uma pessoa humana? ». 58
Aliás, o
valor em jogo é tal que, sob o perfil moral, bastaria a simples
probabilidade de encontrar-se em presença de uma pessoa para se
justificar a mais categórica proibição de qualquer intervenção
tendente a eliminar o embrião humano. Por isso mesmo,
independentemente dos debates científicos e mesmo das afirmações
filosóficas com os quais o Magistério não se empenhou expressamente, a
Igreja sempre ensinou — e ensina — que tem de ser garantido ao fruto
da geração humana, desde o primeiro instante da sua existência, o
respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua
totalidade e unidade corporal e espiritual: « O ser humano deve ser
respeitado e tratado como uma pessoa desde a sua concepção e, por
isso, desde esse mesmo momento, devem-lhe ser reconhecidos os direitos
da pessoa, entre os quais e primeiro de todos, o direito inviolável de
cada ser humano inocente à vida ». 59
61. Os
textos da Sagrada Escritura, que nunca falam do aborto
voluntário e, por conseguinte, também não apresentam condenações
directas e específicas do mesmo, mostram pelo ser humano no seio
materno uma consideração tal que exige, como lógica consequência, que
se estenda também a ele o mandamento de Deus: « não matarás ».
A vida
humana é sagrada e inviolável em cada momento da sua existência,
inclusive na fase inicial que precede o nascimento. Desde o seio
materno, o homem pertence a Deus que tudo perscruta e conhece, que o
forma e plasma com suas mãos, que o vê quando ainda é um pequeno
embrião informe, e que nele entrevê o adulto de amanhã, cujos dias
estão todos contados e cuja vocação está já escrita no « livro da vida
» (cf. Sal 139 138, 1.13-16). Quando está ainda no seio materno
— como testemunham numerosos textos bíblicos 60 — já o homem é objecto
muito pessoal da amorosa e paterna providência de Deus.
A
Tradição cristã — como justamente se realça na Declaração
sobre esta matéria, emanada pela Congregação para a Doutrina da Fé 61
— é clara e unânime, desde as suas origens até aos nossos dias, em
classificar o aborto como desordem moral particularmente grave. A
comunidade cristã, desde o seu primeiro confronto com o mundo
greco-romano onde se praticava amplamente o aborto e o infanticídio,
opôs-se radicalmente, com a sua doutrina e a sua praxe, aos costumes
generalizados naquela sociedade, como o demonstra a já citada
Didaké. 62 Entre os escritores eclesiásticos da área linguística
grega, Atenágoras recorda que os cristãos consideram homicidas as
mulheres que recorrem a produtos abortivos, porque os filhos, apesar
de estarem ainda no seio da mãe, « são já objecto dos cuidados da
Providência divina ». 63 Entre os latinos, Tertuliano afirma: « É um
homicídio premeditado impedir de nascer; pouco importa que se suprima
a alma já nascida ou que se faça desaparecer durante o tempo até ao
nascer. É já um homem aquele que o será ». 64
Ao longo da
sua história já bimilenária, esta mesma doutrina foi constantemente
ensinada pelos Padres da Igreja, pelos seus Pastores e Doutores. Mesmo
as discussões de carácter científico e filosófico acerca do momento
preciso da infusão da alma espiritual não incluíram nunca a mínima
hesitação quanto à condenação moral do aborto.
62. O
Magistério pontifício mais recente reafirmou, com grande vigor,
esta doutrina comum. Em particular Pio XI, na encíclicaCasti
connubii rejeitou as alegadas justificações do aborto; 65 Pio XII
excluiu todo o aborto directo, isto é, qualquer acto que vise
directamente destruir a vida humana ainda não nascida, « quer tal
destruição seja pretendida como fim ou apenas como meio para o fim »;
66 João XXIII corroborou que a vida humana é sagrada, porque « desde o
seu despontar empenha directamente a acção criadora de Deus ». 67 O
Concílio Vaticano II, como já foi recordado, condenou o aborto com
grande severidade: « A vida deve, pois, ser salvaguardada com extrema
solicitude, desde o primeiro momento da concepção; o aborto e o
infanticídio são crimes abomináveis ». 68
A
disciplina canónica da Igreja, desde os primeiros séculos, puniu
com sanções penais aqueles que se manchavam com a culpa do aborto, e
tal praxe, com penas mais ou menos graves, foi confirmada nos
sucessivos períodos históricos. O Código de Direito Canónico de
1917, para o aborto, prescrevia a pena de excomunhão. 69 Também a
legislação canónica, há pouco renovada, continua nesta linha quando
determina que « quem procurar o aborto, seguindo-se o efeito, incorre
em excomunhão latae sententiae », 70 isto é, automática. A
excomunhão recai sobre todos aqueles que cometem este crime com
conhecimento da pena, incluindo também cúmplices sem cujo contributo o
aborto não se teria realizado: 71 com uma sanção assim reiterada, a
Igreja aponta este crime como um dos mais graves e perigosos,
incitando, deste modo, quem o comete a ingressar diligentemente pela
estrada da conversão. Na Igreja, de facto, a finalidade da pena de
excomunhão é tornar plenamente consciente da gravidade de um
determinado pecado e, consequentemente, favorecer a adequada conversão
e penitência.
Frente a
semelhante unanimidade na tradição doutrinal e disciplinar da Igreja,
Paulo VI pôde declarar que tal ensinamento não conheceu mudança e é
imutável. 72 Portanto, com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e
aos seus Sucessores, em comunhão com os Bispos — que de várias e
repetidas formas condenaram o aborto e que, na consulta referida
anteriormente, apesar de dispersos pelo mundo, afirmaram unânime
consenso sobre esta doutrina — declaro que o aborto directo, isto
é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral
grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Tal
doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus
escrita, é transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo
Magistério ordinário e universal. 73
Nenhuma
circunstância, nenhum fim, nenhuma lei no mundo poderá jamais tornar
lícito um acto que é intrinsecamente ilícito, porque contrário à Lei
de Deus, inscrita no coração de cada homem, reconhecível pela própria
razão, e proclamada pela Igreja.
63. A
avaliação moral do aborto deve aplicar-se também às recentes formas de
intervenção sobre embriões humanos, que, não obstante visarem
objectivos em si legítimos, implicam inevitavelmente a sua morte. É o
caso da experimentação sobre embriões, em crescente expansão no
campo da pesquisa biomédica e legalmente admitida em alguns países. Se
« devem ser consideradas lícitas as intervenções no embrião humano,
sob a condição de que respeitem a vida e a integridade do embrião, não
comportem para ele riscos desproporcionados, e sejam orientadas para a
sua cura, para a melhoria das suas condições de saúde ou para a sua
sobrevivência individual », 74 impõe-se, pelo contrário, afirmar que o
uso de embriões ou de fetos humanos como objecto de experimentação
constitui um crime contra a sua dignidade de seres humanos, que têm
direito ao mesmo respeito devido à criança já nascida e a qualquer
pessoa. 75
A mesma
condenação moral vale para o sistema que desfruta os embriões e os
fetos humanos ainda vivos — às vezes « produzidos » propositadamente
para este fim através da fecundação in vitro — seja como « material
biológico » à disposição, seja como fornecedores de órgãos ou de
tecidos para transplante no tratamento de algumas doenças. Na
realidade, o assassínio de criaturas humanas inocentes, ainda que com
vantagem para outras, constitui um acto absolutamente inaceitável.
Especial
atenção há-de ser reservada à avaliação moral das técnicas de
diagnose pré-natal, que permitem individuar precocemente eventuais
anomalias do nascituro. Com efeito, devido à complexidade dessas
técnicas, a avaliação em causa deve fazer-se mais cuidadosa e
articuladamente. Quando estão isentas de riscos desproporcionados para
a criança e para a mãe, e se destinam a tornar possível uma terapia
precoce ou ainda a favorecer uma serena e consciente aceitação do
nascituro, estas técnicas são moralmente lícitas. Mas, dado que as
possibilidade de cura antes do nascimento são hoje ainda reduzidas,
acontece bastantes vezes que essas técnicas são postas ao serviço de
uma mentalidade eugenista que aceita o aborto selectivo, para impedir
o nascimento de crianças afectadas por tipos vários de anomalias.
Semelhante mentalidade é ignominiosa e absolutamente reprovável,
porque pretende medir o valor de uma vida humana apenas segundo
parâmetros de « normalidade » e de bem-estar físico, abrindo assim a
estrada à legitimação do infanticídio e da eutanásia.
Na
realidade, porém, a própria coragem e serenidade com que muitos irmãos
nossos, afectados por graves deficiências, conduzem a sua existência
quando são aceites e amados por nós, constituem um testemunho
particularmente eficaz dos valores autênticos que qualificam a vida e
a tornam, mesmo em condições difíceis, preciosa para o próprio e para
os outros. A Igreja sente-se solidária com os cônjuges que, com grande
ansiedade e sofrimento, aceitam acolher os seus filhos gravemente
deficientes, tal como se sente grata a todas as famílias que, pela
adopção, acolhem os que são abandonados pelos seus pais por causa de
limitações ou doenças. |
|
« Só
Eu é que dou a vida e dou a morte » (Dt 32, 39): o drama
da eutanásia
64. No
outro topo da existência, o homem encontra-se diante do mistério da
morte. Hoje, na sequência dos progressos da medicina e num contexto
cultural frequentemente fechado à transcendência, a experiência do
morrer apresenta-se com algumas características novas. Com efeito,
quando prevalece a tendência para apreciar a vida só na medida em que
proporciona prazer e bem-estar, o sofrimento aparece como um
contratempo insuportável, de que é preciso libertar-se a todo o custo.
A morte, considerada como « absurda » quando interrompe
inesperadamente uma vida ainda aberta para um futuro rico de possíveis
experiências interessantes, torna-se, pelo contrário, uma « libertação
reivindicada », quando a existência é tida como já privada de sentido
porque mergulhada na dor e inexoravelmente votada a um sofrimento
sempre mais intenso.
Além disso,
recusando ou esquecendo o seu relacionamento fundamental com Deus, o
homem pensa que é critério e norma de si mesmo e julga que tem
inclusive o direito de pedir à sociedade que lhe garanta
possibilidades e modos de decidir da própria vida com plena e total
autonomia. Em particular, o homem que vive nos países desenvolvidos é
que assim se comporta: a tal se sente impelido, entre outras coisas,
pelos contínuos progressos da medicina e das suas técnicas cada vez
mais avançadas. Por meio de sistemas e aparelhagens extremamente
sofisticadas, hoje a ciência e a prática médica são capazes de
resolver casos anteriormente insolúveis e de aliviar ou eliminar a
dor, como também de sustentar e prolongar a vida até em situações de
debilidade extrema, de reanimar artificialmente pessoas cujas funções
biológicas elementares sofreram danos imprevistos, de intervir para
tornar disponíveis órgãos para transplante.
Num tal
contexto, torna-se cada vez mais forte a tentação daeutanásia,
isto é, de apoderar-se da morte, provocando-a antes do tempo e,
deste modo, pondo fim « docemente » à vida própria ou alheia. Na
realidade, aquilo que poderia parecer lógico e humano, quando visto em
profundidade, apresenta-se absurdo e desumano. Estamos aqui
perante um dos sintomas mais alarmantes da « cultura de morte » que
avança sobretudo nas sociedades do bem-estar, caracterizadas por uma
mentalidade eficientista que faz aparecer demasiadamente gravoso e
insuportável o número crescente das pessoas idosas e debilitadas. Com
muita frequência, estas acabam por ser isoladas da família e da
sociedade, organizada quase exclusivamente sobre a base de critérios
de eficiência produtiva, segundo os quais uma vida irremediavelmente
incapaz não tem mais qualquer valor.
65. Para um
correcto juízo moral da eutanásia, é preciso, antes de mais, defini-la
claramente. Por eutanásia, em sentido verdadeiro e próprio,
deve-se entender uma acção ou uma omissão que, por sua natureza e nas
intenções, provoca a morte com o objectivo de eliminar o sofrimento. «
A eutanásia situa-se, portanto, ao nível das intenções e ao nível dos
métodos empregues ». 76
Distinta da
eutanásia é a decisão de renunciar ao chamado « excesso terapêutico
», ou seja, a certas intervenções médicas já inadequadas à
situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados que
se poderiam esperar ou ainda porque demasiado gravosas para ele e para
a sua família. Nestas situações, quando a morte se anuncia iminente e
inevitável, pode-se em consciência « renunciar a tratamentos que
dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem,
contudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos
semelhantes ». 77 Há, sem dúvida, a obrigação moral de se tratar e
procurar curar-se, mas essa obrigação há-de medir-se segundo as
situações concretas, isto é, impõe-se avaliar se os meios terapêuticos
à disposição são objectivamente proporcionados às perspectivas de
melhoramento. A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados
não equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação
da condição humana defronte à morte. 78
Na medicina
actual, têm adquirido particular importância os denominados «
cuidados paliativos », destinados a tornar o sofrimento mais
suportável na fase aguda da doença e assegurar ao mesmo tempo ao
paciente um adequado acompanhamento humano. Neste contexto, entre
outros problemas, levanta-se o da licitude do recurso aos diversos
tipos de analgésicos e sedativos para aliviar o doente da dor, quando
isso comporta o risco de lhe abreviar a vida. Ora, se pode realmente
ser considerado digno de louvor quem voluntariamente aceita sofrer
renunciando aos meios lenitivos da dor, para conservar a plena lucidez
e, se crente, participar, de maneira consciente, na Paixão do Senhor,
tal comportamento « heróico » não pode ser considerado obrigatório
para todos. Já Pio XII afirmara que é lícito suprimir a dor por meio
de narcóticos, mesmo com a consequência de limitar a consciência e
abreviar a vida, « se não existem outros meios e se, naquelas
circunstâncias, isso em nada impede o cumprimento de outros deveres
religiosos e morais ». 79 É que, neste caso, a morte não é querida ou
procurada, embora por motivos razoáveis se corra o risco dela:
pretende- -se simplesmente aliviar a dor de maneira eficaz, recorrendo
aos analgésicos postos à disposição pela medicina. Contudo, « não se
deve privar o moribundo da consciência de si mesmo, sem motivo grave
»: 80 quando se aproxima a morte, as pessoas devem estar em condições
de poder satisfazer as suas obrigações morais e familiares, e devem
sobretudo poder-se preparar com plena consciência para o encontro
definitivo com Deus.
Feitas
estas distinções, em conformidade com o Magistério dos meus
Predecessores 81 e em comunhão com os Bispos da Igreja Católica,
confirmo que a eutanásia é uma violação grave da Lei de Deus,
enquanto morte deliberada moralmente inaceitável de uma pessoa humana.
Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de
Deus escrita, é transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo
Magistério ordinário e universal. 82
A eutanásia
comporta, segundo as circunstâncias, a malícia própria do suicídio ou
do homicídio.
66. Ora, o
suicídio é sempre moralmente inaceitável, tal como o homicídio. A
tradição da Igreja sempre o recusou, como opção gravemente má. 83
Embora certos condicionalismos psicológicos, culturais e sociais
possam levar a realizar um gesto que tão radicalmente contradiz a
inclinação natural de cada um à vida, atenuando ou anulando a
responsabilidade subjectiva, o suicídio, sob o perfil
objectivo, é um acto gravemente imoral, porque comporta a recusa do
amor por si mesmo e a renúncia aos deveres de justiça e caridade para
com o próximo, com as várias comunidades de que se faz parte, e com a
sociedade no seu conjunto. 84 No seu núcleo mais profundo, o suicídio
constitui uma rejeição da soberania absoluta de Deus sobre a vida e
sobre a morte, deste modo proclamada na oração do antigo Sábio de
Israel: « Vós, Senhor, tendes o poder da vida e da morte, e conduzis
os fortes à porta do Hades e de lá os tirais » (Sab 16, 13; cf.
Tob 13, 2).
Compartilhar a intenção suicida de outrem e ajudar a realizá-la
mediante o chamado « suicídio assistido », significa fazer-se
colaborador e, por vezes, autor em primeira pessoa de uma injustiça
que nunca pode ser justificada, nem sequer quando requerida. « Nunca é
lícito — escreve com admirável actualidade Santo Agostinho — matar o
outro: ainda que ele o quisesse, mesmo se ele o pedisse, porque,
suspenso entre a vida e a morte, suplica ser ajudado a libertar a alma
que luta contra os laços do corpo e deseja desprender-se; nem é lícito
sequer quando o doente já não estivesse em condições de sobreviver ».
85 Mesmo quando não é motivada pela recusa egoísta de cuidar da vida
de quem sofre, a eutanásia deve designar-se uma falsa compaixão,
antes uma preocupante « perversão » da mesma: a verdadeira « compaixão
», de facto, torna solidário com a dor alheia, não suprime aquele de
quem não se pode suportar o sofrimento. E mais perverso ainda se
manifesta o gesto da eutanásia, quando é realizado por aqueles que —
como os parentes — deveriam assistir com paciência e amor o seu
familiar, ou por quantos — como os médicos —, pela sua específica
profissão, deveriam tratar o doente, inclusive nas condições terminais
mais penosas.
A decisão
da eutanásia torna-se mais grave, quando se configura como um
homicídio, que os outros praticam sobre uma pessoa que não a pediu
de modo algum nem deu nunca qualquer consentimento para a mesma.
Atinge-se, enfim, o cúmulo do arbítrio e da injustiça, quando alguns,
médicos ou legisladores, se arrogam o poder de decidir quem deve viver
e quem deve morrer. Aparece assim reproposta a tentação do Éden:
tornar-se como Deus « conhecendo o bem e o mal » (cf. Gn 3, 5).
Mas, Deus é o único que tem o poder de fazer morrer e de fazer viver:
« Só Eu é que dou a vida e dou a morte » (Dt 32, 39; cf. 2
Re 5, 7; 1 Sam 2, 6). Ele exerce o seu poder sempre e
apenas segundo um desígnio de sabedoria e amor. Quando o homem usurpa
tal poder, subjugado por uma lógica insensata e egoísta, usa-o
inevitavelmente para a injustiça e a morte. Assim, a vida do mais
fraco é abandonada às mãos do mais forte; na sociedade, perde-se o
sentido da justiça e fica minada pela raiz a confiança mútua,
fundamento de qualquer relação autêntica entre as pessoas.
67. Bem
diverso, ao contrário, é o caminho do amor e da verdadeira
compaixão, que nos é imposto pela nossa comum humanidade e que a
fé em Cristo Redentor, morto e ressuscitado, ilumina com novas razões.
A súplica que brota do coração do homem no confronto supremo com o
sofrimento e a morte, especialmente quando é tentado a fechar-se no
desespero e como que a aniquilar-se nele, é sobretudo uma petição de
companhia, solidariedade e apoio na prova. É um pedido de ajuda para
continuar a esperar, quando falham todas as esperanças humanas. Como
nos recordou o Concílio Vaticano II, « é em face da morte que o enigma
da condição humana mais se adensa » para o homem; e, todavia, « a
intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e
a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa.
O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria,
insurge-se contra a morte ». 86
Esta
repugnância natural da morte e este germe de esperança na imortalidade
são iluminadas e levadas à plenitude pela fé cristã, que promete e
oferece a participação na vitória de Cristo Ressuscitado: é a vitória
d'Aquele que, pela sua morte redentora, libertou o homem da morte, «
salário do pecado » (Rm 6, 23), e lhe deu o Espírito, penhor de
ressurreição e de vida (cf. Rm 8, 11). A certeza da
imortalidade futura e a esperança na ressurreição prometida
projectam uma luz nova sobre o mistério do sofrimento e da morte e
infundem no crente uma força extraordinária para se abandonar ao
desígnio de Deus.
O apóstolo
Paulo exprimiu esta novidade em termos de pertença total ao Senhor que
abraça qualquer condição humana: « Nenhum de nós vive para si mesmo, e
nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor vivemos;
se morremos, para o Senhor morremos. Quer vivamos, quer morramos,
pertencemos ao Senhor » (Rm 14, 7-8). Morrer para o Senhor
significa viver a própria morte como acto supremo de obediência ao
Pai (cf. Fil 2, 8), aceitando encontrá-la na « hora » querida e
escolhida por Ele (cf. Jo 13, 1), o único que pode dizer quando
está cumprido o caminho terreno. Viver para o Senhor significa
também reconhecer que o sofrimento, embora permaneça em si mesmo um
mal e uma prova, sempre se pode tornar fonte de bem. E torna-se tal se
é vivido por amor e com amor, na participação, por dom gratuito de
Deus e por livre opção pessoal, no próprio sofrimento de Cristo
crucificado. Deste modo, quem vive o seu sofrimento no Senhor fica
mais plenamente configurado com Ele (cf. Fil 3, 10; 1 Ped
2, 21) e intimamente associado à sua obra redentora a favor da
Igreja e da humanidade. 87 É esta experiência do Apóstolo, que toda a
pessoa que sofre é chamada a viver: « Alegro-me nos sofrimentos
suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos
sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja » (Col 1,
24). |
|
«
Importa mais obedecer a Deus do que aos homens » (Act 5,
29): a lei civil e a lei moral
68. Uma das
características dos actuais atentados à vida humana — como já se disse
várias vezes — é a tendência para exigir a sua legitimação
jurídica, como se fossem direitos que o Estado deveria, pelo menos
em certas condições, reconhecer aos cidadãos e, consequentemente, a
pretensão da execução dos mesmos com a assistência segura e gratuita
dos médicos e restantes profissionais da saúde.
Considera-se, não raro, que a vida daquele que ainda não nasceu ou
está gravemente debilitado, seria um bem simplesmente relativo: teria
de ser confrontada e ponderada com outros bens, segundo uma lógica
proporcionalista ou de puro cálculo. Igualmente pensa-se que só quem
se encontra na situação concreta e nela está pessoalmente implicado é
que poderia realizar uma justa ponderação dos bens em jogo: por
conseguinte, unicamente essa pessoa poderia decidir sobre a moralidade
da sua escolha. Por isso, e no interesse da convivência civil e da
harmonia social, o Estado deveria respeitar essa escolha, chegando
mesmo a admitir o aborto e a eutanásia.
Outras
vezes, julga-se que a lei civil não poderia exigir que todos os
cidadãos vivessem segundo um grau de moralidade mais elevado do que
aquele que eles mesmos reconhecem e condividem. Por isso, a lei
deveria exprimir sempre a opinião e a vontade da maioria dos cidadãos
e reconhecer-lhes também, pelo menos em certos casos extremos, o
direito ao aborto e à eutanásia. Nesses casos, aliás, a proibição e a
punição dos referidos actos conduziria inevitavelmente — assim o dizem
— a um aumento de práticas clandestinas: e estas escapariam ao
necessário controlo social e seriam realizadas sem a devida segurança
médica. E interrogam-se, além disso, se o apoiar uma lei que não é
concretamente aplicável não significaria, em última análise, minar
também a autoridade de qualquer outra lei.
Nas
opiniões mais radicais, chega-se mesmo a defender que, numa sociedade
moderna e pluralista, deveria ser reconhecida a cada pessoa total
autonomia para dispor da própria vida e da vida de quem ainda não
nasceu: não seria competência da lei fazer a escolha entre as diversas
opiniões morais, e menos ainda poderia ela pretender impor uma opinião
particular em detrimento das outras.
69. Certo é
que, na cultura democrática do nosso tempo, se acha amplamente
generalizada a opinião, segundo a qual o ordenamento jurídico de uma
sociedade haveria de limitar-se a registar e acolher as convicções da
maioria e, consequentemente, dever-se-ia construir apenas sobre aquilo
que a própria maioria reconhece e vive como moral. Se, depois, se
chega a pensar que uma verdade comum e objectiva seria realmente
inacessível, então o respeito pela liberdade dos cidadãos — que, num
regime democrático, são considerados os verdadeiros soberanos —
exigiria que, a nível legislativo, se reconhecesse a autonomia da
consciência de cada um e, por conseguinte, ao estabelecer aquelas
normas que são absolutamente necessárias à convivência social, se
adequassem exclusivamente à vontade da maioria, fosse ela qual fosse.
Desta maneira, todo o político deveria separar claramente, no seu
agir, o âmbito da consciência privada e o do comportamento público.
Em
consequência disto, registam-se duas tendências que na aparência são
diametralmente opostas. Por um lado, os indivíduos reivindicam para si
a mais completa autonomia moral de decisão, e pedem que o Estado não
assuma nem imponha qualquer concepção ética, mas se limite a garantir
o espaço mais amplo possível à liberdade de cada um, tendo como único
limite externo não lesar o espaço de autonomia a que cada um dos
outros cidadãos também tem direito. Mas por outro lado, pensa-se que,
no desempenho das funções públicas e profissionais, o respeito pela
liberdade alheia de escolha obrigaria cada qual a prescindir das
próprias convicções para se colocar ao serviço de qualquer petição dos
cidadãos, que as leis reconhecem e tutelam, aceitando como único
critério moral no exercício das próprias funções aquilo que está
estabelecido pelas mesmas leis. Deste modo, a responsabilidade da
pessoa é delegada na lei civil com a abdicação da própria consciência
moral, pelo menos no âmbito da acção pública.
70. Raiz
comum de todas estas tendências é o relativismo ético, que
caracteriza grande parte da cultura contemporânea. Não falta quem
pense que tal relativismo seja uma condição da democracia, visto que
só ele garantiria tolerância, respeito recíproco entre as pessoas e
adesão às decisões da maioria, enquanto as normas morais, consideradas
objectivas e vinculantes, conduziriam ao autoritarismo e à
intolerância.
Mas é
exactamente a problemática conexa com o respeito da vida que mostra os
equívocos e contradições, com terríveis resultados práticos, que se
escondem nesta posição.
É verdade
que a história regista casos de crimes cometidos em nome da « verdade
». Mas crimes não menos graves e negações radicais da liberdade foram
também cometidos e cometem-se em nome do « relativismo ético ». Quando
uma maioria parlamentar ou social decreta a legitimidade da
eliminação, mesmo sob certas condições, da vida humana ainda não
nascida, porventura não assume uma decisão « tirânica » contra o ser
humano mais débil e indefeso? Justamente reage a consciência universal
diante dos crimes contra a humanidade, de que o nosso século viveu tão
tristes experiências. Porventura deixariam de ser crimes, se, em vez
de terem sido cometidos por tiranos sem escrúpulos, fossem legitimados
por consenso popular?
Não se pode
mitificar a democracia até fazer dela o substituto da moralidade ou a
panaceia da imoralidade. Fundamentalmente, é um « ordenamento » e,
como tal, um instrumento, não um fim. O seu carácter « moral » não é
automático, mas depende da conformidade com a lei moral, à qual se
deve submeter como qualquer outro comportamento humano: por outras
palavras, depende da moralidade dos fins que persegue e dos meios que
usa. Regista-se hoje um consenso quase universal sobre o valor da
democracia, o que há-de ser considerado um positivo « sinal dos tempos
», como o Magistério da Igreja já várias vezes assinalou. 88 Mas, o
valor da democracia vive ou morre nos valores que ela encarna e
promove: fundamentais e imprescindíveis são certamente a dignidade de
toda a pessoa humana, o respeito dos seus direitos intangíveis e
inalienáveis, e bem assim a assunção do « bem comum » como fim e
critério regulador da vida política.
Na base
destes valores, não podem estar « maiorias » de opinião provisórias e
mutáveis, mas só o reconhecimento de uma lei moral objectiva que,
enquanto « lei natural » inscrita no coração do homem, seja ponto
normativo de referência para a própria lei civil. Quando, por um
trágico obscurecimento da consciência colectiva, o cepticismo chegasse
a pôr em dúvida mesmo os princípios fundamentais da lei moral, então o
próprio ordenamento democrático seria abalado nos seus fundamentos,
ficando reduzido a puro mecanismo de regulação empírica dos diversos e
contrapostos interesses. 89
Alguém
poderia pensar que, na falta de melhor, já esta função reguladora
fosse de apreciar em vista da paz social. Mesmo reconhecendo qualquer
ponto de verdade em tal avaliação, é difícil não ver que, sem um
ancoradouro moral objectivo, a democracia não pode assegurar uma paz
estável, até porque é ilusória a paz não fundada sobre os valores da
dignidade de cada homem e da solidariedade entre todos os homens. Nos
próprios regimes de democracia representativa, de facto, a regulação
dos interesses é frequentemente feita a favor dos mais fortes, sendo
estes os mais competentes para manobrar não apenas as rédeas do poder,
mas também a formação dos consensos. Em tal situação, facilmente a
democracia se torna uma palavra vazia.
71. Para
bem do futuro da sociedade e do progresso de uma sã democracia, urge,
pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais
e congénitos, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem
e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma
maioria e nenhum Estado poderá jamais criar, modificar ou destruir,
mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover.
Importa
retomar, neste sentido, os elementos fundamentais da visão das
relações entre lei civil e lei moral, tal como os propõe a Igreja,
mas que fazem parte também do património das grandes tradições
jurídicas da humanidade.
Certamente,
a função da lei civil é diversa e de âmbito mais limitado que a
da lei moral. De facto, « em nenhum âmbito da vida, pode a lei civil
substituir-se à consciência, nem pode ditar normas naquilo que
ultrapassa a sua competência », 90 que é assegurar o bem comum das
pessoas, mediante o reconhecimento e defesa dos seus direitos
fundamentais, a promoção da paz e da moralidade pública. 91 Com
efeito, a função da lei civil consiste em garantir uma convivência
social na ordem e justiça verdadeira, para que todos « tenhamos vida
tranquila e sossegada, com toda a piedade e honestidade » (1 Tm
2, 2). Por isso mesmo, a lei civil deve assegurar a todos os membros
da sociedade o respeito de alguns direitos fundamentais, que pertencem
por natureza à pessoa e que qualquer lei positiva tem de reconhecer e
garantir. Primeiro e fundamental entre eles é o inviolável direito à
vida de todo o ser humano inocente. Se a autoridade pública pode, às
vezes, renunciar a reprimir algo que, se proibido, provocaria um dano
maior, 92 ela não poderá nunca aceitar como direito dos indivíduos —
ainda que estes sejam a maioria dos membros da sociedade —, a ofensa
infligida a outras pessoas através do menosprezo de um direito tão
fundamental como o da vida. A tolerância legal do aborto ou da
eutanásia não pode, de modo algum, fazer apelo ao respeito pela
consciência dos outros, precisamente porque a sociedade tem o direito
e o dever de se defender contra os abusos que se possam verificar em
nome da consciência e com o pretexto da liberdade. 93
A este
propósito, João XXIII recordara na Encíclica Pacem in terris: «
Hoje em dia crê-se que o bem comum consiste sobretudo no respeito dos
direitos e deveres da pessoa. Oriente-se, pois, o empenho dos poderes
públicos sobretudo no sentido que esses direitos sejam reconhecidos,
respeitados, harmonizados, tutelados e promovidos, tornando-se assim
mais fácil o cumprimento dos respectivos deveres. "A função primordial
de qualquer poder público é defender os direitos invioláveis da pessoa
e tornar mais viável o cumprimento dos seus deveres". Por isso mesmo,
se a autoridade não reconhecer os direitos da pessoa, ou os violar,
não só perde ela a sua razão de ser como também as suas disposições
estão privadas de qualquer valor jurídico ». 94
72. Também
está em continuidade com toda a Tradição da Igreja, a doutrina da
necessidade da lei civil se conformar com a lei moral, como se
vê na citada encíclica de João XXIII: « A autoridade é exigência da
ordem moral e promana de Deus. Por isso, se os governantes legislarem
ou prescreverem algo contra essa ordem e, portanto, contra a vontade
de Deus, essas leis e essas prescrições não podem obrigar a
consciência dos cidadãos. (...) Neste caso, a própria autoridade deixa
de existir, degenerando em abuso do poder ». 95 O mesmo ensinamento
aparece claramente em S. Tomás de Aquino, que escreve: « A lei humana
tem valor de lei enquanto está de acordo com a recta razão: derivando,
portanto, da lei eterna. Se, porém, contradiz a razão, chama-se lei
iníqua e, como tal, não tem valor, mas é um acto de violência ». 96 E
ainda: « Toda a lei constituída pelos homens tem força de lei só na
medida em que deriva da lei natural. Se, ao contrário, em alguma coisa
está em contraste com a lei natural, então não é lei mas sim corrupção
da lei ». 97
Ora, a
primeira e mais imediata aplicação desta doutrina diz respeito à lei
humana que menospreza o direito fundamental e primordial à vida,
direito próprio de cada homem. Assim, as leis que legitimam a
eliminação directa de seres humanos inocentes, por meio do aborto e da
eutanásia, estão em contradição total e insanável com o direito
inviolável à vida, próprio de todos os homens, e negam a igualdade de
todos perante a lei. Poder-se-ia objectar que é diverso o caso da
eutanásia, quando pedida em plena consciência pelo sujeito
interessado. Mas um Estado que legitimasse tal pedido, autorizando a
sua realização, estaria a legalizar um caso de suicídio-homicídio,
contra os princípios fundamentais da não- -disponibilidade da vida e
da tutela de cada vida inocente. Deste modo, favorece-se a diminuição
do respeito pela vida e abre-se a estrada a comportamentos demolidores
da confiança nas relações sociais.
As leis que
autorizam e favorecem o aborto e a eutanásia colocam-se, pois,
radicalmente não só contra o bem do indivíduo, mas também contra o bem
comum e, por conseguinte, carecem totalmente de autêntica validade
jurídica. De facto, o menosprezo do direito à vida, exactamente porque
leva a eliminar a pessoa, ao serviço da qual a sociedade tem a sua
razão de existir, é aquilo que se contrapõe mais frontal e
irreparavelmente à possibilidade de realizar o bem comum. Segue-se daí
que, quando uma lei civil legitima o aborto ou a eutanásia, deixa, por
isso mesmo, de ser uma verdadeira lei civil, moralmente obrigatória.
73. O
aborto e a eutanásia são, portanto, crimes que nenhuma lei humana pode
pretender legitimar. Leis deste tipo não só não criam obrigação alguma
para a consciência, como, ao contrário, geram uma grave e precisa
obrigação de opor-se a elas através da objecção de consciência.
Desde os princípios da Igreja, a pregação apostólica inculcou nos
cristãos o dever de obedecer às autoridades públicas legitimamente
constituídas (cf. Rm 13, 1-7; 1 Ped 2, 13-14), mas, ao
mesmo tempo, advertiu firmemente que « importa mais obedecer a Deus do
que aos homens » (Act 5, 29). Já no Antigo Testamento e a
propósito de ameaças contra a vida, encontramos um significativo
exemplo de resistência à ordem injusta da autoridade. As parteiras dos
hebreus opuseram-se ao Faraó, que lhes tinha dado a ordem de matarem
todos os rapazes por ocasião do parto. « Não cumpriram a ordem do rei
do Egipto, e deixaram viver os rapazes » (Ex 1, 17). Mas há que
salientar o motivo profundo deste seu comportamento: « As parteiras
temiam a Deus » (Ex 1, 17). É precisamente da obediência a
Deus — o único a Quem se deve aquele temor que significa
reconhecimento da sua soberania absoluta — que nascem a força e a
coragem de resistir às leis injustas dos homens. É a força e a coragem
de quem está disposto mesmo a ir para a prisão ou a ser morto à
espada, na certeza de que nisto « está a paciência e a fé dos Santos »
(Ap 13, 10).
Portanto,
no caso de uma lei intrinsecamente injusta, como aquela que admite o
aborto ou a eutanásia, nunca é lícito conformar-se com ela, « nem
participar numa campanha de opinião a favor de uma lei de tal
natureza, nem dar-lhe a aprovação com o próprio voto ». 98
Um
particular problema de consciência poder-se-ia pôr nos casos em que o
voto parlamentar fosse determinante para favorecer uma lei mais
restritiva, isto é, tendente a restringir o número dos abortos
autorizados, como alternativa a uma lei mais permissiva já em vigor ou
posta a votação. Não são raros tais casos. Sucede, com efeito, que,
enquanto, nalgumas partes do mundo, continuam as campanhas para a
introdução de leis favoráveis ao aborto, tantas vezes apoiadas por
organismos internacionais poderosos, noutras nações, pelo contrário —
particularmente naquelas que já fizeram a amarga experiência de tais
legislações permissivas —, vão-se manifestando sinais de
reconsideração. No caso hipotizado, quando não fosse possível
esconjurar ou abrogar completamente uma lei abortista, um deputado,
cuja absoluta oposição pessoal ao aborto fosse clara e conhecida de
todos, poderia licitamente oferecer o próprio apoio a propostas que
visassem limitar os danos de uma tal lei e diminuir os seus
efeitos negativos no âmbito da cultura e da moralidade pública. Ao
proceder assim, de facto, não se realiza a colaboração ilícita numa
lei injusta; mas cumpre-se, antes, uma tentativa legítima e necessária
para limitar os seus aspectos iníquos.
74. A
introdução de legislações injustas põe frequentemente os homens
moralmente rectos frente a difíceis problemas de consciência em
matéria de colaboração, por causa da imperiosa afirmação do próprio
direito de não ser obrigado a participar em acções moralmente más. Às
vezes, as opções que se impõem tomar, são dolorosas e podem requerer o
sacrifício de posições profissionais consolidadas ou a renúncia a
legítimas perspectivas de promoção na carreira. Noutros casos, pode
acontecer que o cumprimento de algumas acções, em si mesmas
indiferentes ou mesmo até positivas, previstas no articulado de
legislações globalmente injustas, consinta a salvaguarda de vidas
humanas ameaçadas. Mas, por outro lado, pode-se justamente temer que a
disponibilidade a realizar tais acções não só provoque um escândalo e
favoreça o enfraquecimento da oposição necessária aos atentados contra
a vida, como insensivelmente induza também a conformar-se cada vez
mais com uma lógica permissiva.
Para
iluminar esta difícil questão moral, é preciso recorrer aos princípios
gerais referentes à cooperação em acções moralmente más. Os
cristãos, como todos os homens de boa vontade, são chamados, sob grave
dever de consciência, a não prestar a sua colaboração formal em acções
que, apesar de admitidas pela legislação civil, estão em contraste com
a lei de Deus. Na verdade, do ponto de vista moral, nunca é lícito
cooperar formalmente no mal. E essa cooperação verifica-se quando a
acção realizada, pela sua própria natureza ou pela configuração que
tem assumido num contexto concreto, se qualifica como participação
directa num acto contra a vida humana inocente ou como aprovação da
intenção moral do agente principal. Tal cooperação nunca pode ser
justificada invocando o respeito da liberdade alheia, nem apoiando-se
no facto de que a lei civil a prevê e requer: com efeito, nos actos
cumpridos pessoalmente por cada um, existe uma responsabilidade moral,
à qual ninguém poderá jamais subtrair-se e sobre a qual cada um será
julgado pelo próprio Deus (cf. Rm 2, 6; 14, 12).
Recusar a
própria participação para cometer uma injustiça é não só um dever
moral, mas também um direito humano basilar. Se assim não fosse, a
pessoa seria constrangida a cumprir uma acção intrinsecamente
incompatível com a sua dignidade e, desse modo, ficaria radicalmente
comprometida a sua própria liberdade, cujo autêntico sentido e fim
reside na orientação para a verdade e o bem. Trata-se, pois, de um
direito essencial que, precisamente como tal, deveria estar previsto e
protegido pela própria lei civil. Nesse sentido, a possibilidade de se
recusar a participar na fase consultiva, preparatória e executiva de
semelhantes actos contra a vida, deveria ser assegurada aos médicos,
aos outros profissionais da saúde e aos responsáveis pelos hospitais,
clínicas e casas de saúde. Quem recorre à objecção de consciência deve
ser salvaguardado não apenas de sanções penais, mas ainda de qualquer
dano no plano legal, disciplinar, económico e profissional. |
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«
Amarás ao teu próximo como a ti mesmo » (Lc 10, 27): «
promove » a vida
75. Os
mandamentos de Deus ensinam-nos o caminho da vida. Os preceitos
morais negativos, isto é, aqueles que declaram moralmente
inaceitável a escolha de uma determinada acção, têm um valor absoluto
para a liberdade humana: valem sempre e em todas as circunstâncias,
sem excepção. Indicam que a escolha de determinado comportamento é
radicalmente incompatível com o amor a Deus e com a dignidade da
pessoa, criada à sua imagem: por isso, tal escolha não pode ser
resgatada pela bondade de qualquer intenção ou consequência, está em
contraste insanável com a comunhão entre as pessoas, contradiz a
decisão fundamental de orientar a própria vida para Deus. 99
Já neste
sentido, os preceitos morais negativos têm uma função positiva
importantíssima: o "não" que exigem incondicionalmente, aponta o
limite intransponível abaixo do qual o homem livre não pode descer, e
simultaneamente indica o mínimo que ele deve respeitar e do qual deve
partir para pronunciar inumeráveis « sins », capazes de cobrir
progressivamente todo o horizonte do bem (cf. Mt 5, 48),
em cada um dos seus âmbitos. Os mandamentos, de modo particular os
preceitos morais negativos, são o início e a primeira etapa necessária
do caminho da liberdade: « A primeira liberdade — escreve Santo
Agostinho — consiste em estar isento de crimes (...), como seja o
homicídio, o adultério, a fornicação, o roubo, a fraude, o sacrilégio,
e assim por diante. Quando alguém começa a não ter estes crimes (e
nenhum cristão os deve ter), começa a levantar a cabeça para a
liberdade, mas isto é apenas o início da liberdade, não a liberdade
perfeita ». 100
76. O
mandamento « não matarás » estabelece, pois, o ponto de partida de um
caminho de verdadeira liberdade, que nos leva a promover activamente a
vida e a desenvolver determinadas atitudes e comportamentos ao seu
serviço: procedendo assim, exercemos a nossa responsabilidade para com
as pessoas que nos estão confiadas, e manifestamos, em obras e
verdade, o nosso reconhecimento a Deus pelo grande dom da vida (cf.
Sal 139 138, 13-14).
O Criador
confiou a vida do homem à sua solicitude responsável, não para que
disponha arbitrariamente dela mas a guarde com sabedoria e administre
com amorosa fidelidade. O Deus da Aliança confiou a vida de cada homem
ao homem, seu irmão, segundo a lei da reciprocidade no dar e no
receber, no dom de si e no acolhimento do outro. Na plenitude dos
tempos, o Filho de Deus, encarnando e dando a sua vida pelo homem,
mostrou a altura e profundidade a que pode chegar esta lei da
reciprocidade. Com o dom do seu Espírito, Cristo dá conteúdos e
significados novos à lei da reciprocidade, à entrega do homem ao
homem. O Espírito, que é artífice de comunhão no amor, cria entre os
homens uma nova fraternidade e solidariedade, verdadeiro reflexo do
mistério de recíproca doação e acolhimento próprios da Santíssima
Trindade. O próprio Espírito torna-Se a lei nova, que dá força aos
crentes e apela à sua responsabilidade para viverem reciprocamente o
dom de si e o acolhimento do outro, participando no próprio amor de
Jesus Cristo e segundo a sua medida.
77. Animado
e plasmado por esta lei nova está também o mandamento que diz « não
matarás ». Para o cristão, isto implica, em última análise, o
imperativo de respeitar, amar e promover a vida de cada irmão, segundo
as exigências e as dimensões do amor de Deus em Jesus Cristo. « Ele
deu a Sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos »
(1 Jo 3, 16).
O
mandamento « não matarás », inclusive nos seus conteúdos mais
positivos de respeito, amor e promoção da vida humana, vincula todo o
homem. De facto, ressoa na consciência moral de cada um como um eco
irreprimível da aliança primordial de Deus criador com o homem; todos
o podem conhecer pela luz da razão e observar pela obra misteriosa do
Espírito que, soprando onde quer (cf. Jo 3, 8), alcança e
inspira todo o homem que vive neste mundo.
Constitui,
portanto, um serviço de amor, aquele que todos estamos empenhados em
assegurar ao nosso próximo, para que a sua vida seja defendida e
promovida sempre, mas sobretudo quando é mais débil ou ameaçada. É uma
solicitude pessoal mas também social, que todos devemos cultivar,
pondo o respeito incondicional da vida humana como fundamento de uma
sociedade renovada.
É-nos
pedido que amemos e honremos a vida de cada homem e de cada mulher, e
que trabalhemos, com constância e coragem, para que, no nosso tempo
atravessado por demasiados sinais de morte, se instaure finalmente uma
nova cultura da vida, fruto da cultura da verdade e do amor.
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CAPÍTULO IV
A MIM O
FIZESTES
POR UMA NOVA CULTURA DA VIDA HUMANA
« Vós
sois o povo adquirido por Deus, para proclamardes as suas obras
maravilhosas » (1 Ped 2, 9): o povo da vida e pela vida
78. A
Igreja recebeu o Evangelho, como anúncio e fonte de alegria e de
salvação. Recebeu-o em dom de Jesus, que foi enviado pelo Pai « para
anunciar a Boa Nova aos pobres » (Lc 4, 18). Recebeu-o através
dos Apóstolos, que o Mestre enviou pelo mundo inteiro (cf. Mc
16, 15; Mt 28, 19-20). Nascida desta acção missionária, a
Igreja ouve ressoar em si mesma todos os dias aquela palavra de
incitamento apostólico: « Ai de mim se não evangelizar! » (1 Cor
9, 16). « Evangelizar — como escrevia Paulo VI — constitui, de
facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda
identidade. Ela existe para evangelizar ». 101
A
evangelização é uma acção global e dinâmica que envolve a Igreja na
sua participação da missão profética, sacerdotal e real do Senhor
Jesus. Por isso, a evangelização compreende indivisivelmente as
dimensões do anúncio, da celebração e do serviço da caridade. É um
acto profundamente eclesial, que compromete todos os operários
do Evangelho, cada um segundo os seus carismas e o próprio ministério.
O mesmo
acontece quando se trata de anunciar o Evangelho da vida, parte
integrante do Evangelho que é Jesus Cristo. Nós estamos ao serviço
deste Evangelho, amparados na certeza de o termos recebido em dom e de
sermos enviados a proclamá-lo a toda a humanidade, « até aos confins
do mundo » (Act 1, 8). Por isso, grata e humildemente
conservamos a consciência de ser o povo da vida e pela vida e
assim nos apresentamos diante de todos.
79. Somos o
povo da vida, porque Deus, no seu amor generoso, deu-nos o
Evangelho da vida e, por este mesmo Evangelho, fomos transformados
e salvos. Fomos reconquistados pelo « Príncipe da vida » (Act
3, 15), com o preço do seu sangue precioso (cf. 1 Cor 6, 20; 7,
23; 1 Ped 1, 19), e, pelo banho baptismal, fomos enxertados
n'Ele (cf. Rm 6, 4-5; Col 2, 12) como ramos que recebem
seiva e fecundidade da única árvore (cf. Jo 15, 5).
Interiormente renovados pela graça do Espírito, « Senhor que dá a vida
», tornámo-nos um povo pela vida, e como tal somos chamados a
comportar-nos.
Somos
enviados: estar ao serviço da vida não é para nós um título de
glória, mas um dever que nasce da consciência de sermos « o povo
adquirido por Deus para proclamar as suas obras maravilhosas » (cf.
1 Ped 2, 9). No nosso caminho, guia-nos e anima-nos a lei do
amor: um amor, cuja fonte e modelo é o Filho de Deus feito homem
que « pela sua morte deu a vida ao mundo ». 102
Somos
enviados como povo. O compromisso de servir a vida incumbe sobre
todos e cada um. É uma responsabilidade tipicamente « eclesial », que
exige a acção concertada e generosa de todos os membros e estruturas
da comunidade cristã. Mas a sua característica de dever comunitário
não elimina nem diminui a responsabilidade de cada pessoa, a
quem é dirigido o mandamento do Senhor de « fazer-se próximo » de todo
o homem: « Vai e faz tu também do mesmo modo » (Lc 10, 37).
Todos
juntos sentimos o dever de anunciar o Evangelho da vida, de
o celebrar na liturgia e na existência inteira, de o servir
com as diversas iniciativas e estruturas de apoio e promoção. |
|
« O
que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos » (1 Jo 1, 3):
anunciar o Evangelho da vida
80. « O que
era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos,
o que contemplámos e as nossas mãos apalparam acerca do Verbo da vida
(...) isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão
connosco » (1 Jo 1, 1.3). Jesus é o único Evangelho: Ele
é tudo o que temos para dizer e testemunhar.
O
próprio anúncio de Jesus é anúncio da vida. Ele, de facto, é o «
Verbo da vida » (1 Jo 1, 1). N'Ele, « a vida manifestou-se » (1
Jo 1, 2); melhor, Ele mesmo é a « vida eterna que estava no Pai e
que nos foi manifestada » (1 Jo 1, 2). Esta mesma vida, graças
ao dom do Espírito, foi comunicada ao homem. Orientada para a vida em
plenitude — a « vida eterna » —, também a vida terrena de cada um
adquire o seu sentido pleno.
Iluminados
pelo Evangelho da vida, sentimos a necessidade de o proclamar e
testemunhar pela surpreendente novidade que o caracteriza:
identificando-se com o próprio Jesus, portador de toda a novidade 103
e vencedor daquele « envelhecimento » que provém do pecado e conduz à
morte, 104 este Evangelho supera toda a expectativa do homem e revela
a grandeza excelsa, a que a dignidade da pessoa é elevada pela graça.
Assim a contempla S. Gregório de Nissa: « Quando comparado com os
outros seres, o homem nada vale, é pó, erva, ilusão; mas, uma vez
adoptado como filho pelo Deus do universo, é feito familiar deste Ser,
cuja excelência e grandeza ninguém pode ver, ouvir nem compreender.
Com que palavra, pensamento ou arroubo de espírito poderemos celebrar
a superabundância desta graça? O homem supera a sua natureza: de
mortal passa a imortal, de perecível a imperecível, de efémero a
eterno, de homem torna-se deus ». 105
A gratidão
e a alegria por esta dignidade incomensurável do homem incitam-nos a
tornar os demais participantes desta mensagem: « O que vimos e
ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão
connosco » (1 Jo 1, 3). É necessário fazer chegar o
Evangelho da vida ao coração de todo o homem e mulher, e inseri-lo
nas pregas mais íntimas do tecido da sociedade inteira.
81.
Trata-se em primeiro lugar de anunciar o núcleo deste
Evangelho: é o anúncio de um Deus vivo e solidário, que nos chama a
uma profunda comunhão Consigo e nos abre à esperança segura da vida
eterna; é a afirmação do laço indivisível que existe entre a pessoa, a
sua vida e a própria corporeidade; é a apresentação da vida humana
como vida de relação, dom de Deus, fruto e sinal do seu amor; é a
proclamação da extraordinária relação de Jesus com todo o homem, que
permite reconhecer o rosto de Cristo em cada rosto humano; é a
indicação do « dom sincero de si » como tarefa e lugar de plena
realização da própria liberdade.
Importa,
depois, mostrar todas as consequências deste mesmo Evangelho,
que se podem resumir assim: a vida humana, dom precioso de Deus, é
sagrada e inviolável, e, por isso mesmo, o aborto provocado e a
eutanásia são absolutamente inaceitáveis; a vida do homem não apenas
não deve ser eliminada, mas há-de ser protegida com toda a atenção e
carinho; a vida encontra o seu sentido no amor recebido e dado, em
cujo horizonte haurem plena verdade a sexualidade e a procriação
humana; nesse amor, até mesmo o sofrimento e a morte têm um sentido,
podendo tornar-se acontecimentos de salvação, não obstante perdurar o
mistério que os envolve; o respeito pela vida exige que a ciência e a
técnica estejam sempre orientadas para o homem e para o seu
desenvolvimento integral; a sociedade inteira deve respeitar, defender
e promover a dignidade de toda a pessoa humana, em cada momento e
condição da sua vida.
82. Para
sermos verdadeiramente um povo ao serviço da vida, temos de propor,
com constância e coragem, estes conteúdos, desde o primeiro anúncio do
Evangelho, e, depois, na catequese e nas diversas formas de
pregação, no diálogo pessoal e em toda a acção educativa. Aos
educadores, professores, catequistas e teólogos, incumbe o dever de
pôr em destaque as razões antropológicas que fundamentam e
apoiam o respeito de cada vida humana. Desta forma, ao mesmo tempo que
faremos resplandecer a original novidade do Evangelho da vida,
poderemos ajudar os demais a descobrirem, inclusive à luz da razão e
da experiência, como a mensagem cristã ilumina plenamente o homem e o
significado do seu ser e existir; encontraremos valiosos pontos de
encontro e diálogo também com os não crentes, empenhados todos juntos
a fazer despertar uma nova cultura da vida.
Cercados
pelas vozes mais constrastantes, enquanto muitos rejeitam a sã
doutrina sobre a vida do homem, sentimos dirigida a nós a recomendação
de Paulo a Timóteo: « Prega a palavra, insiste oportuna e
inoportunamente, repreende, censura e exorta com bondade e doutrina »
(2 Tm 4, 2). Com particular vigor, há-de ressoar esta exortação
no coração de quantos na Igreja, mais directamente e a diverso título,
participam da sua missão de « mestra » da verdade. Ressoe, antes de
mais, em nós, Bispos, que somos os primeiros a quem é pedido
tornar-se incansável anunciador do Evangelho da vida; está-nos
confiado também o dever de vigiar sobre a transmissão íntegra e fiel
do ensinamento proposto nesta Encíclica, e de recorrer às medidas mais
oportunas para que os fiéis sejam preservados de toda a doutrina
contrária ao mesmo. Havemos de dedicar especial atenção às Faculdades
Teológicas, aos Seminários e às diversas Instituições Católicas, para
que aí seja comunicado, ilustrado e aprofundado o conhecimento da sã
doutrina. 106 A exortação de Paulo seja também ouvida por todos os
teólogos, pastores e quantos desempenham tarefas de ensino,
catequese e formação das consciências: cientes do papel que lhes
cabe, não assumam nunca a grave responsabilidade de atraiçoar a
verdade e a própria missão, expondo ideias pessoais contrárias ao
Evangelho da vida, que o Magistério fielmente propõe e interpreta.
Quando
anunciarmos este Evangelho, não devemos temer a oposição e a
impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos
conformem com a mentalidade deste mundo (cf. Rm 12, 2). Com a
força recebida de Cristo, que venceu o mundo pela sua morte e
ressurreição (cf. Jo 16, 33), devemos estar no mundo,
mas não ser do mundo (cf. Jo 15, 19; 17, 16). |
|
« Eu
Vos louvo porque me fizestes como um prodígio » (Sal 139
138, 14): celebrar o Evangelho da vida
83.
Enviados ao mundo como « povo pela vida », o nosso anúncio deve
tornar-se também uma verdadeira e própria celebração do Evangelho
da vida. É precisamente esta celebração, com toda a força
evocativa dos seus gestos, símbolos e ritos, que se torna o lugar mais
precioso e significativo para transmitir a beleza e a grandeza desse
Evangelho.
Para isso,
urge, antes de mais, cultivar, em nós e nos outros, um olhar
contemplativo. 107 Este nasce da fé no Deus da vida, que criou
cada homem fazendo dele um prodígio (cf. Sal 139 138, 14). É o
olhar de quem observa a vida em toda a sua profundidade, reconhecendo
nela as dimensões de generosidade, beleza, apelo à liberdade e à
responsabilidade. É o olhar de quem não pretende apoderar-se da
realidade, mas a acolhe como um dom, descobrindo em todas as coisas o
reflexo do Criador e em cada pessoa a sua imagem viva (cf. Gn
1, 27; Sal 8, 6). Este olhar não se deixa cair em desânimo à
vista daquele que se encontra enfermo, atribulado, marginalizado, ou
às portas da morte; mas deixa-se interpelar por todas estas situações
procurando nelas um sentido, sendo, precisamente em tais
circunstâncias, que se apresenta disponível para ler de novo no rosto
de cada pessoa um apelo ao entendimento, ao diálogo, à solidariedade.
É tempo de
todos assumirem este olhar, tornando-se novamente capazes de
venerar e honrar cada homem, com ânimo repleto de religioso
assombro, como nos convidava a fazer Paulo VI numa das suas mensagens
natalícias. 108 Animado por este olhar contemplativo, o povo novo dos
redimidos não pode deixar de prorromper em hinos de alegria, louvor
e gratidão pelo dom inestimável da vida, pelo mistério do
chamamento de todo o homem a participar, em Cristo, na vida da graça e
numa existência de comunhão sem fim com Deus Criador e Pai.
84.
Celebrar o Evangelho da vida significa celebrar o Deus da vida, o Deus
que dá a vida: « Nós devemos celebrar a Vida eterna, da qual
procede qualquer outra vida. Dela recebe a vida, na proporção das
respectivas capacidades, todo o ser que, de algum modo, participa da
vida. Essa Vida divina, que está acima de qualquer vida, vivifica e
conserva a vida. Toda a vida e qualquer movimento vital procedem desta
Vida que transcende cada vida e cada princípio de vida. A Ela devem as
almas a sua incorruptibilidade, como também vivem, graças a Ela, todos
os animais e todas as plantas que recebem da vida um eco mais débil.
Aos homens, seres compostos de espírito e matéria, a Vida dá a vida.
Se depois nos acontece abandoná-la, então a Vida, pelo transbordar do
seu amor pelo homem, converte-nos e chama-nos a Si. E mais... Promete
também conduzir-nos — alma e corpo — à vida perfeita, à imortalidade.
É demasiado pouco dizer que esta Vida é viva: Ela é Princípio de vida,
Causa e Fonte única de vida. Todo o vivente deve contemplá-la e
louvá-la: é Vida que transborda de vida ». 109
Como o
Salmista, também nós, na oração diária individual e
comunitária, louvamos e bendizemos a Deus nosso Pai que nos plasmou no
seio materno, viu-nos e amou-nos quando estávamos ainda em embrião
(cf. Sal 139 138, 13.15-16), e exclamamos, com alegria
irreprimível: « Eu Vos louvo porque me fizestes como um prodígio; as
vossas obras são admiráveis, conheceis a sério a minha alma » (Sal
139 138, 14). Sim, « esta vida mortal, não obstante as suas
aflições, os seus mistérios obscuros, os seus sofrimentos, a sua fatal
caducidade, é um facto belíssimo, um prodígio sempre original e
enternecedor, um acontecimento digno de ser cantado com júbilo e
glória ». 110 Mais, o homem e a sua vida não se revelam apenas como um
dos prodígios mais altos da criação: Deus conferiu ao homem uma
dignidade quase divina (cf. Sal 8, 6-7). Em cada criança que
nasce e em cada homem que vive ou morre, reconhecemos a imagem da
glória de Deus: nós celebramos esta glória em cada homem, sinal do
Deus vivo, ícone de Jesus Cristo.
Somos
chamados a exprimir assombro e gratidão pela vida recebida em dom e a
acolher, saborear e comunicar o Evangelho da vida, não só
através da oração pessoal e comunitária, mas sobretudo com as
celebrações do ano litúrgico. No mesmo contexto, há que recordar,
de modo particular, os Sacramentos, sinais eficazes da presença
e acção salvadora do Senhor Jesus na existência cristã: tornam os
homens participantes da vida divina, assegurando-lhes a energia
espiritual necessária para realizarem plenamente o verdadeiro
significado do viver, do sofrer e do morrer. Graças a uma genuína
descoberta do sentido dos ritos e à sua adequada valorização, as
celebrações litúrgicas, sobretudo as sacramentais, serão capazes de
exprimir cada vez melhor a verdade plena acerca do nascimento, da
vida, do sofrimento e da morte, ajudando a viver estas realidades como
participação no mistério pascal de Cristo morto e ressuscitado.
85. Na
celebração do Evangelho da vida, é preciso saber apreciar e
valorizar também os gestos e os símbolos, de que são ricas as diversas
tradições e costumes culturais dos povos. Trata-se de momentos e
formas de encontro, pelos quais, nos diversos países e culturas, se
manifesta a alegria pela vida que nasce, o respeito e defesa de cada
existência humana, o cuidado por quem sofre ou passa necessidade, a
solidariedade com o idoso ou o moribundo, a partilha da tristeza de
quem está de luto, a esperança e o desejo da imortalidade.
Nesta
perspectiva e acolhendo a sugestão feita pelos Cardeais no Consistório
de 1991, proponho que se celebre anualmente um Dia em defesa da
Vida, nas diversas Nações, à semelhança do que já se verifica por
iniciativa de algumas Conferências Episcopais. É necessário que essa
ocorrência seja preparada e celebrada com a activa participação de
todas as componentes da Igreja local. O seu objectivo principal é
suscitar nas consciências, nas famílias, na Igreja e na sociedade, o
reconhecimento do sentido e valor da vida humana em todos os seus
momentos e condições, concentrando a atenção de modo especial na
gravidade do aborto e da eutanásia, sem contudo transcurar os outros
momentos e aspectos da vida que merecem ser, de vez em quando, tomados
em atenta consideração, conforme a evolução da situação histórica
sugerir.
86. Em
coerência com o culto espiritual agradável a Deus (cf.Rm 12,
1), a celebração do Evangelho da vida requer a sua
concretização sobretudo na existência quotidiana, vivida no
amor pelos outros e na doação de si próprio. Assim, toda a nossa
existência tornar-se-á acolhimento autêntico e responsável do dom da
vida e louvor sincero e agradecido a Deus que nos fez esse dom. É o
que sucede já com tantos e tantos gestos de doação, frequentemente
humilde e escondida, cumpridos por homens e mulheres, crianças e
adultos, jovens e idosos, sãos e doentes.
É neste
contexto, rico de humanidade e amor, que nascem também os gestos
heróicos. Estes são a celebração mais solene do Evangelho da
vida, porque o proclamam com o dom total de si; são a
manifestação refulgente do mais elevado grau de amor, que é dar a vida
pela pessoa amada (cf. Jo 15, 13); são a participação no
mistério da Cruz, na qual Jesus revela quão grande valor tem para Ele
a vida de cada homem e como esta se realiza em plenitude no dom
sincero de si. Além dos factos clamorosos, existe o heroísmo do
quotidiano, feito de pequenos ou grandes gestos de partilha que
alimentam uma autêntica cultura da vida. Entre estes gestos, merece
particular apreço a doação de órgãos feita, segundo formas eticamente
aceitáveis, para oferecer uma possibilidade de saúde e até de vida a
doentes, por vezes já sem esperança.
A tal
heroísmo do quotidiano, pertence o testemunho silencioso, mas tão
fecundo e eloquente, de « todas as mães corajosas, que se dedicam sem
reservas à própria família, que sofrem ao dar à luz os próprios
filhos, e depois estão prontas a abraçar qualquer fadiga e a enfrentar
todos os sacrifícios, para lhes transmitir quanto de melhor elas
conservam em si ». 111 No cumprimento da sua missão, « nem sempre
estas mães heróicas encontram apoio no seu ambiente. Antes, os modelos
de civilização, com frequência promovidos e propagados pelos meios de
comunicação, não favorecem a maternidade. Em nome do progresso e da
modernidade, são apresentados como já superados os valores da
fidelidade, da castidade e do sacrifício, nos quais se distinguiram e
continuam a distinguir-se multidões de esposas e de mães cristãs.
(...) Nós vos agradecemos, mães heróicas, o vosso amor invencível! Nós
vos agradecemos a intrépida confiança em Deus e no seu amor. Nós vos
agradecemos o sacrifício da vossa vida. (...) Cristo, no Mistério
Pascal, restituiu-vos o dom que Lhe fizestes. Ele, de facto, tem o
poder de vos restituir a vida, que Lhe levastes em oferenda ». 112 |
|
« De
que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé se não tiver obras?
» (Tg 2, 14): servir o Evangelho da vida
87. Em
virtude da participação na missão real de Cristo, o apoio e a promoção
da vida humana devem actuar-se através do serviço da caridade,
que se exprime no testemunho pessoal, nas diversas formas de
voluntariado, na animação social e no compromisso político. Trata-se
de uma exigência sobremaneira premente na hora actual, em que a
« cultura da morte » se contrapõe à « cultura da vida », de forma tão
forte que muitas vezes parece levar a melhor. Antes ainda, porém,
trata-se de uma exigência que nasce da « fé que actua pela caridade »
(Gal 5, 6), como nos adverte a Carta de S. Tiago: « De que
aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé se não tiver obras?
Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e
precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: "Ide em
paz, aquecei-vos e saciai-vos", sem lhes dar o que é necessário ao
corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver
obras, é morta em si mesma » (2, 14-17).
No serviço
da caridade, há uma atitude que nos há-de animar e caracterizar:
devemos cuidar do outro enquanto pessoa confiada por Deus à nossa
responsabilidade. Como discípulos de Jesus, somos chamados a
fazermo-nos próximo de cada homem (cf. Lc 10, 29-37),
reservando uma preferência especial a quem vive mais pobre, sozinho e
necessitado. É precisamente através da ajuda prestada ao faminto, ao
sedento, ao estrangeiro, ao nu, ao doente, ao encarcerado — como
também à criança ainda não nascida, ao idoso que está doente ou perto
da morte —, que temos a possibilidade de servir Jesus, como Ele mesmo
declarou: « Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais
pequeninos, a Mim mesmo o fizestes » (Mt 25, 40). Por isso, não
podemos deixar de nos sentir interpelados e julgados por esta página
sempre actual de S. João Crisóstomo: « Queres honrar o corpo de
Cristo? Não O transcures quando se encontrar nu! Não vale prestares
honras aqui no templo com tecidos de seda, e depois transcurá-Lo lá
fora, onde sofre frio e nudez ». 113
O
serviço da caridade a favor da vida deve ser profundamente unitário:
não pode tolerar unilateralismos e discriminações, já que a vida
humana é sagrada e inviolável em todas as suas fases e situações; é um
bem indivisível. Trata-se de «cuidar » da vida toda e da vida de
todos. Ou melhor ainda e mais profundamente, trata-se de ir até às
próprias raízes da vida e do amor.
Partindo
exactamente deste amor profundo por todo o homem e mulher, foi-se
desenvolvendo, ao longo dos séculos, uma extraordinária história de
caridade, que introduziu, na vida eclesial e civil, numerosas
estruturas de serviço à vida, que suscitam a admiração até do
observador menos prevenido. É uma história que cada comunidade cristã
deve, com renovado sentido de responsabilidade, continuar a escrever
graças a uma múltipla acção pastoral e social. Neste sentido, é
preciso criar formas discretas mas eficazes de acompanhamento da
vida nascente, prestando uma especial solidariedade àquelas mães
que, mesmo privadas do apoio do pai, não temem trazer ao mundo o seu
filho e educá-lo. Cuidado análogo deve ser reservado à vida provada
pela marginalização ou pelo sofrimento, de forma particular nas suas
etapas finais.
88. Tudo
isto comporta uma obra educativa paciente e corajosa, que
estimule todos e cada um a carregar os fardos dos outros (cf. Gal
6, 2); requer uma contínua promoção das vocações ao serviço,
particularmente entre os jovens; implica a realização de projectos
e iniciativas concretas, sólidas e inspiradas evangelicamente.
Múltiplos
são os instrumentos a valorizar por um empenho competente e
sério. Relativamente às fontes da vida, sejam promovidos os centros
com os métodos naturais de regulação da fertilidade, como válida
ajuda à paternidade e maternidade responsável, na qual cada pessoa, a
começar do filho, é reconhecida e respeitada por si mesma, e cada
decisão é animada e guiada pelo critério do dom sincero de si. Também
os consultórios matrimoniais e familiares, através da sua acção
específica de consulta e prevenção, desenvolvida à luz de uma
antropologia coerente com a visão cristã da pessoa, do casal e da
sexualidade, constituem um precioso serviço para descobrir o sentido
do amor e da vida, e para apoiar e assistir cada família na sua missão
de « santuário da vida ». Ao serviço da vida nascente, estão ainda
os centros de ajuda à vida e os lares de acolhimento da vida.
Graças à sua acção, tantas mães-solteiras e casais em dificuldade
readquirem razões e convicções, e encontram assistência e apoio para
superar contrariedades e medos no acolhimento de uma vida nascitura ou
que acaba de vir à luz.
Diante da
vida condicionada por dificuldades, extravio, doença ou
marginalização, outros instrumentos — como as comunidades para a
recuperação dos toxicodependentes, os lares para abrigo de menores ou
dos doentes mentais, os centros para acolhimento e tratamento dos
doentes da SIDA, as Cooperativas de solidariedade sobretudo para
inválidos — são expressões eloquentes daquilo que a caridade sabe
inventar para dar novas razões de esperança e possibilidades concretas
de vida a cada um.
Quando,
depois, a existência terrena se encaminha para o seu termo, é ainda a
caridade que encontra as modalidades mais oportunas para os idosos,
sobretudo se não-autosuficientes, e os chamados doentes
terminais poderem gozar de uma assistência verdadeiramente humana
e receber respostas adequadas às suas exigências, especialmente à sua
angústia e solidão. Nestes casos, é insubstituível o papel das
famílias; mas estas podem encontrar grande ajuda nas estruturas
sociais de assistência e, quando necessário, no recurso aos
cuidados paliativos, valendo-se para o efeito dos idóneos serviços
clínicos e sociais, sejam os existentes nos edifícios públicos de
internamento e tratamento, sejam os disponíveis para apoio no
domicílio.
Em
particular, ocorre reconsiderar o papel dos hospitais, das
clínicas e das casas de saúde: a sua verdadeira identidade
não é a de serem apenas estruturas onde se cuida dos enfermos e
doentes terminais, mas e primariamente ambientes nos quais o
sofrimento, a dor e a morte sejam reconhecidos e interpretados no seu
significado humano e especificamente cristão. De modo especial, tal
identidade deve manifestar-se clara e eficientemente nas
instituições dependentes de religiosos ou, de alguma maneira, ligadas
à Igreja.
89. Estas
estruturas e lugares de serviço à vida, e todas as demais iniciativas
de apoio e solidariedade, que as diversas situações poderão sugerir em
cada ocasião, precisam de ser animados por pessoas generosamente
disponíveis e profundamente conscientes de quão decisivo seja o
Evangelho da vida para o bem do indivíduo humano e da sociedade.
Peculiar
é a responsabilidade confiada aos profissionais da saúde — médicos,
farmacêuticos, enfermeiros, capelães, religiosos e religiosas,
administradores e voluntários: a sua profissão pede-lhes que sejam
guardiães e servidores da vida humana. No actual contexto cultural e
social, em que a ciência e a arte médica correm o risco de
extraviar-se da sua dimensão ética originária, podem ser às vezes
fortemente tentados a transformarem-se em fautores de manipulação da
vida, ou mesmo até em agentes de morte. Perante tal tentação, a sua
responsabilidade é hoje muito maior e encontra a sua inspiração mais
profunda e o apoio mais forte precisamente na intrínseca e
imprescindível dimensão ética da profissão clínica, como já reconhecia
o antigo e sempre actual juramento de Hipócrates, segundo o
qual é pedido a cada médico que se comprometa no respeito absoluto da
vida humana e da sua sacralidade.
O respeito
absoluto de cada vida humana inocente exige inclusivamente o
exercício da objecção de consciência frente ao aborto provocado e
à eutanásia. O « fazer morrer » nunca pode ser considerado um cuidado
médico, nem mesmo quando a intenção fosse apenas a de secundar um
pedido do paciente: pelo contrário, é a própria negação da profissão
médica, que se define como um apaixonado e vigoroso « sim » à vida.
Também a pesquisa biomédica, campo fascinante e promissor de novos e
grandes benefícios para a humanidade, deve sempre rejeitar
experiências, investigações ou aplicações que, menosprezando a
dignidade inviolável do ser humano, deixam de estar ao serviço dos
homens para se transformarem em realidades que, parecendo socorrê-los,
efectivamente os oprimem.
90. Um
papel específico são chamadas a desempenhar as pessoas empenhadas
no voluntariado: oferecem um contributo precioso ao serviço da
vida, quando sabem conjugar capacidade profissional com um amor
generoso e gratuito. O Evangelho da vida impele-as a elevarem
os sentimentos de simples filantropia até à altura da caridade de
Cristo; a reavivarem diariamente, por entre fadigas e cansaços, a
consciência da dignidade de cada homem; a irem à procura das carências
das pessoas, iniciando — se necessário — novos caminhos em lugares
onde a necessidade é mais urgente, e a atenção e o apoio menos
consistentes.
O realismo
pertinaz da caridade exige que o Evangelho da vida seja servido
ainda por meio de formas de animação social e de empenho político,
que defendam e proponham o valor da vida nas nossas sociedades
cada vez mais complexas e pluralistas. Indivíduos, famílias,
grupos, entidades associativas têm a sua responsabilidade, mesmo
se a título e com método diverso, na animação social e na elaboração
de projectos culturais, económicos, políticos e legislativos que, no
respeito de todos e segundo a lógica da convivência democrática,
contribuam para edificar uma sociedade, onde a dignidade de cada
pessoa seja reconhecida e tutelada, e a vida de todos fique tutelada e
promovida.
Semelhante
tarefa incumbe, de modo particular, sobre os responsáveis da vida
pública. Chamados a servir o homem e o bem comum, têm o dever de
realizar opções corajosas a favor da vida, primeiro que tudo, no
âmbito das disposições legislativas. Num regime democrático,
onde as leis e as decisões se estabelecem sobre a base do consenso de
muitos, pode atenuar-se na consciência dos indivíduos investidos de
autoridade o sentido da responsabilidade pessoal. Mas ninguém pode
jamais abdicar desta responsabilidade, sobretudo quando tem um mandato
legislativo ou poder decisório que o chama a responder perante Deus, a
própria consciência e a sociedade inteira de opções eventualmente
contrárias ao verdadeiro bem comum. Se as leis não são o único
instrumento para defender a vida humana, desempenham, contudo, um
papel muito importante, por vezes determinante, na promoção de uma
mentalidade e dos costumes. Afirmo, uma vez mais, que uma norma que
viola o direito natural de um inocente à vida, é injusta e, como tal,
não pode ter valor de lei. Por isso, renovo o meu veemente apelo a
todos os políticos para não promulgarem leis que, ao menosprezarem a
dignidade da pessoa, minam pela raiz a própria convivência social.
A Igreja
sabe que é difícil actuar uma defesa legal eficaz da vida no contexto
das democracias pluralistas, por causa da presença de fortes correntes
culturais de matriz diversa. Todavia, movida pela certeza de que a
verdade moral não pode deixar de ter eco no íntimo de cada
consciência, ela encoraja os políticos — a começar pelos que são
cristãos — a não se renderem, mas tomarem aquelas decisões que, tendo
em conta as possibilidades concretas, levem a restabelecer uma ordem
justa na afirmação e promoção do valor da vida. Nesta perspectiva,
convém sublinhar que não basta eliminar as leis iníquas. Mas terão de
ser removidas as causas que favorecem os atentados contra a vida,
sobretudo garantindo o devido apoio à família e à maternidade: a
política familiar deve constituir o ponto fulcral e o motor de
todas as políticas sociais. Para isso, é necessário activar
iniciativas sociais e legislativas, capazes de garantir condições de
autêntica liberdade de escolha em ordem à paternidade e à maternidade;
impõe-se, além disso, reordenar as políticas do emprego, de
urbanização, da habitação, dos serviços sociais, para se conseguir
conciliar entre si os tempos do trabalho e da família, tornando
possível um efectivo cuidado das crianças e dos idosos.
91. Um
capítulo importante da política em favor da vida é constituído hoje
pela problemática demográfica. As autoridades públicas têm
certamente a responsabilidade de intervir com válidas iniciativas «
para orientar a demografia da população »; 114 mas tais iniciativas
devem pressupor e respeitar sempre a responsabilidade primária e
inalienável dos esposos e das famílias, e não podem recorrer a métodos
desrespeitadores da pessoa e dos seus direitos fundamentais, a começar
pelo direito à vida de todo o ser humano inocente. Por isso, é
moralmente inaceitável que, para regular a natalidade, se encoraje ou
até imponha o uso de meios como a contracepção, a esterilização e o
aborto.
Bem
diferentes são os caminhos para resolver o problema demográfico: os
Governos e as várias instituições internacionais devem, antes de tudo,
visar a criação de condições económicas, sociais, médico-sanitárias e
culturais que permitam aos esposos realizarem as suas opções
procriadoras, com plena liberdade e verdadeira responsabilidade; devem
esforçar-se, depois, por « aumentar os meios e distribuir com maior
justiça a riqueza, para que todos possam participar equitativamente
dos bens da criação. São necessárias soluções a nível mundial, que
instaurem uma verdadeira economia de comunhão e participação de
bens, tanto na ordem internacional como nacional ». 115 Esta é a
única estrada que respeita a dignidade das pessoas e das famílias,
como também o autêntico património cultural dos povos.
Vasto e
complexo é, portanto, o serviço ao Evangelho da vida. Ele
manifesta-se cada vez mais como âmbito precioso e favorável para uma
efectiva colaboração com os irmãos das outras Igrejas e Comunidades
eclesiais, na linha daquele ecumenismo das obras que o Concílio
Vaticano II, com autoridade, encorajou. 116 Além disso, o referido
serviço apresenta-se como espaço providencial para o diálogo e
colaboração com os sequazes de outras religiões e com todos os homens
de boa vontade: a defesa e a promoção da vida não são monopólio de
ninguém, mas tarefa e responsabilidade de todos. O desafio que
temos pela frente, na vigília do terceiro milénio, é árduo: somente a
cooperação concorde de todos aqueles que acreditam no valor da vida,
poderá evitar uma derrota da civilização com consequências
imprevisíveis. |
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« Os
filhos são bênçãos do Senhor; os frutos do ventre, um mimo do Senhor »
(Sal 127 126, 3): a família « santuário da vida »
92. No seio
do « povo da vida e pela vida », resulta decisiva a
responsabilidade da família: é uma responsabilidade que brota da
própria natureza dela — uma comunidade de vida e de amor, fundada
sobre o matrimónio — e da sua missão que é « guardar, revelar e
comunicar o amor ». 117 Em causa está o próprio amor de Deus, do qual
os pais são constituídos colaboradores e como que intérpretes na
transmissão da vida e na educação da mesma segundo o seu projecto de
Pai. 118 É, por conseguinte, o amor que se faz generosidade,
acolhimento, doação: na família, cada um é reconhecido, respeitado e
honrado porque pessoa, e se alguém está mais necessitado, maior e mais
diligente é o cuidado por ele.
A família
tem a ver com os seus membros durante toda a existência de cada um,
desde o nascimento até à morte. Ela é verdadeiramente « o santuário
da vida (...), o lugar onde a vida, dom de Deus, pode ser
convenientemente acolhida e protegida contra os múltiplos ataques a
que está exposta, e pode desenvolver-se segundo as exigências de um
crescimento humano autêntico ». 119 Por isso, o papel da família é
determinante e insubstituível na construção da cultura da vida.
Como
igreja doméstica, a família é chamada a anunciar, celebrar e
servir o Evangelho da vida. Esta tríplice função compete
primariamente aos cônjuges, chamados a serem transmissores da vida,
apoiados numa consciência sempre renovada do sentido da
geração, enquanto acontecimento onde, de modo privilegiado, se
manifesta que a vida humana é um dom recebido a fim de, por sua
vez, ser dado. Na geração de uma nova vida, eles tomam consciência
de que o filho « se é fruto da recíproca doação de amor dos pais, é,
por sua vez, um dom para ambos: um dom que promana do dom ». 120
A família
cumpre a sua missão de anunciar o Evangelho da vida,
principalmente através da educação dos filhos. Pela palavra e
pelo exemplo, no relacionamento mútuo e nas opções quotidianas, e
mediante gestos e sinais concretos, os pais iniciam os seus filhos na
liberdade autêntica, que se realiza no dom sincero de si, e cultivam
neles o respeito do outro, o sentido da justiça, o acolhimento
cordial, o diálogo, o serviço generoso, a solidariedade e os demais
valores que ajudam a viver a existência como um dom. A obra educadora
dos pais cristãos deve constituir um serviço à fé dos filhos e prestar
uma ajuda para eles cumprirem a vocação recebida de Deus. Entra na
missão educadora dos pais ensinar e testemunhar aos filhos o
verdadeiro sentido do sofrimento e da morte: podê-lo-ão fazer se
souberem estar atentos a todo o sofrimento existente ao seu redor e,
antes ainda, se souberem desenvolver atitudes de solidariedade,
assistência e partilha com doentes e idosos no âmbito familiar.
93. Além
disso, a família celebra o Evangelho da vida com a oração
diária, individual e familiar: nela, agradece e louva o Senhor
pelo dom da vida e invoca luz e força para enfrentar os momentos de
dificuldade e sofrimento, sem nunca perder a esperança. Mas a
celebração que dá significado a qualquer outra forma de oração e de
culto é a que se exprime na existência quotidiana da família,
quando esta é uma existência feita de amor e doação.
A
celebração transforma-se assim num serviço ao Evangelho da vida,
que se exprime através da solidariedade, vivida no seio e
ao redor da família como atenção carinhosa, vigilante e cordial nas
acções pequenas e humildes de cada dia. Uma expressão particularmente
significativa de solidariedade entre as famílias é a disponibilidade
para a adopção ou para o acolhimento das crianças
abandonadas pelos seus pais ou, de qualquer modo, em situação de grave
dificuldade. O verdadeiro amor paterno e materno sabe ir além dos
laços da carne e do sangue para acolher também crianças de outras
famílias, oferecendo-lhes quanto seja necessário para a sua vida e o
seu pleno desenvolvimento. Entre as formas de adopção, merece ser
assinalada a adopção à distância, que se há-de preferir sempre
que o abandono tenha por único motivo as condições de grave pobreza da
família. Na realidade, com esta espécie de adopção é oferecida aos
pais a ajuda necessária para manter e educar os próprios filhos, sem
ter de os desarraigar do seu ambiente natural.
Concebida
como « determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum
», 121 a solidariedade requer ser também concretizada mediante formas
de participação social e política. Consequentemente, servir o
Evangelho da vida implica que as famílias, nomeadamente tomando
parte em apropriadas associações, se empenhem por que as leis e as
instituições do Estado não lesem de modo algum o direito à vida, desde
a sua concepção até à morte natural, mas o defendam e promovam.
94. Um
lugar especial há-de ser reconhecido aos idosos. Enquanto,
nalgumas culturas, a pessoa de mais idade permanece inserida na
família com um papel activo importante, noutras, ao contrário, quem
chegou à velhice é sentido como um peso inútil e fica abandonado a si
mesmo: em tal contexto, pode mais facilmente surgir a tentação de
recorrer à eutanásia.
A
marginalização ou mesmo a rejeição dos idosos é intolerável. A sua
presença na família ou, pelo menos, a estreita solidariedade desta com
eles quando, pelo reduzido espaço da habitação ou outros motivos, essa
presença não fosse possível, é de importância fundamental para criar
um clima de intercâmbio recíproco e de comunicação enriquecedora entre
as várias idades da vida. Por isso, é importante que se conserve, ou
se restabeleça onde tal se perdeu, uma espécie de « pacto » entre as
gerações, de modo que os pais idosos, chegados ao termo da sua
caminhada, possam encontrar nos filhos aquele acolhimento e
solidariedade que lhes tinham oferecido quando estes estavam a
desabrochar para a vida: exige-o a obediência ao mandamento divino que
ordena honrar o pai e a mãe (cf. Ex 20, 12; Lv 19, 3).
Mas há mais... O idoso não há-de ser considerado apenas objecto de
atenção, solidariedade e serviço. Também ele tem um valioso contributo
a prestar ao Evangelho da vida. Graças ao rico património de
experiência adquirido ao longo dos anos, o idoso pode e deve ser
transmissor de sabedoria, testemunha de esperança e de caridade.
Se é
verdade que « o futuro da humanidade
passa pela
família », 122 tem-se de reconhecer que as actuais condições sociais,
económicas e culturais frequentemente tornam mais árdua e penosa a
tarefa da família ao serviço da vida. Para poder realizar a sua
vocação de « santuário da vida », enquanto célula de uma sociedade que
ama e acolhe a vida, é necessário e urgente que a família como tal
seja ajudada e apoiada. As sociedades e os Estados devem assegurar
todo o apoio necessário, mesmo económico, para que as famílias possam
responder de forma mais humana aos próprios problemas. Por seu lado, a
Igreja deve promover incansavelmente uma pastoral familiar capaz de
ajudar cada família a redescobrir, com alegria e coragem, a sua missão
no que diz respeito ao Evangelho da vida. |
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«
Comportai-vos como filhos da luz » (Ef 5, 8): para realizar uma
viragem cultural
95. «
Comportai-vos como filhos da luz. (...) Procurai o que é agradável ao
Senhor, e não participeis das obras infrutuosas das trevas » (Ef
5, 8.10-11). No contexto social de hoje, marcado por uma luta
dramática entre a « cultura da vida » e a « cultura da morte »,
importa maturar um forte sentido crítico, capaz de discernir os
verdadeiros valores e as autênticas exigências.
Urge uma
mobilização geral das consciências e um esforço ético comum,
para se actuar uma grande estratégia a favor da vida. Todos
juntos devemos construir uma nova cultura da vida: nova, porque em
condições de enfrentar e resolver os problemas inéditos de hoje acerca
da vida do homem; nova, porque assumida com convicção mais firme e
laboriosa por todos os cristãos; nova, porque capaz de suscitar um
sério e corajoso confronto cultural com todos. A urgência desta
viragem cultural está ligada à situação histórica que estamos a
atravessar, mas radica-se sobretudo na própria missão evangelizadora
confiada à Igreja. De facto, o Evangelho visa « transformar a partir
de dentro e fazer nova a própria humanidade »; 123 é como o fermento
que leveda toda a massa (cf. Mt 13, 33) e, como tal, é
destinado a permear todas as culturas e a animá-las a partir de
dentro, 124 para que exprimam a verdade integral sobre o homem e sua
vida.
Tem-se de
começar por renovar a cultura da vida no seio das próprias
comunidades cristãs. Muitas vezes os crentes, mesmo até os que
participam activamente na vida eclesial, caiem numa espécie de
dissociação entre a fé cristã e as suas exigências éticas a propósito
da vida, chegando assim ao subjectivismo moral e a certos
comportamentos inaceitáveis. Devemos, pois, interrogar-nos, com grande
lucidez e coragem, acerca da cultura da vida que reina hoje entre os
indivíduos cristãos, as famílias, os grupos e as comunidades das
nossas Dioceses. Com igual clareza e decisão, teremos de individuar os
passos que somos chamados a dar para servir a vida na plenitude da sua
verdade. Ao mesmo tempo, devemos promover um confronto sério e
profundo com todos, inclusive com os não crentes, sobre os problemas
fundamentais da vida humana, tanto nos lugares da elaboração do
pensamento, como nos diversos âmbitos profissionais e nas situações
onde se desenrola diariamente a existência de cada um.
96. O
primeiro e fundamental passo para realizar esta viragem cultural
consiste na formação da consciência moral acerca do valor
incomensurável e inviolável de cada vida humana. Suma importância tem
aqui a descoberta do nexo indivisível entre vida e liberdade.
São bens inseparáveis: quando um é violado, o outro acaba por o ser
também. Não há liberdade verdadeira, onde a vida não é acolhida nem
amada; nem há vida plena senão na liberdade. Ambas as realidades têm,
ainda, um peculiar e natural ponto de referência que as une
indissoluvelmente: a vocação ao amor. Este, enquanto sincero dom de
si, 125 é o sentido mais verdadeiro da vida e da liberdade da pessoa.
Na formação
da consciência, igualmente decisiva é a descoberta do laço
constitutivo que une a liberdade à verdade. Como disse já várias
vezes, o desarraigar a liberdade da verdade objectiva torna impossível
fundar os direitos da pessoa sobre uma base racional sólida, e cria as
premissas para se afirmar, na sociedade, o arbítrio desenfreado dos
indivíduos ou o totalitarismo repressivo do poder público. 126
Então é
essencial que o homem reconheça a evidência primordial da sua condição
de criatura que recebe de Deus o ser e a vida como dom e tarefa: só
admitindo esta inata dependência no seu ser, pode o homem realizar em
plenitude a vida e a liberdade própria e, simultaneamente, respeitar
em toda a sua profundidade a vida e a liberdade alheia. É sobretudo
aqui que se manifesta como, « no centro de cada cultura, está o
comportamento que o homem assume diante do mistério maior: o mistério
de Deus ». 127 Quando se nega Deus e se vive como se Ele não existisse
ou de qualquer modo não se tem em conta os seus mandamentos, então
facilmente se acaba por negar ou comprometer também a dignidade da
pessoa humana e a inviolabilidade da sua vida.
97. À
formação da consciência está estritamente ligada a obra educativa,
que ajuda o homem a ser cada vez mais homem, introdu-lo sempre
mais profundamente na verdade, orienta-o para um crescente respeito da
vida, forma-o nas justas relações entre as pessoas.
De modo
particular, é necessário educar para o valor da vida,a começar das
suas próprias raízes. É uma ilusão pensar que se pode construir
uma verdadeira cultura da vida humana, se não se ajudam os jovens a
compreender e a viver a sexualidade, o amor e a existência inteira no
seu significado verdadeiro e na sua íntima correlação. A sexualidade,
riqueza da pessoa toda, « manifesta o seu significado íntimo ao levar
a pessoa ao dom de si no amor ». 128 A banalização da sexualidade
conta-se entre os principais factores que estão na origem do desprezo
pela vida nascente: só um amor verdadeiro sabe defender a vida. Não é
possível, pois, eximir-nos de oferecer, sobretudo aos adolescentes e
aos jovens, uma autêntica educação da sexualidade e do amor,
educação essa que requer a formação para a castidade, como
virtude que favorece a maturidade da pessoa e a torna capaz de
respeitar o significado « esponsal » do corpo.
A obra de
educação para a vida comporta a formação dos cônjuges sobre a
procriação responsável. No seu verdadeiro significado, esta exige
que os esposos sejam dóceis ao chamamento do Senhor e vivam como fiéis
intérpretes do seu desígnio: este cumpre-se com a generosa abertura da
família a novas vidas, permanecendo em atitude de acolhimento e de
serviço à vida, mesmo quando os cônjuges, por sérios motivos e no
respeito da lei moral, decidem evitar, com ou sem limites de tempo, um
novo nascimento. A lei moral obriga-os, em qualquer caso, a dominar as
tendências do instinto e das paixões e a respeitar as leis biológicas
inscritas na pessoa de ambos. É precisamente este respeito que torna
legítimo, ao serviço da procriação responsável, o recurso aos
métodos naturais de regulação da fertilidade: estes têm-se
aperfeiçoado progressivamente sob o ponto de vista científico e
oferecem possibilidades concretas para decisões de harmonia com os
valores morais. Uma honesta ponderação dos resultados conseguidos
deveria fazer ruir preconceitos ainda demasiado difusos e convencer os
cônjuges, bem como os profissionais da saúde e da assistência social,
sobre a importância de uma adequada formação a tal respeito. A Igreja
está agradecida àqueles que, com sacrifício pessoal e dedicação
frequentemente ignorada, se empenham na pesquisa e na difusão de tais
métodos, promovendo ao mesmo tempo uma educação dos valores morais que
o seu uso supõe.
A obra
educativa não pode deixar de tomar em consideração, ainda, o
sofrimento e a morte. Na realidade, ambos fazem parte da
experiência humana, e é vão, para além de ilusório, procurá-los
reprimir ou ignorar. Ao contrário, cada um deve ser ajudado a
compreender, na concreta e dura realidade, o seu mistério profundo.
Também a dor e o sofrimento têm um sentido e um valor, quando são
vividos em estreita ligação com o amor recebido e dado. Nesta
perspectiva, quis que se celebrasse anualmente o Dia Mundial do
Doente, fazendo ressaltar « a índole salvífica da oferta do
sofrimento, que, vivido em comunhão com Cristo, pertence à essência
mesma da redenção ». 129 Até a morte, aliás, não é de forma alguma
aventura sem esperança: é a porta da existência que se abre de par em
par à eternidade e, para aqueles que a vivem em Cristo, é experiência
de participação no mistério da sua morte e ressurreição.
98. Em
resumo, podemos dizer que a viragem cultural, aqui desejada, exige de
todos a coragem de assumir um novo estilo de vida que se
exprime colocando, no fundamento das decisões concretas — a nível
pessoal, familiar, social e internacional —, uma justa escala dos
valores: o primado do ser sobre o ter, 130 da pessoa sobre as
coisas. 131 Este novo estilo de vida implica também a passagem da
indiferença ao interesse pelo outro, a passagem da recusa ao
seu acolhimento: os outros não são concorrentes de quem temos de
nos defender, mas irmãos e irmãs de quem devemos ser solidários;
hão-de ser amados por si mesmos; enriquecem-nos pela sua própria
presença.
Na
mobilização por um nova cultura da vida, que ninguém se sinta
excluído: todos têm um papel importante a desempenhar. Ao lado
da tarefa das famílias, é particularmente valiosa a missão dos
professores e dos educadores. Deles está em larga medida
dependente a possibilidade de os jovens, formados para uma autêntica
liberdade, saberem preservar dentro de si e espalhar ao seu redor
ideais autênticos de vida, e saberem crescer no respeito e ao serviço
de cada pessoa, em família e na sociedade.
Também
os intelectuais muito podem fazer para construir uma nova cultura
da vida humana. Responsabilidade particular cabe aos intelectuais
católicos, chamados a estarem activamente presentes nas sedes
privilegiadas da elaboração cultural, ou seja, no mundo da escola e
das universidades, nos ambientes da investigação científica e técnica,
nos lugares da criação artística e da reflexão humanista. Alimentando
o seu génio e acção na seiva límpida do Evangelho, devem
comprometer-se ao serviço de uma nova cultura da vida, através da
produção de contributos sérios, documentados e capazes de se imporem
pelos seus méritos ao respeito e interesse de todos. Precisamente
nesta perspectiva, instituí a Pontifícia Academia para a Vida,
com a missão de « estudar, informar e formar acerca dos principais
problemas de biomedicina e de direito, relativos à promoção e à defesa
da vida, sobretudo na relação directa que eles têm com a moral cristã
e as directrizes do Magistério da Igreja ». 132 Um contributo
específico há-de vir das Universidades, em particular
católicas, e dos Centros, Institutos e Comissões de bioética.
Grande e
grave é a responsabilidade dos profissionais dos mass-media,
chamados a pugnarem por que as mensagens, transmitidas com tamanha
eficácia, sejam um verdadeiro contributo para a cultura da vida.
Importa, por isso, apresentar exemplos altos e nobres de vida e dar
espaço aos testemunhos positivos e por vezes heróicos de amor pelo
homem; propor, com grande respeito, os valores da sexualidade e do
amor, sem contemporizar com nada daquilo que deturpa e degrada a
dignidade do homem. Na leitura da realidade, hão-de recusar-se a pôr
em destaque tudo o que possa inspirar ou fazer crescer sentimentos ou
atitudes de indiferença, desprezo ou rejeição da vida. Na escrupulosa
fidelidade à verdade dos factos, eles são chamados a conjugar num todo
a liberdade de informação, o respeito por cada pessoa e um profundo
sentido de humanidade.
99. Nessa
viragem cultural a favor da vida, as mulheres têm um espaço de
pensamento e acção singular e talvez determinante: compete a elas
fazerem-se promotoras de um « novo feminismo » que, sem cair na
tentação de seguir modelos « masculinizados », saiba reconhecer e
exprimir o verdadeiro génio feminino em todas as manifestações da
convivência civil, trabalhando pela superação de toda a forma de
discriminação, violência e exploração.
Retomando
as palavras da mensagem conclusiva do Concílio Vaticano II, também eu
dirijo às mulheres este premente convite: « Reconciliai os homens com
a vida ». 133 Vós sois chamadas atestemunhar o sentido do amor
autêntico, daquele dom de si e acolhimento do outro, que se
realizam de modo específico na relação conjugal, mas devem ser também
a alma de qualquer outra relação interpessoal. A experiência da
maternidade proporciona-vos uma viva sensibilidade pela outra pessoa e
confere-vos, ao mesmo tempo, uma missão particular: « A maternidade
comporta uma comunhão especial com o mistério da vida, que amadurece
no seio da mulher. (...) Este modo único de contacto com o novo homem
que se está formando, cria, por sua vez, uma atitude tal para com o
homem — não só para com o próprio filho, mas para com o homem em geral
— que caracteriza profundamente toda a personalidade da mulher ». 134
Com efeito, a mãe acolhe e leva dentro de si um outro, proporciona-lhe
forma de crescer no seu seio, dá-lhe espaço, respeitando-o na sua
diferença. Deste modo, a mulher percebe e ensina que as relações
humanas são autênticas quando se abrem ao acolhimento da outra pessoa,
reconhecida e amada pela dignidade que lhe advém do facto mesmo de ser
pessoa e não de outros factores, como a utilidade, a força, a
inteligência, a beleza, a saúde. Este é o contributo fundamental que a
Igreja e a humanidade esperam das mulheres. E é premissa
insubstituível para uma autêntica viragem cultural.
Um
pensamento especial quereria reservá-lo para vós, mulheres, que
recorrestes ao aborto. A Igreja está a par dos numerosos
condicionalismos que poderiam ter influído sobre a vossa decisão, e
não duvida que, em muitos casos, se tratou de uma decisão difícil,
talvez dramática. Provavelmente a ferida no vosso espírito ainda não
está sarada. Na realidade, aquilo que aconteceu, foi e permanece
profundamente injusto. Mas não vos deixeis cair no desânimo, nem
percais a esperança. Sabei, antes, compreender o que se verificou e
interpretai-o em toda a sua verdade. Se não o fizestes ainda, abri-vos
com humildade e confiança ao arrependimento: o Pai de toda a
misericórdia espera-vos para vos oferecer o seu perdão e a sua paz no
sacramento da Reconciliação. Dar-vos-eis conta de que nada está
perdido, e podereis pedir perdão também ao vosso filho que agora vive
no Senhor. Ajudadas pelo conselho e pela solidariedade de pessoas
amigas e competentes, podereis contar-vos, com o vosso doloroso
testemunho, entre os mais eloquentes defensores do direito de todos à
vida. Através do vosso compromisso a favor da vida, coroado
eventualmente com o nascimento de novos filhos e exercido através do
acolhimento e atenção a quem está mais carecido de solidariedade,
sereis artífices de um novo modo de olhar a vida do homem.
100. Neste
grande esforço por uma nova cultura da vida, somossustentados e
fortalecidos pela confiança de quem sabe que oEvangelho da
vida, como o Reino de Deus, cresce e dá frutos abundantes (cf.
Mc 4, 26-29). Certamente é enorme a desproporção existente entre
os meios numerosos e potentes, de que estão dotadas as forças
propulsoras da « cultura da morte », e os meios de que dispõem os
promotores de uma « cultura da vida e do amor ». Mas nós sabemos que
podemos confiar na ajuda de Deus, para Quem nada é impossível (cf.
Mt 19, 26).
Com esta
certeza no coração e movido de pungente solicitude pela sorte de cada
homem e mulher, repito hoje a todos aquilo que disse às famílias,
empenhadas em suas difíceis tarefas por entre as ciladas que as
ameaçam: 135 é urgente uma grande oração pela vida, que
atravesse o mundo inteiro. Com iniciativas extraordinárias e na oração
habitual, de cada comunidade cristã, de cada grupo ou associação, de
cada família e do coração de cada crente eleve-se uma súplica veemente
a Deus, Criador e amante da vida. O próprio Jesus nos mostrou com o
seu exemplo que a oração e o jejum são as armas principais e mais
eficazes contra as forças do mal (cf. Mt 4, 1-11), e ensinou
aos seus discípulos que alguns demónios só desse modo se expulsam (cf.
Mc 9, 29). Então, encontremos novamente a humildade e a coragem
de orar e jejuar, para conseguir que a força que vem do Alto
faça ruir os muros de enganos e mentiras que escondem, aos olhos de
muitos dos nossos irmãos e irmãs, a natureza perversa de
comportamentos e de leis contrárias à vida, e abra os seus corações a
propósitos e desígnios inspirados na civilização da vida e do amor. |
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«
Escrevemo-vos estas coisas para que a vossa alegria seja completa »
(1 Jo 1, 4): o Evangelho da vida é para bem da cidade
dos homens
101. «
Escrevemo-vos estas coisas, para que a vossa alegria seja completa » (1
Jo 1, 4). A revelação do Evangelho da vida foi-nos confiada
como um bem que há-de ser comunicado a todos: para que todos os homens
estejam em comunhão connosco e com a Santíssima Trindade (cf. 1 Jo
1, 3). Nem nós poderíamos viver em alegria plena, se não
comunicássemos este Evangelho aos outros, mas o guardássemos apenas
para nós.
O
Evangelho da vida não é exclusivamente para os crentes:
destina-se a todos. A questão da vida e da sua defesa e promoção
não é prerrogativa unicamente dos cristãos. Mesmo se recebe uma luz e
força extraordinária da fé, aquela pertence a cada consciência humana
que aspira pela verdade e vive atenta e apreensiva pela sorte da
humanidade. Na vida, existe seguramente um valor sagrado e religioso,
mas de modo algum este interpela apenas os crentes: trata-se, com
efeito, de um valor que todo o ser humano pode enxergar, mesmo com a
luz da razão, e, por isso, diz necessariamente respeito a todos.
Por isso, a
nossa acção de « povo da vida e pela vida » pede para ser interpretada
de modo justo e acolhida com simpatia. Quando a Igreja declara que o
respeito incondicional do direito à vida de toda a pessoa inocente —
desde a sua concepção até à morte natural — é um dos pilares sobre o
qual assenta toda a sociedade, ela « quer simplesmente promover um
Estado humano. Um Estado que reconheça como seu dever primário a
defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente da
mais débil ». 136
O
Evangelho da vida é para bem da cidade dos homens. Actuar em favor
da vida é contribuir para o renovamento da sociedade, através
da edificação do bem comum. De facto, não é possível construir o bem
comum sem reconhecer e tutelar o direito à vida, sobre o qual se
fundamentam e desenvolvem todos os restantes direitos inalienáveis do
ser humano. Nem pode ter sólidas bases uma sociedade que se contradiz
radicalmente, já que por um lado afirma valores como a dignidade da
pessoa, a justiça e a paz, mas por outro aceita ou tolera as mais
diversas formas de desprezo e violação da vida humana, sobretudo se
débil e marginalizada. Só o respeito da vida pode fundar e garantir
bens tão preciosos e necessários à sociedade como a democracia e a
paz.
De facto,
não pode haver verdadeira democracia, se não é reconhecida a
dignidade de cada pessoa e não se respeitam os seus direitos.
Nem pode
haver verdadeira paz, se não se defende e promove a vida,
como recordava Paulo VI: « Todo o crime contra a vida é um
atentado contra a paz, especialmente se ele viola os costumes do povo
(...), enquanto nos lugares onde os direitos do homem são realmente
professados e publicamente reconhecidos e defendidos, a paz torna-se a
atmosfera feliz e geradora de convivência social ». 137
O « povo da
vida » alegra-se de poder partilhar o seu empenho com muitos outros,
de modo que seja cada vez mais numeroso o « povo pela vida », e a nova
cultura do amor e da solidariedade possa crescer para o verdadeiro bem
da cidade dos homens. |
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CONCLUSÃO
102.
Chegados ao termo desta Encíclica, espontaneamente o olhar volta a
fixar-se no Senhor Jesus, o « Menino nascido para nós » (cf. Is
9, 5), a fim de n'Ele contemplar « a Vida » que « se manifestou » (1
Jo 1, 2). No mistério deste nascimento, realiza-se o encontro de
Deus com o homem e tem início o caminho do Filho de Deus sobre a
terra, caminho esse que culminará com o dom da vida na Cruz: com a sua
morte, Ele vencerá a morte e tornar-Se-á para a humanidade princípio
de vida nova.
Quem esteve
a acolher « a vida » em nome e proveito de todos, foi Maria, a Virgem
Mãe, a qual, por isso mesmo, mantém laços pessoais estreitíssimos com
o Evangelho da vida. O consentimento de Maria, na Anunciação, e
a sua maternidade situam-se na própria fonte do mistério daquela vida,
que Cristo veio dar aos homens (cf. Jo 10, 10). Através do
acolhimento e carinho que Ela prestou à vida do Verbo feito carne, a
vida do homem foi salva da condenação à morte definitiva e eterna.
Por isso, «
como a Igreja, de que é figura, Maria é a Mãe de todos os que renascem
para a vida. Ela é verdadeiramente a Mãe da Vida que faz viver todos
os homens; ao gerar a Vida, gerou de certo modo todos aqueles que
haviam de viver dessa Vida ». 138
Ao
contemplar a maternidade de Maria, a Igreja descobre o sentido da
própria maternidade e o modo como é chamada a exprimi-la. Ao mesmo
tempo, a experiência materna da Igreja entreabre uma perspectiva mais
profunda para compreender a experiência de Maria, qual modelo
incomparável de acolhimento e cuidado da vida. |
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«
Apareceu um grande sinal no Céu: uma mulher revestida de Sol » (Ap
12, 1): a maternidade de Maria e da Igreja
103. A
relação recíproca entre Maria e o mistério da Igreja manifesta-se
claramente no « grande sinal » descrito no Apocalipse: « Apareceu um
grande sinal no céu: uma mulher revestida de Sol, tendo a Lua debaixo
dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça » (12, 1).
Neste sinal, a Igreja reconhece uma imagem do próprio mistério: apesar
de imersa na história, ela está consciente de a transcender, porquanto
constitui na terra « o germe e o princípio » do Reino de Deus. 139 Tal
mistério, a Igreja vê-o realizado, de modo pleno e exemplar, em Maria.
É Ela a mulher gloriosa, na qual o desígnio de Deus se pôde actuar com
a máxima perfeição.
Aquela «
mulher revestida de Sol » — assinala o Livro do Apocalipse — « estava
grávida » (12, 2). A Igreja está plenamente consciente de trazer em si
o Salvador do mundo, Cristo Senhor, e de ser chamada a dá-Lo ao mundo,
regenerando os homens para a própria vida de Deus. Mas não pode
esquecer que esta sua missão tornou-se possível pela maternidade de
Maria, que concebeu e deu à luz Aquele que é « Deus de Deus », « Deus
verdadeiro de Deus verdadeiro ». Maria é verdadeiramente a Mãe de
Deus, a Theotokos, em cuja maternidade é exaltada, até ao grau
supremo, a vocação à maternidade inscrita por Deus em cada mulher.
Assim Maria apresenta-se como modelo para a Igreja, chamada a ser a «
nova Eva », mãe dos crentes, mãe dos « viventes » (cf. Gn 3,
20).
A
maternidade espiritual da Igreja só se realiza — também disto está
ciente a Igreja — no meio das ânsias e « dores de parto » (Ap
12, 2), isto é, em perene tensão com as forças do mal, que continuam a
sulcar o mundo e a dominar o coração dos homens, que opõem resistência
a Cristo: « N'Ele estava a Vida e a Vida era a luz dos homens; a luz
resplandece nas trevas, mas as trevas não a acolheram » (Jo 1,
4-5).
À
semelhança da Igreja, também Maria teve de viver a sua maternidade sob
o signo do sofrimento: « Este Menino está aqui (...) para ser sinal de
contradição; uma espada trespassará a tua alma, a fim de se revelarem
os pensamentos de muitos corações » (Lc 2, 34-35). Nas palavras
que Simeão dirige a Maria, já no alvorecer da existência do Salvador,
está sinteticamente representada aquela rejeição de Jesus — e com Ele
a rejeição de Maria —, que culmina no Calvário. « Junto da cruz de
Jesus » (Jo 19, 25), Maria participa no dom que o Filho faz de
Si mesmo: oferece Jesus, dá-O, gera-O definitivamente para nós. O «
sim » do dia da Anunciação amadurece plenamente no dia da Cruz, quando
chega para Maria o tempo de acolher e gerar como filho cada homem
feito discípulo, derramando sobre ele o amor redentor do Filho: «
Então Jesus, ao ver sua mãe e junto dela, o discípulo que Ele amava,
Jesus disse a sua mãe: "Mulher, eis aí o teu filho" » (Jo 19,
26). |
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« O
dragão deteve-se diante da mulher (...) para lhe devorar o filho que
estava para nascer » (Ap 12, 4): a vida ameaçada pelas
forças do mal
104. No
Livro do Apocalipse, o « grande sinal » da « mulher » (12, 1) é
acompanhado por « outro sinal no céu »: « um grande dragão vermelho »
(12, 3), que representa Satanás, potência pessoal maléfica, e
conjuntamente todas as forças do mal que agem na história e contrariam
a missão da Igreja.
Também
nisto, Maria ilumina a Comunidade dos Crentes: de facto, a hostilidade
das forças do mal é uma obstinada oposição que, antes de tocar os
discípulos de Jesus, se dirige contra a sua Mãe. Para salvar a vida do
Filho daqueles que O temem como se fosse uma perigosa ameaça, Maria
tem de fugir com José e o Menino para o Egipto (cf. Mt 2,
13-15).
Assim,
Maria ajuda a Igreja a tomar consciência de que a vida está sempre
no centro de uma grande luta entre o bem e o mal, entre a luz e as
trevas. O dragão queria devorar « o filho que estava para nascer » (Ap
12, 4), figura de Cristo, que Maria gera na « plenitude dos tempos
» (Gal 4, 4) e que a Igreja deve continuamente oferecer aos
homens nas sucessivas épocas da história. Mas é também, de algum modo,
figura de cada homem, de cada criança, sobretudo de cada criatura
débil e ameaçada, porque — como recorda o Concílio — « pela sua
encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-Se de certo modo a cada homem
». 140 Precisamente na « carne » de cada homem, Cristo continua a
revelar-Se e a entrar em comunhão connosco, pelo que a rejeição da
vida do homem, nas suas diversas formas, é realmente rejeição
de Cristo. Esta é a verdade fascinante mas exigente, que Cristo
nos manifesta e que a sua Igreja incansavelmente propõe: « Quem
receber um menino como este, em meu nome, é a Mim que recebe » (Mt
18, 5); « Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um
destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes » (Mt
25, 40). |
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« Não
mais haverá morte » (Ap 21, 4): o esplendor da
ressurreição
105. A
anunciação do anjo a Maria está inserida no meio destas expressões
tranquilizadoras: « Não tenhas receio, Maria » e « Nada é impossível a
Deus » (Lc 1, 30.37). Na verdade, toda a existência da Virgem
Mãe está envolvida pela certeza de que Deus está com Ela e A acompanha
com a sua benevolência providente. O mesmo se passa também com a
existência da Igreja que encontra « um refúgio » (cf. Ap 12, 6)
no deserto, lugar da provação mas também da manifestação do amor de
Deus pelo seu povo (cf. Os 2, 16). Maria é uma mensagem de viva
consolação para a Igreja na sua luta contra a morte. Ao mostrar-nos o
seu Filho, assegura-nos que n'Ele as forças da morte já foram
vencidas: « Morte e vida combateram, mas o Príncipe da vida reina vivo
após a morte ». 141
O
Cordeiro imolado vive com os sinais da paixão, no esplendor da
ressurreição. Só Ele domina todos os acontecimentos da história: abre
os seus « selos » (cf. Ap 5, 1-10) e consolida, no tempo e para
além dele, o poder da vida sobre a morte. Na « nova Jerusalém
», ou seja, no mundo novo para o qual tende a história dos homens,
« não mais haverá morte, nem pranto, nem gritos, nem dor, por que
as primeiras coisas passaram » (Ap 21, 4).
Como povo
peregrino, povo da vida e pela vida, enquanto caminhamos confiantes
para « um novo céu e uma nova terra » (Ap 21, 1), voltamos o
olhar para Aquela que é para nós « sinal de esperança segura e
consolação ». 142
Ó Maria,
aurora do mundo novo,
Mãe dos viventes,
confiamo-Vos a causa da vida:
olhai, Mãe,
para o número sem fim
de crianças a quem é impedido nascer,
de pobres para quem se torna difícil viver,
de homens e mulheres
vítimas de inumana violência,
de idosos e doentes assassinados
pela indiferença
ou por uma presunta compaixão.
Fazei com que todos aqueles que crêem
no vosso Filho
saibam anunciar com desassombro e amor
aos homens do nosso tempo
o Evangelho da vida.
Alcançai-lhes a graça de o acolher
como um dom sempre novo,
a alegria de o celebrar com gratidão
em toda a sua existência,
e a coragem para o testemunhar
com laboriosa tenacidade,
para construírem,
juntamente com todos os homens
de boa vontade,
a civilização da verdade e do amor,
para louvor e glória de Deus Criador
e amante da vida.
Dado em
Roma, junto de S. Pedro, no dia 25 de Março, solenidade da Anunciação
do Senhor, do ano 1995, décimo sétimo de Pontificado. |
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